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A vida dos outros, as aventuras não vividas

Ninguém nega que o individualismo cresce e se globaliza. Todo mundo adora uma contemplação no espelho. Os cremes de beleza atraem e custam caro, mas a classe média delira com a possibilidade de tê-lo. As cerimônias de higiene são complexas. Nada como um bom perfume, daquele que seduz. Portanto, o encontro matinal está repleto de fantasias. O bom dia é reforçado, com uma pergunta: estou bem alegre e simpático? O outro é quem julga. Temos preferências, precisamos de apoios. Assim, sobrevive a sociedade de consumo, sempre ligada numa fofoca e na vaidade atormentada.

A política continua desmantelada, Há ídolos. Moro possui fãs. Mas há divergências. Temer fica no canto, namorando com Marcela, sem saber o que significa sair do sufoco. As prisões estão tensas. No entanto, o mundo das fofocas provoca sensações. O que será que o Jornal Nacional apresentará como novidade? Lembra-se de Chico Anísio? E Regina Duarte é conservadora? O público gosta de casamentos desfeitos, de sexualidades mal resolvidas, de salários extraordinários. A vida ganha cores. Poucos se importam com as escolas decadentes, a droga nas praças, o trânsito infernizando.

Esse olhar se amplia. Cai a responsabilidade social. A corrida é pelo sucesso. Ninguém consegue esclarecer o apego pelas novelas mesquinhas e pelos maores fabricados. O mundo não se desfaz das sua esfinges, desde o tempos dos faraós. As famílias para pescar as imagens da TV. Não se discute, não se conhece, não admira. Há sempre exceções; As sociabilidades estão se complicando. É difícil compreender as inúmeras linguagens e as as tonturas das legalidades. É incrível como tudo muda, porém as curiosidades perversas se conservam. Já que a história não tem um sentido definido, há momentos crus e culpas pesadas.

A relação com o outros se torna-se uma aventura. Andamos, muitas vezes, de cabeça baixa, nem contemplamos as paisagens. O outro vira um número de celular. A paisagem se enche que concretos, desarmando a natureza. O alimento é a  manchete, o time de futebol, o discurso do Faustão. Vestimos a roupa de espectadores. Não importa que a revolução não venha, que os governos nos estraguem, que os milhões fiquem com Eike. A sociedade se afasta da solidariedade. Não está longe o dia em que alguém dirá que o homem não é uma animal.

Buscamos. Ninguém ficou mundo. Mas quem deseja ouvir o que o outro afirmou? Cada dia surge uma teoria sobre sentimento, o esticar do corpo, a depressão repentina.Muita informação custa muita confusão. Um gosto de amargura já poluiu a pasta de dente. O caminho não tem retas, nem asfaltos. Ficamos apontando para cada construção nova e nem observamos as ruínas. Sem adivinhar o futuro, solto na nostalgia, pouco aprendemos. O mundo deveria ser dos poetas, porém há uma fuga da beleza e uma mesmice que cansa a imaginação. Deixaram de inventar sonhos, para liquidar o vizinho incômdo.

 

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O mundo freudiano

Desfaça a alegria fabricada e a insensatez

dos juízes ensandecidos.

Descobra o manto que escondeu o tempo

e a vida que se foi para o abismo.

O mundo se perde no pequeno caos da arrogância,

deixa-se levar pelas formas das mercadorias.

Não grite por ninguém,  apague a luz da lâmpada azul

e espere os anjos que estão voltando do paraíso.

No quarto estreito Freud arma seu divã cinza,

há padecimentos e tonturas no corpo que envelhece.

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De quem é a festa? De quem é a máscara?

O carnaval está no ponto. Muita animação que se amplia na mídia. Parece que  haverá uma mudança radical. Mas o carnaval possui máscaras, esconderijos fantásticos. Fica uma ressaca imensa. A alegria se apressa ou a cachaça se vai. Dizem que tudo é permitido. Pura ilusão. Há repressões e limites, embora as portas abertas ajudem a dança das aventuras. Festa bonita, de cores,de desejo. No entanto, a propaganda invade sua estética. É a festa das grandes arrecadações de impostos, de fazer amizades políticas, de buscar paixões arrepiantes. Quem pode negar sua força que enebriar deuses. Nessa época, tudo se mistura. Apocalipse instântaneo?

A cultura não dispensa brincadeiras. A crise não afugenta as travessuras. Mesmo depois de tragédias, a sociedade busca retomar o cotidiano. Não há como jogar fora a criatividade. O carnaval  é festa de multidões. Há quebras de tradições , de valores e muito delírio. Mas isso também ocorre no cotidiano. O mundo se revira e reinventa, apesar das massificações e da vontade de recordar o passado. Quem pode se livrar das  nostalgias? O carnaval que brincava era outro. Mais leve, menos violento, mais familiar. Hoje, o pique é atômico e minha energia não consegue acompanhá-lo. Um movimento que me deixa sem fôlego e prefiro descansar.

Assim, é a cultura. A possibilidade de vivê-la está envolvida com escolhas frequentes. O caos vai e volta, porém as pessoas buscam não perder o ânimo. Nunca se viu tantas incertezas juntas e cinismos soltos degradando a ética. Fico perplexo com a agilidade dos juízes para afirmar sentenças. Tudo passa pelo Supremo, com imensa arrogância e sede de está na mídia. Muita correnteza leva tudo. A sociedade perde a confiança, mas o sorriso nos lábios de Temer não se queima. Montou um grupo cheio de pecados. Há muitas espertezas. Talvez, a grande festa seja dele e dos companheiros de políticas obscuras. O acaso mora perto das assombrações e fantasmas gostam de sustos embriagado.

O carnaval passa rápido, desarma alegrias. O que fazer? Não  se finalizam os  divertimentos, depressões, desenganos, golpes. Não penso que a complexidade se extinguirá. Cair no conto do juízo final é ingenuidade. Fantasias de anjos e de demônios estão firmes com sua latinha de cerveja. Imagino como o Rio de Janeiro evitará as violências. O comércio de drogas se agiganta. As dúvidas sacodem desejos e há quem fuja para dentro de si. Quando a música dá um arrepio. Os limites se contorcem. Sobe-se ladeira, leva-se empurrão, esquece-se da dívida. Somos seres levados pelo inesperado. A vida tem feitiço. A festa  chama, sem prometer que a agonia se acabará. As máscara estão prontas, não precisa fabricá-las.

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Choques e disfarces: jogo tenso da violência e da política

É difícil caminhar sossegado pelas ruas. Os ruídos do carnaval estão salientes. As multidões se preparam para folia e as cervejas mostram-se dispostas a aliciar foliões. A festa se aproxima como uma homenagem a um belo delírio fugaz. A sociedade está mesmo tensa. A violência é veloz e visita o mundo. Assaltos cotidianos aos ônibus, roubos de automóveis, manobras golpistas, fogo nas penitenciárias. Como classificar a multiplicidade de emboscadas que assustam e intimidam? Em Paris, o medo também sobrevive. Há um monitoramento de pessoas suspeitas de terrorismo que coloca a cidade em agonia. A Europa parece pedir perdão pelas colonizações agressivas do passado. Qual é a saída? Os preconceitos se renovam e não adianta celebrar descobertas científicas. Pior é o desamparo frequente.

As conversas tornam-se terapias. Cada um conta sua aventura nada agradável. Os brasileiros estão temerosos. Trump promete varrer os clandestinos. Miami não é mais um sonho. Ninguém compreender o que se passa. Talvez, uma transformação na exploração capitalista. A China está de olhos abertos. Putin joga duro. Portanto, a insegurança e a instabilidade unem-se para empurrar os cidadãos para o inferno. Há ambiguidade profundas. Muita gente negocia com ódios. Distribui ofensas, canta mortes, desprezam os outros em nome de hierarquias. O interesse tira a máscara e  mostra as hipocrisias sofisticadas. Os cargos atraem e as consultoria se somam ao som das moedas. O homem cordial vestiu-se com a roupa do ódio gratuito e traiçoeiro e com máscara do capeta.

Por aqui, a política não deixa de ferver. As turbulências se formam rapidamente. A morte de Marisa foi tema de discussões. Assustei-me com a ferocidade de alguns. Lula reviu ex-aliados, recebeu cumprimentos, fez discurso, retomou lutas e memórias. As agitações não cessam, pois as delações ameaçam, afugentam. Quem pagará por tanta devassidão e esperteza? Maia e Eunício dirigirão o Congresso. Temer não consegue se firmar. Faltam o carisma , a confiança e um projeto que convença. É uma atmosfera tenebrosa, com greves, de policiais, assustadoras. Há pessoas que comparam Marisa a Ruth. Querem desqualificar por motivos acadêmicos a trajetória de Marisa. Apresentam-se julgamentos que revelam angústias e insônias, revelam que os sentimentos abrem e fecham portas. A culpa aparece ornamentada.

Nas ruínas, estão pedaços de corpos e corações dilacerados. A salvação é um desejo. Mas observe quem a promete? O território da política possui minas assassinas. A violência não se amplia à toa. Quem governa pensa no coletivo ou se infiltra nos cofres públicos? Há desculpas para tudo. Fala-se na crise econômica como réu primeiro. Quando havia grana quem se apossava dela? Fico perplexo com a indignidade. Os valores se amesquinham. O autoritarismo ataca. Freud tinha razão. As lacunas são muitas, as intrigas superam os afetos, a prazer é um espetáculo que traz perigos e drogas. O mal estar se instalou. A telecomunicação não supera as distâncias, porém inventa outras. O medo de andar nas ruas é expressivo. Como é possível dialogar? O luxo vai para o lixo, mas a tensão permanece e a distopia também. A justiça adora as liminares aprendizes de cabeças redondas.

 

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Os impedimentos doentios

Duvido que as fronteiras impeçam movimentos.

A loucura pode ser uma máscara, sem esquizofrenias,

e a feitiçaria um vaso dourado com veneno especial

Pulo a política que renega o encontro e a fantasia,

engano a lei da gravidade com sonhos inesperados,

não sonho com quem sona com o fim do mundo e do abraço.

Há histórias queimadas por destino cativos

e o império de mercadorias que tangem as flores.

Não desacredite no inferno terrestre, na dominação do desgoverno.

Não fique, porém, no muro da agonia como um paciente perdido,

fabricando ódios mesquinhos e saberes  torturantes

Ressalte o grito, fuja do voo dos pássaros que acompanham assassinos,

desfabrique ídolos que assombram o ilusão jogando covardias e medos.

Imagine o espelho do corpo flutuando no meio dos anjos tardios.

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A universidade: entradas, saídas, levitações

 

Conhecer os segredos do mundo é um desafio que abraça a cultura. Não basta acumular informações, descrever manchetes, engolir filmes com cheiro de pipoca. Existem muitas histórias e o trem da verdade é feito de madeira vulnerável. Quem se abala em saber que as mentiras circulam? Seria difícil uma sociedade produtora de saberes transparentes. A ordem e o progresso é o lema do atual governo. Lembra as ilusões do século  XIX. Não faltam concepções de mundo e o positivismo foi marcante. Longe de mim querer revê-lo. Tudo tem seu tempo, diz minha mãe. Fico distante dessas invenções fabricadas com intenções nada agradáveis. Não sou temeroso.

Mas não faltam assuntos. Recentemente, as ocupações na universidade apresentaram-se como uma inquietação. Não foram rebeldias como 1968, tinham outros propósitos, enfrentavam outras questões. Os partidos estão cheios de cupins, portanto lá se foi a época dos grandes líderes. Há uma carência brutal de políticos que possuam dignidade. Há uma predileção por armadilhas. As ocupações abalaram o lugar do saber tão cheio de penúrias. Não houve homogeneidade. Alguns, apenas, lançaram palavras de ordens, seguiram sem transtornos. Outros  foram silenciosos, mas um encontro especial e uma necessidade de balançar o imóvel. O profano e o sagrado se desencontram.

As insatisfações eram visíveis. As hostilidades cavaram abismos entre estudantes e professores. Os afetos sentiram-se tontos, alguns não aceitavam conversas. Criou-se uma outra atmosfera. Moveram-se ideias, derrubaram-se tradições, sonhos anarquistas se remontaram. Os pequenos partidos atuaram, houve fragmentações, celebrações, debates e muitas assembleias. Causaram certos pânicos e urgências. A universidade está com problemas graves e não quer olhar para eles, afirmam muitos. As hierarquias consolidam-se, festejam burocracias e impessoalidades. Isso incomoda e enfraquece a formação de uma ética ágil e solidária. Houve um suspense geral. Entradas e saídas estreitas impedem a levitação. A universidade é republicana ou se envolve com certos traços medievais?

A questão maior é firmar estratégias e fazer o cerco à ordem dominante. Canta-se a liberdade, mas não se permite compreender limites. Elogia-se o desejo de quebrar barreiras, os ressentimentos afloram, os donos do poder se arrepiam. O confronto se coloca. A universidade está além da mesquinhez do conhecimento dos pontos acadêmicos. É fundamental ouvir, não desprezar os azares e as sortes. O capitalismo se reorganiza, o mercado de trabalho se encolhe, os golpes doem na alma e no corpo. Não esqueçam de 1968. O marxismo se entrelaçou com o anarquismo, Mao foi lembrado, Stalin condenado, a burguesia julgada. A poética estava presente e a mercadoria se diluía.

O tempo é outro. O Brasil convive com perda de valores acelerada. Em quem confiar?  A universidade deve se pensar como instituição de experiências múltiplas, cultivar memórias abertas, não jogar fora a autonomia. Não podemos reproduzir políticas de espertezas. A democracia não se resolve com eleições programadas. Como socializar o poder e a cultura? A ciência não é absoluta, fortalece também arrogâncias. E a dimensão estética, as cores, as formas, as arquiteturas, os sons, os encontros, a coragem? Há choques que atiçam ações. A divisão social do trabalho mantém a exploração. O céu azul, iluminado, sedutor não é espelho. Quem se esconde, se veste de cinza e de melancolia. É preciso entender que o mundo é vasto como o coração. Congelá-los é um suicídio.

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A solidão é companheira do mundo

 

Vejo multidões nos estádios de  futebol. Cantam, gritam, se emocionam. É uma grande festa com cores e geometrias inesquecíveis. Tudo parece um paraíso com celebração deslumbrantes. A festa passa. A ressaca surge. Os segredos pessoais continuam. Há sempre um retorno à solidão. Há pressa e desconforto quando o outro se aproxima. Será que vivemos num mundo de emboscadas constantes? As neuroses estão firmes, não abandonam a cultura. O medo do amor é visível e a sexualidade ganha debates cotidianos. As aparências não dizem tudo. Mudamos, mas conservamos as incompletudes. Leia Elizabeth Roudinesco e sinta como flutuamos sem cessar. O labirinto permanece indestrutível e com cartografias do acaso.

Fiquei impressionado com uma nota do Facebook. Há mulheres que ganham dinheiro abraçando homens carentes. Profissionais do afeto, talvez, também mudas nas suas solidões incontornáveis. Os consultórios dos psicanalistas estão cheios e as farmácias faturam alto. Quanto maior a crise, mais a sociedade busca amparos. Tudo está muito torto ou desgovernado. Congela-se  uma desconfiança marcante e doentia. Quem está conosco? Olhamos os quartos vazios, as ruas ruidosas, porém o silêncio interior atormenta. Temos dificuldades e não poucas. Não se trata, apenas, de grana. Somos animais sociais e  exercemos com mesquinhez a simpatia e a solidariedade. Há deslocamentos que não admitem os mitos de Prometeu e Édipo.

O cuidado é com a economia e a suspeita. Quem foi preso, quem roubou, quanta custa o novo celular, qual é o destino de Temer? O espelho revela migalhas. Vemos imagens envelhecidas pelas dúvidas. pessoas torturadas pelos seus ódios. De onde viemos? O capitalismo caminha para o apocalipse? Procuramos respostas nas reflexões dos especialistas. É importante a impessoalidade, defendem alguns. Desprezamos diálogos passados, não ouvimos relatos de experiências, algo nos faz se envolver com exílios. O inferno mora nos outros ou em nós mesmos? Sempre a interrogações, os vazios, as vitrines, as buzinas, o vizinho calado. Os sonhos  se reduzem  e as mercadorias  oferecem ambições contínuas. E os anjos da guarda? Estão curtindo as férias? Foram assustar os delírios programados de Trump?

Não celebremos o caos infinito. Nem todos se fecham e dormem assistindo aos seriados de TV. No entanto, não é espantoso que,nos lugares públicos, apesar das imagens e dos risos, se falem de coisas que aumentam a solidão. Não estamos no fim do mundo. Não sei quando o decreto divino vai funcionar. Tenho outras expectativas, para além do Supremo Tribunal e das astúcias venenosas de Sérgio Cabral. Criou-se uma atmosfera de embates que nos cansa. A sensação de perda não é rara. Gente afogado no ressentimento e nem percebe.O pessimismo  ataca e as psicoses não se vão. O que fazer? Gosto de bater papo, com os outros e comigo mesmo. Por que abandonar o mundo? Um abraço vale um dia, nunca recuso o afeto e a troca de alegria. Quem se esconde na solidão não descobre as aventuras. O aperto do preconceito social é que desfaz as batidas do coração.

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Os estragos violentos da história nos pertencem

Os debates são antigos. Não cessarão. Há quem considere a história o lugar privilegiado da mudança e das invenções. Ficam perplexos quando se  afirmam as permanências. Os dias passam e a violência não se vai. Agora, os racismos voltam com muita força e tornam-se sinais de arrogâncias que pareciam superadas. Assisto a cenas diárias que me constrangem e me complicam. Penso que há voltas que atordoam, intimidam, falsificam generosidades.Espalham-se pelo mundo epidemias perigosas. Ansiedades crônicas. depressões cotidianas, etnocentrismos sofisticados, desemparos esquisitos. Não é à toa que Trump se agita e muitos sentem saudades da ditadura. E os que celebram a morte do outro? Que animal é esse que se diz divino ou filho de um deus? Fomos feitos com uma argila de uma liquidação?

A terra não é mesmo o centro do universo. As almas só assustam procurando céus e infernos. Pedro está desempregado, pois as portarias são de ferro e os anjos desistiram de salvar os pecadores. Os gestos de afeto produzem espanto. As palavras se cortam, querem objetividades, reclamam das meiguices, adoram planejamentos e consultorias. Sempre desconfiei das utopias. Não custa, porém, sonhar. O avesso deve ser visto, as mortes mostram nossa pequenez. É importante não afundar na negatividade e olhar as migalhas com cuidado. Lula foi atencioso com Henrique. Houve retribuição. Muitos mergulham na crítica. Tomaram o elixir do quanto pior melhor. Mordem e não mastigam. Curtem o abismo, gozam sentindo dores.

Condenar as perversidades. Isso é obrigação. Elas não se acomodam, apenas, entre os psicopatas. Elas moram em espaços estranhos ou em espaços de brilho acadêmico. Há médicos que ferem a ética. Alguma novidade? Destruir sentimentos é cultura, diriam outros. Tudo isso desanima. A corrida para aumentar as maldades é frequente. Não desfrute de salvações frias e cínicas. Já viram os cultos religiosos que vendem mercadorias? Mas há gente que acredita, que chora, que se emociona e não observa a farsa. Os milionários defendendo os pobres é uma comédia que mete medo. A travessia está tensa. Há mendigos por toda parte, Paris teme o terrorismo.os estudantes desejam mudar a universidade, os centros de saúde não possuem enfermeiros. O desgosto é geral, nega fronteiras, invade o corpo.

No entanto, o espetáculo se abre com ruídos. Milhares de torcedores aplaudem Messi, Quem se recusa a tomar uma coca-cola gelada? Quem não se contenta em passear no cine do shopping? Quem se lembra que a política está suja e os negócios agridem a solidariedade? Difícil compreender o mundo. As religiões tentam, os cientistas deliram, a China explora mão-de-obra, Cunha continua na prisão, Angélica não sai da Globo. Podemos recomeçar a história? Mudar a forma de Adão e Eva? Se a maçã fosse azul e a serpente amarela? Deus não usou instrumentos genéricos para criar o mundo? Quem era seu conselheiro ou ele tropeçou na solidão? Os problemas são muitos. Fui conversar com os amigos, lamentar-se e vi uma cena amarga de preconceito. Somos superficiais e nem notamos. Quem responde?

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O Apartamento: as imagens da vida cotidiana

 

As dores não passam como um cometa. Persistem. Há dúvidas que machucam e tradições que confundem. Nada de novo no planeta na sua marcha das competições e das vinganças. Um bom filme sintetiza anos de história e traz as sequências instáveis do cotidiano. Não desculpa tensões, mas move ideias e imaginações. A cultura é uma resposta, diálogo constante com a incompletude. Veja ” O Apartamento”, filme iraniano. Belo, atravessado por questões individuais e envolvidas com a história de seu tempo. A globalização tem arrastado costumes, colocado o mundo numa ansiedade imensa. Guardamos silêncios, quase nada se esclarece, porém a comunicação contamina a tecnologia.

O drama faz parte da vida. É preciso que ele não entre sem pedir licença, pois sua permanência tumultua. Os acidentes tiram a rotina, transmitem sensações diferentes, retoma memórias. O cerco angustia. O tema da família continua sendo debatido. O que a perturba? Um casal se desloca devido aos desatinos de afetos? A desconfiança deixa a insegurança solta. Quando se resolvem os preconceitos, as relações se fragmentam. O amor não comunga com a eternidade. Possui circunstâncias, não governa linhas retas, desfaz formas, aparentemente, contínuas. Os sentimentos são mágicos. Os bordados são antigos.

O filme busca cenários simples, não nega a densidade do humano. Homens e mulheres se misturam , teatralizam seus descaminhos, desenham ambiguidades inesperadas. Tudo se resume a um espaço ou as distâncias também viajam com rapidez ? Uma sala de aula, um palco, um celular perdido, uma solidão escondida. O segredo mora em muitos lugares, corre pela ruas, encena tramas, destrói ilusões. As agressões surpreendem, cortam o cotidiano, fixam devaneios. Pensar que elas se situam em um limite estreito é se desviar da história.

Não há fórmulas culturais imutáveis. O mundo se amplia em universos interiores, cheio de curvas e toques. Por que cair num relativismo radical? A dor revela cores, causa desfazeres, requer refúgio. Posso pertencer a uma geografia de tradições seculares ou curtir velocidades demoníacas. Há sempre uma incompreensão tardia, algo que desadormece de repente. No filme, os olhares mostram multiplicidades, a voz da criança traz leveza, a intimidade dos vizinhos inspira escorregões, a cidade é visível e áspera. O movimento do horror descarrega verdades depressivas.O final do drama não é destino divino, nem fatalidade assumida. O cantar a vida é o celebrar a transgressão. Na voz de Rana, a ternura é encanto.

Comungamos diferenças, aproximamos lendas. Localizo-me em lugares diversos, mas sinto que alguém na China se atordoa, que as guerras no Oriente me castigam, que o capitalismo derruba e não pede perdão. O Apartamento se passa no Irã, mas poderia se passar no Rio de Janeiro. Monta questões comuns, sem congelar mesmices. Há sempre um grito flutuando, uma sapato velho com marcas de sangue, um adeus que não se reparte, uma mulher com uma tristeza sem fim. O pecado é uma invenção incansável e a política enferma deforma convivências. Estou no cais com luzes terminais e febris. Tenho ações que se tornaram sonhos, diz o avesso de cada imagem. Fecho a cortina estranha

 

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Galeano: as lamentações de escritos corajosos

Eduardo Galeano foi um combatente de rara lucidez Seus livros deixaram lições contra a violência e o desgoverno. Não perdeu a beleza nas suas acusações e narrativas. Queria um outro mundo, conhecia o avesso, festejava o abraço. Acabei de ler Vagamundo. Um de seus primeiros escritos publicados. Galeano mostra a amargura de uma sociedade tensa, a miséria de não poder amar. As denúncia são fundamentais. Quem se omite é o pressor da esperança. Mesmo que a fragilidade se espalhe, quando se cai no abismo, as relações precisam de gritos de alertas poderosos para findar o pesadelo. Tudo parece perdido, mas a vida está solta, temos tempo e movimento para buscar sossegos. A desistência é cultura materializada e mecânica..

O ano de 2017 traz tragédias constantes. Dá sequência a saga do capitalismo. Os egoísmos não se intimidam, nem a pobreza se esconde. As prisões se multiplicam,  as imagens de horrores atemorizam. Há retornos de epidemias, a ciência não despreza o pragmatismo, as loucuras ocupam as prateleiras das farmácias. É o mundo da drogas. Não só daquelas que derrubam sociabilidades, porém daquelas que reforçam o desmantelo, espalham o consumo. Qual a saída para quem visitar, cotidianamente, os shoppings centers e assistir aos episódios do Big Brother delirando? A carga é grande e a dor de cabeça quebra a reflexão. Flexibilize o susto.

O mundo gira. Seus movimentos abandonaram os desejos revolucionários. Busca-se o mesmo, a idiotice tem um charme esquisito e os celulares não cessam de mudar de cores e aplicativos. Quem se infiltra no seu narcisismo, nem se lembra que existem  Galeano, Rousseau, Mia Couto, Cartola, Freud, Chico… Prefere se deitar em berços esplêndidos e se banhar com as espertezas. Joga a vida para fora de qualquer compromisso. Alia-se com uma destruição covarde que pune quem rouba um pão e inocenta quem seca o dinheiro público. As redes sociais realizam trocas interessantes. Despertam lutas. Não esqueçam também que colaboram para uma mediocridade doentia. Não devemos, contudo, condená-las. Há tantas vitrines enlouquecidas. Firmar um alvo único não é espelho para ninguém.

Se as mentiras exigem espaços e as verdades criam apocalipses, estamos parados no meio do caminho. Não há volta e o futuro se balança com as incertezas. Armar o inventário do que foi perdido, talvez, seja inútil. O sorriso ainda pode ser encontrado,a conversa não morreu. Olhar as profundidades obscuras não é pecado. Pior é vesti-se com as apatias, trancar as portas do quarto para preservar a angústia. O mundo de hoje não é tão diferente de outros mundo que já existiram. Os escritos de Galeano fazem companhia aos de Guimarães, Auster,  Pamuk, Agualusa. As trilhas caminhadas possuem múltiplos desenhos. Inventar não é fantasia. Entenda que o cansaço é humano e a ousadia merece o colo da memória.

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