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Bolsonaro: a memória incomoda

 

Não esqueçamos de acontecimentos que decidiram nossa época. Não fiquemos parados no presente deslumbrados com  intrigas inexplicáveis. Há memórias, experiências marcantes. É preciso aprender sempre. Não estamos acabados, nem nunca estaremos. Não espere que os deuses desçam do céu. Eles negam a agressividade e curtem paraísos. Nós frequentamos um mundo, que dispara novidades, embriagado pela magia da grana. Todo cuidado é pouco. Há pessoas que sustentam fábricas de armadilhas, que se divertem com violências e possuem um sadismo elaborado. Portanto, não ganhem perplexidades à toa. As tragédias sempre existiram e a serenidade é rara, preciosa. Quem acredita que  o tempo é linear, massacra sua subjetividade.

Lembremos que as perversidades não deixam de se firmarem na história. Quem consegue apagar as memórias das guerras mundiais? E as extravagâncias das drogas pesadas comercializadas por especialistas? Os Estados Unidos choram o 11 de setembro. Sobram desconfianças sobre o ato, nas controvérsias ou verdades que circulam. E os asilos, as prisões, as torturas, as intolerâncias, os racismos que perturbam e ferem? Atravessamos a história, com ambiguidades, minimizadas por fantasias utópicas. Não somos um povo que, apenas, vive a cordialidade, dançando alegrias , deitado na felicidade. Temos limites e singularidades. Convivemos com secas, escravidão, miséria, turbulências políticas. O berço esplêndido é uma miragem para cultuar o milagres da pátria amada.

O caos se anuncia. Alguns intelectuais escrevem biografias de Moro, organizam seminários, investigam as vidas pessoais. Por que o Brasil passa por tanto sufoco? As respostas surgem embraçadas. A transparência é nula. Não é sem razão que Bolsonaro multiplica o espaço de atuação. Possui adeptos. Não é louco, não rasga dinheiro, nem renunciou ao mandato. Diz o que outros gostariam de dizer. Não conheço sua formação. Não posso afirmar que leu manuais nazistas ou admira a vida de Franco ou Mussolini. Suas ideias consolidam versões autoritárias. Não perde o sentido da vingança. Sorri, ameaça. Simpatiza com sua própria imagem doentia.

Quando o vazio político se institui a confusão se instala. A imprensa usa mecanismos de persuasão. Nunca desmonte a crítica. A mercadoria é um fetiche. Não é  elogio desesperado ao Karl. As psicopatias e as esquizofrenias  ocupam lugares inesperados. Sigmund não colecionou interpretações inúteis. Já observaram que, por trás das agressividades ,formam-se inseguranças? Bolsonaro ajuda a quem se sente ofendido pela perda de privilégios. É histérico, talvez tenha ações em clínicas psiquiátricas. Os fascismos quebram sociabilidades, estimulam guerras, desenham chicotes. Não se deixe enganar. A arrogância é sinal de insensibilidade.

Somos responsáveis pela história. Os anjos e os demônios se aposentaram. O céu e o inferno fecharam suas hospedarias. O pecado está sendo comprado com cartão de crédito. Como decifrar tantos enigmas? Nas redes sociais,  destilam-se raivas. Procure olhar os perfis.Imagine quem ataca, quem adota princípios fascistas. Todos são expectantes. A história é uma novela sem o último capitulo. Conhecemos mascarados, vítimas, ingênuos de plantão. Não é fácil convencê-los. Navegue nas embarcações dos afetos. Se estiver atordoado, assista aos filmes de Chaplin ou mergulhe na obra de Ítalo Calvino. A terra gira, a cabeça dói.

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O mundo da lágrima congelada

Quem cantou a música dos deuses foi expulso do paraíso,

a ousadia não consegue seduzir a eternidade do perdão.

nem definir o tamanho da culpa do pecado original.

Quem se esconde na intimidade da paixão inventada,

se perde na loucura do poema de palavras curvas,

se desenha entre sombras e luzes, imitando um fantasma.

A verdade não renasce, nem se esquece de oprimir os inocentes,

se amplia na mudez dos que temem a rebeldia e fogem do proibido.

Cada palavra nomeia sentimentos e objetos, finaliza momentos,

não há espaço para o encanto quando o poeta fecha sua moradia.

Desfie o desejo que não foi vivido e se perdeu no sono,

desconfie que a história é travessia em um mundo que congela a lágrima,

vista o disfarce da fantasia de Kafka e adivinhe a magia do pertencimento.

Estamos soltos, como ficções que assombram a melancolia dos tardios.

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A solidão e o desamparo: o mundo sem fronteiras

Havia uma grande expectativa com a globalização. Esperava-se que as culturas se agrupassem e soluções aparecessem para minorar as dificuldades. O discurso da fraternidade ganhou  impulso. As situações de vida não fugiram das desigualdades passadas. A violência mostra-se soberana: torcidas organizadas, comércio de drogas, disputas pelo petróleo, opressão das mídias, política cheia de cinismos. Não aprendemos com as lições da história? Basta sustentar que existe ordem e progresso para sociedade se encontrar? Dispenso a ideia de evolução social, pois observo que o individualismo se impõe com disfarces sofisticados.

As promessas fazem parte do jogo do poder. As religiões se interligam com a política de forma radical. Não é novidade. Consulte a memória. Quem pode esquecer das relações entre a nobreza e a Igreja Católica? Os calvinistas se deram bem com a burguesia e os evangélicos conseguem aumentar sua presença de forma acelerada. As convicções tomam contam do mundo, pois a insegurança exige que alguma coisa fique como dogma. Não há sossego. Há pessimismo, mas não há desespero. Milhões de pessoas estão soltas, cercadas pela miséria. A solidariedade é celebrada para enganar os ingênuos.

A solidão bate na porta, quando os desenganos se fortalecem. É bom conversar, sentir as fragilidades dos outros. A solidão ajuda a medir os descompassos, porém quando se aprofunda se transforma num desamparo assustador. A sociabilidade existe para nos livrar das necessidades mais urgentes? As multidões se articulam, gritam, reivindicam, dançam. Quem escolhe o caminho, quem se abraça com proximidade do outro, quem tolera as diferenças? Elegemos o virtual, passamos meses ou anos, sem rever os afetos, somos atropelados pela pressa. Olhamos a idas e vindas desconsolados, no meio de farmácias que vendem remédios que prometem curas. Será?

Depois de tantas exaltações tecnológicas e arquiteturas deslumbrantes sobram ruínas. Comprar, vender, trocar, perder, falir. Verbos que transitam pelas falas atormentadas dos que naufragam em dívidas. Quando a grande crise se torna soberana investe-se na praticidade, no lucro. Os outros ficam estranho, ameaçam, causam espanto. Não adianta festejar intercâmbios, se há medos que trazem isolamentos doentios. Na confusão globalizada, o espaço da reinvenção diminui. Somos seres do bem e do mal. Isso assusta, quando o desamparo acontece no ir e vir de bilhões de pessoas e a solidão se concretiza porque a desconfiança invade a intimidade. Surrealismo?

 

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O espetáculo amplia as controvérsias

Os divertimentos assanham a sociedade. Ela precisa esquecer seu cotidiano e buscar distrações. O trabalho para ganhar dinheiro é duro. A maioria sofre, pega ônibus, ouve insultos, sente tensões, tem medo de assaltos. O cansaço é avassalador. A televisão atua como um paliativo. Tudo se inventa para convencer os espectadores. É a quebra do acontecimento comum e a exaltação do espetáculo. Ele possui malabarismo, conta com tecnologias, manda mensagens, levanta suposições. Faz parte da sociedade do consumo. Não se resume aos encantos de atrizes e atores. Atinge um público que se afunda nas controvérsias. O boato e o fato se olham no mesmo espelho, ocupam manchetes, desfilam no plim-plim da globo.

Estamos vivendo momentos de ataques midiáticos surpreendentes. Eles superam as expectativas. Vestem-se com argumentos dos chamados especialistas. Não querem sossego, mas sacodem suspenses e tumultuam julgamentos. Assim foi a atuação dos procuradores  para detonar Lula e intimidá-lo. É importante que se  evite que a epidemia da corrupção se propague. Não tenho dúvidas. O que me assusta são as escolhas, a seleção, as jogadas no ar. A investigação está concentrada. Reveste-se de fatalidades e cria instabilidades constantes. Haverá interrupções?  Noto a força dos ressentimentos, das frustrações, das palavras malditas. A emoção atravessa as falas, confunde.

As redes sociais espalham delírios. A divisão multiplica as tensões. Fico meio tonto. Observo que a política ganha um pragmatismo imenso. São acusações contínuas, com a negação de que o golpe não existe. Colocou-se as regras jurídicas pelo avesso. Há muitos abismos e violências. O Brasil se esfacela, os partidos pouco sabem. O poder é o amuleto. A minoria possui garantias extraordinárias, para não perder seus lugares. Buscam convencer, curtem o imediato, deixa no ar análises dúbias.Quem encontra um caminho sem as famosas pedras? O capitalismo quer salvar seus prejuízos. Rearruma-se, não joga fora a exploração, cerca-se se consultores, discursa com bases na ordem e no progresso. Ressalta o destino e não a força da história.

Há quem fique perplexo. Os que tem um passado de lutas, mas simpatizam com a turma do Temer, sentem sufoco. Fabricam-se justificativas com sofisticações. A luta é outra, não estamos na época da ditadura militar. Não tenho dúvidas. Desconfio se há medo de perdas profissionais, dores de cabeça e sentimentos internos obscuros. Não tenho provas, nem convicções. O ser humano nem pensa mais nas utopias. O utilitarismo é vírus que fascina, o aparecer traz a vitória das vitrines e da razão cínica. As verdades estão, cada vez mais, curvas. Quando os religiosos pregam sobre o juízo final, talvez mostrem dogmas que balançam o trapézio. Quem dorme, quem sonha, quem se entrega?

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O mundo da travessia sem sonho

Há uma história que desiludiu Adão e Eva

e  um pecado que persegue todos os homens e todas mulheres.

Sinto que cada tempo é uma travessia com vestígios do passado,

parece uma repetição disfarçada com armadilhas subjetivas.

Visito as páginas das escritas que esqueci de ler,

mas vejo um mundo de cores cinzas, chorando seus desencontros.

Conto uma aventura que imaginei, descrevo a nostalgia que me segue,

pensando que as histórias nunca cessarão de existir, como a culpa e o perdão.

A amargura é distante da alegria e o anjo tem medo da tristeza,

não sei em que território me desenhei, apenas jogo palavras para me distrair.

O sonho está no quarto escondido na gaveta do armário antigo, encolhido e pesado,

os cristais estão perdidas nas ruas sem esquinas e mendigos.

Desisto de ser o profeta de mim mesmo.

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Cunha, Nietzsche, Marx: aprendizagens

A burguesia não se acanhou. Colocou  o bloco na rua e continua no carnaval da grana sem cerimônia. O mundo não pertence, apenas, à burguesia. Ela toma sustos, vacila, muda planos. Inexistem dominações absolutas. Cunha parecia eterno. Dançou ou delirou? Os espaços do sonho e da rebeldia, porém, não se foram. As desigualdades causam transtornos, sacodem sentimentos,agitam os marginalizados. A Revolução Francesa foi eletrizante. Derrubou tradições, diminuiu privilégios. No entanto, o capitalismo mantém explorações. A burguesia promete liberdade, riqueza, consumos. Nem todos podem se aproximar das vantagens. A história é mesmo um espaço de luta, sem anular as ambiguidade e os medos.

É importante dialogar com o passado. O presente não resume as questões, vive lacunas, desconhecimentos que comprometem a sociabilidade.Volto ao século de XIX. As indústrias buscam ampliar mercados.Surgem críticas e insatisfações. O romantismo se recusa a admitir certas prioridades da burguesia. Marx detona. Escreve com rara habilidade. Cria uma obra que não se esgotou. Mostra a força do trabalho, as manobras capitalistas e anuncia a revolução. Seus textos são detestados pelas minorias autoritárias. Não podemos negar os efeitos das utopias no desmanche das repressões celebradas pelo capital. Assustam os egocêntricos.

Muitas reflexões favorecem a um pensamento que exalta a ciência. Queriam reformar o mundo com tecnologias, inventar máquinas, influir na circulação de mercadorias. O positivismo de Comte possui, ainda, muitos adeptos. Os encantos com a ordem e o progresso formam seguidores. Mas há reações. O samba de uma nota só não sobrevive. O socialismo grita, se arruma, constrói contrapontos, encontrar frustrações. Outras maneiras de ver a sociedade e a culturas se apresentam. A heterogeneidade compõe suas sinfonias sociais, abre corações, denuncia miséria e fragilidades. Nietzsche faz parte do grupo que se incomoda e propõe inquietações profundas. Não despreza as releituras.

Nietzsche não perdoa as artimanhas da cultura ocidental. Formula críticas ao cristianismo e ao platonismo. Não admite deuses que sufocam o humano, exalta a arte e exige que certas ingenuidades se desfaçam. Teve pouca compreensão do seu tempo. Hoje, é difícil encontrar um pensador que não se alie com sua ideias. A rebelião de 1968, em Paris, compactua com a imaginação, entusiasma-se com a estética, nos faz recordar Nietzsche. E Foucault, Ricoeur, Deleuze não bebem também do vinho de Dionísio? As concepções não ficam estáticas. Não há paralisia. As respostas desenham palavras instigantes.

Os contraponto não abandonam a história. Gosto de reconfigurar as arquiteturas de cada época. Já acusaram Nietzsche. Interpretaram sua obra, promovendo preconceitos. As verdades se invertem, os conflitos transformam situações. Não custa desconfiar das novidades descartáveis.  Nietzsche não morreu, circula, tornou-se pop. Há quem o enalteça envolvido em modismos.  Quem assumiria uma prática de vida seguindo as trilhas de Nietzsche? Para além do bem e do mal, talvez haja outras interpretações e significados. O hoje não morre sem olhar o que passou. Cunha, talvez, nunca tenha lido Nietzsche e Marx. O seu grupo de estudo tinha a presença de Temer. Ficaram fixados na história de Carlos Margens. Aprendizagens que identificam histórias.

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O fascismo tem memória, a política se desengana

Sentir as agitações do mundo não é fácil. Há muitos desenganos, a sociedade não consegue arrumar seus caminhos. Surgem inquietudes, sinais de que o bem e o mal estão de mão dadas , mas se estranham. Durante muito tempo, se dizia que os erros humanos podiam ser reconsiderados. Eles eram descuidos, falta de convívio com o divino, resquícios das maldições do pecado original. Há os predestinados, os salvadores do sagrado, os celebradores dos perdões. Eram poucos os que viam que há um lado obscuro intimidador. Não somos senhores do bem. Tropeçamos, somos agressivos, disputamos lugares, aprontamos armadilhas.

Não é sem razão que as guerras existem, que a vida é complexa e traiçoeira, que anida permanecem desigualdades violentas. Hoje, fala-se de fascismo. as raivas afloram e muito gente se acha sem amparo. A tolerância mora na beira do abismo. Visita-se a mentira como um dever. Observo que as pessoas parecem mecanizadas. Alguns tornaram-se donos da democracia, mesmo que falsifiquem discursos, comprometam-se com manobras que desmoralizam as leis. As perdas não acordam os que dormem na esteira do egocentrismo. Outros vigiam os mais próximos. Exigem companheirismo, quando são imensas as distâncias. Desfiam-se olhando espelhos ultrapassados.

Quando a memória se confunde, a política se desfaz do seu passado. Ninguém quer ser chamado de golpista, de corrupto, de inimigos da boa vontade. Quem pode negar que a desconfiança está generalizada? Num país da delação premiada os transtornos de dignidades não se vão. Observe que há um acordo profundo entre aqueles que desfilam no Congresso Nacional. E os partidos representam quem? Os preconceitos fixam residência no autoritarismo. Mussolini, Hitler, Salazar morreram, porém sobrevivem na imaginação, no olhar medonho de Feliciano, de Malafaia, nos histerismos de Janaína.

E os arautos dos socialismo reconhecem seu precursores? Já leram alguma página de Rosa Luxemburgo ou abandonaram de vez seus passados militantes? Seria uma grande comédia tantas relações desmanchadas, contudo há insegurança, quebra de sociabilidades, medo que esfria o desejo. Quem viveu lembra-se se de antigos defensores da liberdade, radicais e, agora, conciliados com o grande capital, conselheiros, consultores. Multiplicam-se as escolhas ou a um retorno? É claro quem nem todos são fascistas ou socialistas. A política é profissão , para muitos, que voam com pássaros enlouquecidos.

O mais grave é o desencontro. São  ensaios de cenas de atores, totalmente, perturbados com os textos programados. A ampliação da ausência de regras confiáveis provoca destemperos. Antes se dizia Fora Dilma, as panelas batiam,a indignação invadia comentários de jornalista acorrentados. Hoje, o Fora Temer ganha as ruas, os aeroportos, as arenas. A sociedade dividida busca, não se apaga, quer acender memória de lutas. A corda se estica, a ironia é um apelo perigoso, as nuvens da opressão carregam-se. Se a história suprime a possibilidade de transformação, o fascismo terá lugares especiais.Ele congela e protege as minorias ambiciosas. Reinventam-se cores, formas, gritos, segredos.

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Golpe na rua principal

As sombras digitam mensagens confusas e desalinhadas.

Veja as trilhas, os ruídos, o de dentro , o de fora,

                                                Falta quem diga não ou desconfie do que está escondido.

observe que há uma amargura nas ruas desertas.

Quem rifa a memória, desencanta-se e fere o corpo,

espalhando e adormecendo a culpa do incômodo.

O cansaço se move com estratégias sutis,

as astúcias improvisam reações e inquietudes.

A mentira veste a roupa da madrugada vadia.

há quem sonhe com fim do mundo e o inferno dos pecados.

há quem se cale acreditando no acalanto do sagrado.

No meio do mundo desfila a covardia dos que se banham nos privilégios,

                                          Na esquina da rua principal, moram os golpes cínicos e obscuros,

com o rostos pintados com o ódio que desatina, desgoverna, desfia.

os sorrisos que transformam rostos em espelhos desfigurados

e falsos anjos desesperados e raivosos com a farsa mal produzida.

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Aquarius: a navegação de Clara e a memória inquieta

Clara navega, não anda. Tem o corpo aceso. Ver o mundo por um espelho incomum. Resiste, sem adormecer na resistência. Movimenta-se dialogando com sua memória. Fica firme na sua história, sem sonhar com a ameaça do pecado original. Não teme, mas julga. Sabe que a vida pode estar em outro lugar e que, hoje, a covardia faz parceria com milhões de dólares. Prefere definir as possibilidades. Lembra Prometeu. Não se sente, porém, acorrentada. Escolhe o caminho e arruína as fatalidades. Sai da tela para socializar suas tensões. Conhece a autonomia, não se curva. Conversa, inventa, segura-se, pula as armadilhas. Sem pertencimentos, o desejo é pálido, a casa é sombria, o amor se desmancha, o deus de Nietzsche se imobiliza. A despedida desconfia do retorno, faz o sangue se apressar.

Sônia Braga veste-se de Clara. A imagem  se amplia como se estivesse no agora de cada um. Clara e Sônia ensinam que a dignidade existe e quem ama os cupins não consegue superar-se. Há uma leitura fundamental dos conflitos,os significados provocam, viajam no tempo. O jogo da história não sacode fora as permanências. Alguns problemas se agudizam. A especulação imobiliária engana e intimida. Estamos cercados de cinismo numa ilha esquisita e monstruosa? O importante é não recuar, ir adiante, não adivinhar, nem militar em territórios que roubam as utopias. Os ruídos agitam e não deixam que os gritos morram. A nudez é um começo, uma iniciação sem ponto final. A medida exata nunca apareceu, está solta no universo ou se recolheu no divã de Freud.

Clara desafia os limites. Ouve a dor do seu corpo, porém navega na sensibilidade. O que outros dizem não é tudo. Belisca. Enraivece. No entanto, os abraços não estão no lixo. Há lugares de celebração do encanto que não sucumbiram às especulações midiáticas. O mundo enche-se de linguagens. É preciso mudar as cores das fachadas, buscar o passado, tropeçar, compreender as crenças que surgem misturadas com os sinos da grana. Maria Betânia canta os dramas. O brega e o chique imprimem afetos.  Existiria só harmonias ou os deslocamentos são constantes? Quem pune será punido? O gozo tem moradia ou apenas assanha a imaginação? Um dia, às vezes, dura um século, deprime as energias ansiosas e febris.

O cinema não foge do cotidiano. Produz representações. É impaciente, traz a inquietude, desperta, fere os nervos de aço. Ele toca quando puxa a corda da interioridade. Negar os labirintos estraga a reflexão. A busca de equilíbrio retoma incertezas e quebra a euforia de quem desenha a felicidade com formas eternas. Fazer  cultura é contemplar,  não é coisa de vagabundo. O que seria do humano sem a história? O capitalismo gosta de sínteses, de banalizações, de mostrar paraísos que encobrem infernos. Quem se declara ingênuo aposta na salvação? Clara não anula o heterogêneo. A noite pode cultivar pesadelos, mas ela passa arrastando vestígios inesquecíveis. Quem não aprende se espanta com a arrogância do seu próprio velório.

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A história não se acanha e o tempo não para

 

 

Adianta sempre repetir que a história é construção. Não é homogênea, está cheia de ruínas, vive desencontros e surpreende. Acontecem coisas que nos deixam tristes e outras que nos chamam para a alegria. É difícil se equilibrar, ouvir ruídos inoportunos, observar mudanças superficiais, assistir aos golpes dos azares articulados. Desistir e achar que o mundo está maluco é cair no abismo. Existe muito delírio, não podemos apagar as disputas, mas temos escolhas e a história não fica inerte. Ela não possui donos, embora haja vencidos e vencedores. Portanto, não há razão para multiplicar raivas. O importante é saber agir e desmontar aquilo que incomoda. A inquietude movimenta e mostra que a apatia tem semelhanças com a morte.

O Brasil passa por divisões cruciais. Não há um renovação política, nem a queda de tradições e a ampliação da cidadania. Há incômodos e busca de garantir lugares. Acendem-se preconceitos, as panelas se agitam, os fogos pipocam, cantam o Hino Nacional. Penso de outras maneira. Passa-me uma melancolia, revisito o passado, sinto a memória inquieta. Espero que as revelações sobre as corrupções continuem, porém não consigo acreditar em Renan, Aécio, Cunha , Temer e outros. Não se trata do Céu e do Inferno. O cinismo não se localiza em um único lugar. A confusão mostrou agonias generalizadas, os partidos todos perplexos, os acordos invalidando qualquer sentimento democrático.

Todos procuram defender o caminho da modernidade. Ninguém  quer compromissos com  autoritarismo. É o que dizem, mesmo os que não sabem o que é democracia, perdidos na política por ambições e cargos. É um exagero desejar uma sociedade uniforme. Já temos muitas massificações. Não custa, porém, estimular a crítica e a dignidade. O deboche traz diminuição dos valores, tece rede frágeis de afetos e amizades.Isso é o que nos derruba. Celebrações que poderão ser lamentadas, solidões que buscam na ironia, no êxitos dos outros a salvação para seus desencantos. A polícia está ruas distribuindo violência com uma fúria incrível. Tudo é visível e articulado.

A história não se interrompe. Não sei quando vai terminar, nem se há Deus  atento para os malabarismos do tempo. Quem é eterno curte privilégios. Assim vamos tomando conta das construções possíveis. Saltos, terremotos, risos, descontroles, Romário, Fernando Coelho, Picasso, Kundera, Nara Leão, Dilma, Janaína, Gilmar, Pelé, Galeguinho do Coque, Gabeira, Cartola,,,, É  infinita a nomenclatura, como as formas, as cores e a vontade de poder levitar, espalhar abraços. Mas a incompletude nos acompanha. A simpatia não é comprada. Há magias que nos acordam e nos animam. Até quando as perguntas serão maiores do que as respostas? Saudações democráticas… as sombras e as luzes assustam quando não distinguimos os fantasmas.

 

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