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Os lugares dos poderes, as dissonâncias permanentes

A vitória dos socialistas trouxe ânimo para muitos grupos políticos europeus. O ex-presidente da França não era uma figura  simpática. Possuía sinais de arrogâncias conservadoras que desagradavam, sobretudo, pela intolerância. Tudo muda, dizem. Não vamos cair no absoluto. Entre a teoria e a prática há, sempre, abismos imensos. Os ideais socialistas criticam a exploração, trazem mensagens de solidariedade, cutucam as insensibilidades do capitalismo. Celebram a divisão das riquezas, ativam sonhos que lembram paraísos. No entanto, na ação de governar os socialistas não seguem caminhos coerentes. A prevalência de hábitos individualistas balançam a sociedade e o fascínio pelas novidades. Difícil segurar práticas promotoras da divisão e da generosidade.

Marx construiu uma teoria articulada  com a prática, sem escorregões maiores. Foi sagaz nas suas reflexões demolidoras, desmontando teses capitalistas, defendendo a igualdade social. As experiências dos governos que traduziram suas críticas não convenceram historicamente. Há muitas desventuras, autoritarismos, concentração de violência que negam as teses marxianas. A política é território de contrapontos. As frustrações continuam, as interpretações variam, os conflitos partidários não cedem. A heterogeneidade faz parte da cultura, não é um fenômeno contemporâneo. Porém, as dissonâncias são assustadoras, criam instabilidades, fortalecem o mundo das mercadorias e do cinismo.

A vitória dos socialistas tem significados, provocará negociações, moverá esperanças. Nem todos desconfiam das armadilhas políticas ou se debruçam sobre o passado para aprender as lições. Ficam nostalgias. Eliminam-se reflexões. As ideias circulam, ganham outras dimensões. O socialismo não é único, o que existe são socialismos que possuem estratégias relacionadas com sistemas de poder. Marx aparece como grande pensador, mas com não lembrar, também, Fourier, Lênin, Rosa, as divergências entre anarquistas e bolcheviques. A travessia é longa, repleta de deslocamentos. O cuidado com a análise desses contrapontos é importante, evita manter mitificações, sacralizar certas circunstâncias.

A presença do capitalismo é hegemônica. Confunde, pois alguns governos se proclamam contra suas práticas, mas terminam se misturando nas bolsas de valores e nas astúcias comercias. Qual é a fronteira possível? Os autoritarismos não se escondem. Uma rápida olhada nos jornais mostra China, Síria, Venezuela, entre outros, firmando violências. A democracia flutua no discurso e nas promessas. Quando a crise se aprofunda, os governos buscam medidas que cortam conquistas, descontentam  maiorias. A Grécia convive com desacertos que se prolongam e a Espanha encontra-se com um alto índice de desemprego.

A euforia desenvolvimentista transfere-se para outros países, como uma redenção milagrosa. Mas os desgastes se mantêm. O Brasil se ressente da falta de médicos, saneamentos, vive desconcertos na educação. Há, contudo, um incentivo desmedido ao consumo, ao endividamento individual, planejamentos obscuros para construção das obras da Copa de 2014. Se os socialistas comemoram avanços na Europa, os neofascistas não sossegam e seduzem parte do eleitorado. A complexa sociedade que se estabelece parece uma grande vitrine. Observar como ela se move e os grupos dominantes vendem seus produtos é saída para fugir da infantilização que contamina parte da população. Não se encante com a superfície das notícias, nem o festejar de datas carimbadas.

PS: Os dias de mudança dos textos( relembrando): terça, quinta, sábado, domingo.

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1964: história e memória, verdade e poder

A localização da verdade é, sempre, uma questão instável. A sociedade não vive sem conhecimentos, sem limites, sem estabelecer suas ordens e visualizar suas possibilidades. O jogo político influencia as escolhas. Ele está articulado com as tramas do poder. Não há neutralidade na política. Os compromissos são assumidos e fazem parte da construção da história. As transgressões ajudam aos deslocamentos e a quebrar as mesmices. Redefinem convivências, também, possuem suas máscaras e, às vezes, consolidam tradições, fixam permanências. O discurso da transparência não sacode a poeira das ilusões, nem desfaz  os monopólios.

Olhar o passado não significa navegar por águas estagnadas. Estamos, no presente, negociando encontros e aventuras, mas formando (res)significações e não transformando a memória em objeto descartável. É difícil compreender a complexidade do social, querer esgotar os desenhos e as linhas dos seus mapas. Sobram lacunas, pois a cultura lida com as incompletudes. Por isso, os julgamentos aprofundam debates e dissidências. Muitos atores  estão nos cenários das histórias. 1964 e seus desdobramentos marcaram a sociedade brasileira, firmaram intolerâncias, exaltaram ressentimentos, retomaram nacionalismos, trouxeram perplexidades e frustrações. Surgem justificativas autoritárias, violências são relembradas. Necessidades de rever documentos e situações fazem parte de polêmicas sem fim.

Há memórias fortes de perseguições, desaparecimentos, assassinatos. Quem consegue encontrar respostas para tantas indagações? Elas poderiam desvendar muitas dúvidas sobre as relações de poder no período da repressão. Na história, há vencidos e vencedores. As verdades balançam-se, as perspectivas chocam-se, os movimentos cultuam princípios diferentes. Portanto, não há razão para estranhar os antagonismos. A luta tem territórios, teorias, armas. Assim como os circos desmontam sua lonas, os grupos políticos ganham seus espaços ou perdem seus mínimos sinais de coerência. A clareza não é amiga dos tribunais e a diversidade estimula a contradição.

É importante, então, mergulhar nessas turbulências, sabendo que as inquietudes nunca serenam de vez. Pior é mutilar a memória, ornamentar o cinismo. Limpar as poluições dos véus traz proximidades com os caminhos dos labirintos da história. O inacabado não sairá de cena, as insatisfações não silenciarão, no entanto o movimento rompe com a apatia. Modernidade nunca deixou de ressaltar a autonomia e ela se faz convivendo com os contrapontos. É no confronto que conhecemos melhor as densidades das concepções de mundo, as dissonâncias críticas e os desejos de alargar os esconderijos. Tudo isso não é uma novidade histórica, mas retorna e garante uma circularidade que incomoda os apaixonados pelas omissões.

O que atormenta é a volta dos genocídios, das ditaduras e a sofisticação crescente dos mecanismos de poder. Dialogar com o passado é construir temporalidades, evitar vazios, desconfiar de continuidades fabricadas como fundamentais. Os valores não se mexem se os tempos históricos servem, apenas, para contemplar fatos e heroísmos. O que assusta é a intolerância, a fragilização das sociabilidades que animam o coletivo. Discutir sobre as verdades possibilita rever estratégias, entender as opções tomadas, o desprezo pela utopias, o tamanho das sombras dos mitos de Prometeu e Narciso. As imperfeições não se ausentarão. Fazem parte da história.

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As redes sociais: ruídos das imagens e dos espelhos

Os animais sociais não deixam de instituírem suas linguagens. Nós estamos na circulação do tempo, inventamos travessias e sinais para realizá-lo. Não há razão para nos assustarmos com as mudanças ou querer uma comunicação, sempre, marcada pela manutenção dos hábitos e técnicas. Os sofistas tiveram sua época, dialogaram numa Grécia com questões políticas fundamentais para refletir sobre o humano. Cervantes contruiu uma história que, ainda hoje, possui espaço soberano na literatura. A contemporaneidade se veste de imagens, celebra a sociedade do espetáculo, acumula mercadorias, dança ritmos estranhos para quem viveu no começo do modernismo. As diferenças culturais não cessam, compõem as hierarquias, mas alimentam sonhos e interroga pesadelos.

Não dá para excluir a comunicação da sociabilidade. Seria uma incoerência sem medida. Existem, porém, formas que transitam pela história que se renovam ou se disfarçam configurando rupturas aparentes. Não custa registrar que as tecnologias ditam normas e se articulam com o discurso do poder. Elas influenciam nas relações sociais, estabelecem caminhos de verdades, mostram os espaços da solidão e da euforia. Com a transformação do mundo numa aldeia global, as afetividades e as tradições se redefiniram rapidamente. Há quem desconfie se elas persistem ou se fragmentaram. Talvez, tenham traduções que não conseguimos enxergar, confusos diante de tantas coisas descartáveis.

Portanto, vamos a busca de sentidos, tentando navegar em outros oceanos. A comunicação oferece meios indispensáveis para manter o fôlego da cultura. Temos muito que dizer mesmo no mais esquisito silêncio. Não é à toa que as linguagens se multiplicam. As redes  sociais aceleram mudanças imaginadas em ficções científicas. Nem todos acompanham o ritmo, nem desejam entender o que acontece. No entanto, a grande maioria observa que a política, a sexualidade, a competição, os sentimentos procuram desenhos desconhecidos. Não se ausentam do que pedem as novas linguagens, criam sobrevivências urgentes.

Sempre, insistimos que as permanências são parceiras das mudanças. As andanças da comunicação buscam companhias, se desfazerem da mudez,  sugerirem o fim de ressentimentos. As redes sociais trazem o perfume da tecnologia do efêmero, não deixam de ornamentar vitrines. Para isso, existem fotos, poemas, sabedorias. lamentações… Elas não penetram, apenas, nos sentimentos atuais. Promovem respostas para as necessidades que se arrastam, com outras manipulações. Nos facebooks, também, se formam feudos, preferências, preconceitos. A curtição e o compartilhamento provocam divisões, concepções de convivência que mascaram antigas tradições. Há esconderijos que o vitual manobra com habilidade. Os paradoxos apresentam-se não impedindo que muitos se divirtam e cultivem banalidades.

Não podemos fixar o determinismo. O vaivém da história é conhecido. Uma sociedade que festeja o valor de troca não construiria uma comunicação que não legitimasse a força das  invenções. É preciso analisar que a cultura não se faz sem objetos. Eles interferem nas relações, consagram especulações sobre o futuro. As invenções distraem, enganam, mas também  indicam que os comportamentos arquitetam solidões e amores que, ainda, não foram vividos. Esquecer que as coisas se infiltram nas memórias e nos projetos, é desmontar a complexidade da cultura. A ambiguidade é um terreno perigoso, porém persistente.

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As perdições da loucura mínima

O traço da loucura desenha o tempo das ausências,

o mundo se desfigura, o real é o simulacro do desejo,

a melancololia, a serenidade fabricada.

Fora do possível equilíbrio, a fantasia se veste de cores inventadas,

não cabem exatidões, mas incertezas anônimas.

Desça da curva, refaça o abismo cotidiano.

Cada palavra conta um tempo e o medo

se esconde no leito escorregadio.

O traço da loucura é uma cartografia mínima e contida.

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Ariadne: os tempos, o fio e as histórias

Tudo ganha velocidade. Não é que o tempo mudou de lugar. O relógio está guardado na gaveta, com os ponteiros se movimentando. Não pense nos números, nem busque fórmulas. Observe a quantidade de coisas que acontecem. O tempo se interliga com a interioridade, persegue ansiedades, tumultua sossegos. Muita gente circulando é assunto para conversas sem fim. Não faltam surpresas, expectativas refeitas, passados ignorados. A exatidão é,apenas, uma medida com seus enganos e suas necessidades. Lula falava com desenvoltura, brincava com as palavras, não temia multidões. Hoje, encontra limites, a doença tirou sua força solta, o fez ouvir e aceitar restrições. Os jornais anunciam a fragilidade de quem, antes, não tinha timidez.

O tempo é a composição de diversidades. Não se resume a formas e cores já conhecidas. Ele se inventa, mesmo que procure retomar tradições ou traga as ilusões para o centro da vida. É preciso não se bastar com o momento, nem apostar na sua reprodução. A tristeza dura dias, anos, porém não há eternidade para os sentimentos. Há rupturas, aventuras inesperadas e desacertos. O tempo se desenha com linhas simétricas. Suas geometrias podem ultrapassar abismos ou mergulhar em oceanos nunca vistos.Há, sempre, espaço, para redefinição do mundo, mesmo que as utopias se remendem.

Quando escrevemos ou verbalizamos as sínteses das histórias estamos desejos de fixar sentidos. É uma busca, nunca um ponto final. O entrelaçamento dos acontecimentos não permite uma sonoridade sem ruídos. A Sagração da Primavera de Stravinsky pode ser  lembrada.Dialoga com as dissonâncias da contemporaneidade. As reações são complexas, pois os sons do mundo não são mínimos, viajam pelas multiplicidades das culturas, não fogem das heterogeneidades. Os sentidos aparecem, porém, se configuram efêmeros, sobretudo com a montagem permanente de tecnologias e pressas na acumulação da riqueza.

As linguagens ajudam na decifração da vida. Transformam-se e sinalizam-se alfabetizações rápidas. É impossível ler o mundo com  todos os detalhes, fechar as portas do conhecimento. Há lacunas desde os primórdios. A quantidade não significa o fim das questões, mas as estende, exige outras cartografias, conecta reflexões de Aristóteles com as de Foucault, de forma sutil. O tempo mantém a memória atenta. As linguagens possuem confrontos. Lembremos, contudo, Mia Couto: Poesia e ciência são entidades que não se podem  confundir, mas podem e devem deitar-se na mesma cama. E o quando o fizerem espero bem que dispam as velhas camisas de dormir.

As histórias e seus tempos são criações de um imaginário fértil, com armadilhas que se renovam. A escrita e a palavra, o deslocamento e a desconfiança, a inquietude e sossego trazem especulações contínuas. Por isso, não dá para negar os paradoxos, nem imobilizar os sonhos. Pensar que a uniformidades nos salva é legitimar a preguiça mental e ressuscitar a lógica da identidade. As histórias controem arquiteturas próximas de labirintos escuros e cheio de curvas. No entanto, o fio de Ariadne é a metáfora que se cola no tempo e evita que o desespero nos assombre com pesadelos, mesmo que o fio não atravesse todos os caminhos.

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Agnès:as narrativas, as imagens, os fragmentos

Narrar a vida é como compor um filme, uma música, um poema. Tudo se entrelaça, embora existam as distinções. Fragmentos que se aproximam em busca de sentido. É difícil fixá-lo, mas o perseguimos. Criticamos os mitos de origem, desconfiamos dos paraísos, desmontamos utopias. A imaginação não deixa de nos tentar. A objetividade favorece ao consenso. Ela não é, contudo, a redenção para firmar a clareza da vida e suas descobertas. Abrimos trilhas, sacudimos verdades, esticamos fios nos labirintos. A dúvida é permanente no meio da algumas certezas que nos acodem para que o vulcão não traga o incêndio do mundo.

Por isso, as narrativas se soltam e não são únicas e definitivas. As semelhanças existem e podem estimular solidariedades. A questão é observar que os sentidos variam. Costuram-se no inesperado. Não é à toa que o discurso do absurdo atrai, que Benjamin lamenta as mudanças nas relações de trabalho, que Nietzsche convoca Zaratustra para espalhar profecias. Quem deseja sossego não contempla a história, sente que o descanso não cabe nas aventuras da incompletude. Italo Calvino afirma que não existe linguagem sem engano. Isso nos leva a não esquecer o recomeço. As coisas e os sentimentos se perdem? Mas  até onde as ilusões e magia refazem os sentidos?

Agnès Varda bordou imagens sábias e inesquecíveis no seu último filme. Dançou com a memória, mostrou a pedagogia do afeto, celebrando o humano e a arte. A memória, com suas idas e vindas, constrói narrativas que procuram serenar ou atiçar os desencontros da vida. Não dá para compreender tudo, porém os fragmentos se articulam, trazem possibilidades, mascaram os perigosos trapézios que pedem peripécias, riscos. Memória e vida estão coladas, com interpretações múltiplas, para além das crenças e das ciências. Há, sempre, o lugar da invenção e da surpresa. Ele vence o cansaço, nos recorda o fôlego da transcendência.

A linguagem circula. Não possui um ritmo determinado, pois a aventura humana recusa sínteses desconexas e se desvia de pontos finais. A narrativa muda sua linguagen. No entanto, não podemos anunciar sua mudez. Surgem vocabulários e gramáticas diferentes e a tecnologia estende seu poder. Ela não despreza a linguagem, nem a memória. Aprecia a velocidade e provoca confusões. Não é a razão que administra, sozinha, os caminhos da cultura. Ela é um conceito, possui significados, mas seu império é, também, moradia de fragilidades. Visite as paisagens de Varda, para não renunciar as travessuras dos fragmentos.

Benjamin refletiu sobre suas circunstâncias, suas experiências. Foi um pescador de pérolas, com afirmou sua amiga Hannah Arendt. Nós temos outros tempos, somos assaltados por outros monopólios mesquinhos. A grana arrasta sensibilidades, desmonta rebeldias. Isso é não tudo. Não devemos nos afastar da simultaneidade. Ela traz o diálogo, evita que a subjetividade se desmanche,  se apavore. Não existem harmonias perenes, contudo a respiração não cessa enquantoa a vida se inquieta. Os fragmentos, os vestígios, as recordações abraçam a narrativa. A sinfonia inacabada da vida testemunha que a beleza não é traço do absoluto. Flutua na imaginação sem medo.

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O sertão não se cansa de anunciar o desgoverno

A história tem sua multiplicidade. Ninguém nega. Uma história de uma só cor seria uma monotonia sem fim. Mas não se pode resumi-la  às mudanças e fazer do tempo um fluir de invenções constantes. Temos muitas relações em jogo. Somos animais sofisticados. As necessidades existem desde a fundação dos primeiros paraísos que as fantasias alimentam. Na sociedade atual, fica difícil entender o valor das urgências e os artifícios das vitrines. Vivemos interpretando os momentos, incorporando hábitos, observando as diferenças e os encontros. Temos coisas em comum, não moramos nos mesmos lugares, atravessamos trilhas escorregadias, porém não deixamos de narrar as aventuras. Buscamos sentidos e muitos querem festejar identidades fixas, com orgulho desmedido.

Conversa solta, para pensar nas permanências históricas. Contemplamos paisagens, contudo agimos, não admitimos sossegos frequentes. Por isso, a ideia das metamorfoses, o delírio da revolução, a exaltação do progresso. Perdemos de vista as repetições. Elas não representam, apenas, acomodações. Exigem olhares atentos para compreendê-las. Trazem, também, aprendizagens, além de desperdícios e vazios. Tudo isso, para ressaltar que,no ritmo de sempre, se tomam medidas para combater a seca no sertão. Quantas vezes iremos conviver com essa notícia, quantas vezes o desgoverno maltrata e desencanta? Basta apenas perguntar e testemunhar a apatia?

Recorro a Mia Couto: As ciências sempre foram policiadas e manipuladas pelos poderes. Hoje não vivemos numa situação de exceção. Esses poderes não têm um rosto definido. Um deles chama-se mercado. Cabe-nos a nós interrogarmo-nos se não nos estamos convertendo em funcionários desses gigantescos laboratórios sem nomes. Essa sua bela reflexão mostra as dificuldades que nos cercam e envolvem o mundo do capitalismo, com suas desigualdades. Mia preocupa-se, sobretudo, com a África. Lá, as lamentações são imensas, e os colonizadores firmaram uma crueldade incomum. Os vestígios da violência impedem práticas democráticas e sinais consistentes de modernização. Compartilhamos agonias de misérias que se mantêm.

As máscaras voltam. Não dá para esquecer que a seca é secular. Há questões de clima, de vegetação, porém a falta de cuidado administrativo é um contínuo. Tanta euforia com o desenvolvimento, com a venda de carros e celulares e a fome registrando vítimas, a escassez d’água impondo limites. As cidades se ressentem de mobilidade, desejam ganhar velocidade para celebrar seus cultos ao calendário das compras. O sertão desesperado em busca de fôlego, esperando ajuda, orando, dependendo dos interesses políticos. Quem lucra, quem é solidário, quem consegue efetivar o diálogo com a técnica e superar os desconfortos?

As histórias correm soltas com suas lendas e seus mitos. A simultaneidade nos coloca diante de culturas complexas, convivências com paradoxos, mas o sentimento de culpa não se foi. A seca lembra, para muitos, as audácias do pecado original. A leitura do dor se apaga, pois é preciso perdão. As peripécias do poder não possuem uma nudez que desfaça certas ingenuidades. O mundo não se esgota nas suas idas e vindas, nem tampouco as colonizações são memórias corroídas. Os tempos se confundem e provocam desmantelos. A ambiguidade das relações sociais costuma, sem pausa, se estenderem pela história.

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As esquinas da vida

NA CARTOGRAFIA DA VIDA NÃO HÁ LINHA RETA.

A VIDA É CURVA,

A PELE, O PERFUME DO CORPO,

CADA MOMENTO É A INCERTEZA SINUOSA,

CADA DESEJO, A INQUIETUDE DO OLHAR ANSIOSO.

SOMOS SEMPRE POR UM TRIZ,

SONHOS SOLTOS NAS ESQUINAS SEM NOMES,

NAS PRAÇAS SEM BANCOS DE CIMENTO

E  BEIJA-FLORES  APAIXONADOS PELA ROSA VERMELHA.

O PASSADO É UM TRAÇO.

O TEMPO, O RITMO.

O FUTURO, A PROFECIA.

O ADEUS, A SAUDADE MUDA DA LÁGRIMA PREDESTINADA..

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A violência frequente e os desmantelos da convivência

É  intrigante repetir assuntos que demonstram os desgovernos da sociedade. Mas não se pode deixar a crítica, nem tampouco esvaziar as denúncias. Valem muito as informações, os registros cotidianos que não se cansam de anunciar que a violência anda solta. É preciso ter notícias, é preciso saber como agir para desmontar tanta agressividade. As informações, apenas, descrevem o que aconteceu. Colocam reclamações, a população se inquieta, porém a superficialidade impera. As soluções aparecem limitadas a trocas objetos, a reformulação no sistema de segurança, a acusações aos desacertos policiais. Espera-se que tudo se resolva, sem análise de como se movimenta a convivência social e o que estimula a competição.

Não faltam leis, limites, reuniões para sugerir medidas. A violência não se resume a assaltos a bancos ou empresas. Ela se espalha pelas ruas, desmancha o prazer das diversões, aprisiona muita gente em suas casas. Há medos e desesperos. As torcidas organizadas invadem o asfalto e provocam mortes, depois de uma partida de futebol. Parece uma guerrilha urbana. Tudo articulado pelas redes sociais. O espetáculo das pancadas substitui o espetáculo da bola. Será uma dificuldade de enfrentar as diferenças e fazer da disputa um caminho de salvação para esquecer desempregos e hierarquias opressoras?

As populações das cidades vivem tensões frequentes. Estão longe de desfrutar confortos trazidos pelas invenções pós-modernas, sem surpresas negativas. Os acontecimentos envolvem multidões, um aparato de milhões de reais, negociações constantes nos bastidores que resultam em concentração de poderes. Nem pense que o governo tem o monopólio das decisões. Um show, como o do ex- Beatles Paul, exige trocas e não são poucas: a venda dos ingressos, a contratação das equipes, as escolhas dos convidados Vips, o patrocínio e montagem do palco. Tudo ferve. Somos espectadores, curtimos a música, elogiamos os bons desempenhos. Se algo decepcionou, não há muito espaço para reclamação. Os riscos existem. Nada navega na tranquilidade.

Dizem que não haveria história sem conflitos. Os homens são seres individualistas, apesar de toda sociabilidade. Não esqueça as teses de Maquiavel, Hobbes, os discursos dos liberais. Freud não era otimista. Ficou perplexo com as pulsões agressivas, desencantou-se. Viu na felicidade um equilíbrio instável. Nem há alegrias permanentes e as disputas giram na gangorra da vida. A cultura não consegue fechar as portas dos descontroles. Não adianta manipular nostalgias. Nos tempos medievais, na antiguidade clássica, no século das revoluções burguesas, as esperanças se misturavam com os confrontos, os mitos também aprontavam suas guerras.

Quando o capitalismo ganha o mundo, a concorrência se alarga, as teorias chegam defendendo contradições e naturalizando comportamento e dissidências. Nem todos se apoiam no estímulo aos preconceitos culturais ou nas justificativas que a desigualdade faz parte do social. Talvez, não haja alternativas para a construção de convivências organizadas, com ritmos de confraternização e solidariedades ativas. Existem dominações de cores diversas, opiniões que convencem, mesmo que se transformem, depois, em lugares de desconcertos e desconfianças. A multiplicidade ajuda a pensar a democracia, contudo possui seus desenganos. As travessias da história não garantem sentidos, nem direções determinadas.

PS: Lembrando que as mudanças nos textos se dão na terça, quinta, sábado e domingo.

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Pina e Wenders: a dança do desamparo e do encanto

A beleza é fundamental, já disse o poeta, celebrando suas paixões e encantos. Não contrario suas palavras. A beleza nos salva, muitas vezes, traz transcendência e coragem. Diante de tantas explorações, de competições ferozes, a contemplação nos leva a pensar alternativas, visualizar outro mundo. A beleza tem sedução, toca fundo. Defini-la é um risco. Passa pela sensibilidade de cada um, possui sua dimensão histórica. Alguns elogiam a harmonia das formas, outros preferem as ousadias de Duchamp. Sempre as relatividades, a presença de afirmações dos medos e dos desejos. Assim, é a construção da cultura, a busca de responder as incompletudes.

Wim Wenders realizou um documentário sobre a artista Pina Bausch de uma beleza incomum. Conheci outros trabalhos de Wim. Não me esqueço de Asas do Desejo, de suas imagens e metáforas instigantes. A homenagem que faz a Pina é emocionante. Selecionou depoimentos, cenas de coreografias. A dança de Pina é singular, tem lugar no inimitável, dialoga com o contemporâneo, mas se estende pelo tempo, não se rende aos calendários, envolve-se com vestígios e ruínas. Há quem conteste a procura de significados que retornam. Não deixo de sentir as permanências, como também não nego as mudanças. As cartografias do humano são complexas.

Pina é não muito conhecida no Brasil. Sua arte é criatividade fluente. Configura desenhos simples,  profundos. Dança o mundo, o gesto mais visível, o sentimento mais escondido. Observa e não banaliza. Não cai no abismo dos espetáculos efêmeros e milionários. O corpo é tudo, na sua nudez, nas suas vestes coloridas ou sombrias. A arte entretece-se na beleza, contudo pergunta e se inquieta, pertence ao mundo, não possui traços fixos. Pina abraça a vida, no seu desamparo, na sua tragédia, na sua possibilidade, no seu desafio.

Música, dança, corpo, palavra, imagem. A sociedade fermenta pressas. Parece querer que os olhares não percam minutos,  aprendam a não mergulhar na interioridade. A arte de Pina não consolida consumos, pede coração aberto, imaginação fértil. Seus companheiros e companheiras são cidadãos do mundo. Seus pertencimentos fluem, suas raízes são asas, pois o voo assanha o sonho, acorda os mitos, silencia sem definir apatias. Cada invenção da cultura está relacionada com um ato de transgressão que poderá se tornar uma ordem. Por isso, o deslocamento é importante. Sem ele, não haveria história, a gramática sufocaria a poesia.

O filme de Wenders não cabe numa análise pequena. Ele ganha territórios que se reformulam. A beleza é fundamental, porque ela atiça conversas, não consola ruídos. Basta lembrar-se do teatro de Ésquilo, dos escritos de Nietzsche, dos quadros de Picasso, dos ritmos de Piazzolla. Aquilo que encerra códigos tem uma escassez amarga. É preciso que o trapézio não sossegue, que o circo não se vá, para que a vida não durma na mesmice. O que move a cultura é o encontro com a dor, a capacidade de traduzi-la não, apenas, com lágrimas e desespero. Há, sempre, uma trilha nunca percorrida. Pina Bausch não desconhecia o chão, o horizonte da vida. Wenders não se perdeu na sua leitura.

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