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Inferno e hospício: a política das tensões inesperadas

Governar não é fácil. A complexidade continua tomando conta das relações de poder. Preparam-se armadilhas que são mortais. Deixam a perplexidade correr pela mídia. Um dia se vai aos céus, o outro dia sinaliza-se com a catástrofe. Não há, portanto, uma ética, uma pedagogia , um projeto. O futuro , talvez, seja um inferno, as sepulturas de sonhos, a quebra das esperanças. Tempos assombrosos com nunca vivi. Daria uma filme de suspense com bilheteria garantida. Uma coisa é pensar as imagens, outra é pensar a mutilação dos corpos, o fim de direitos sociais, a propagação de um cinismo medonho, a esquina de uma encruzilha sem luz, a fome se espalhando.

Prende-se, denuncia-se, julga-se. De repente, desaparecem ídolos políticos. As leituras do golpe são variadas. Mas quem não avista que uma programação está sendo ativada? Não há intenções nas ações jurídicas urgentes?Se é para derrubar o corrupção, por que há gestões privilegiadas? O debate não se restringe aos aspectos formais. Sinto que há um desmanche das instituições e vejo cenas brutas. Falta medida. Como tudo isso será guardado pela memória? O homem é um animal astuto, nada tímido, quando busca eliminar seus inimigos. Nada desmente que os boatos  circulam com muita rapidez. Será?

Não entendo as possibilidades de transformações prometidas por Temer e cia. O Brasil aprofunda-se numa crise de valores. Ninguém toca nas perdas de dignidade. A imprensa vende notícias, sacode sensacionalismos, porém não esqueça que os jornais impressos estão quase falidos, sobrevivem com negociações. Querem as ofensas, esquentar os jogos, desabrigar inimigos. Toda nudez será castigada, como dizia Rodrigues. Há quedas extensas e pesadelos assustadores nas madrugadas mais iluminadas. Quem sabe o caminho, quem consegue cessar de especular, quem redefine a política?

Não consigo captar se as salvações estão arquitetadas por religiões ou se política está inserida em altares nunca antes imaginados. O medo existe, a desproporção é grande. O mundo se assanha com mudanças nas modas, com as invenções de celulares. Poucos se lembram das tragédias cotidianas, das fomes, das balas, das drogas, dos refugiados. O Congresso Nacional compartilha com momentos históricos indiscutíveis. Eles trazem histeria e não lucidez. O vizinho desconfia do vizinho, o amigo se foi arrancando ideias dos demônios momeados pela ambição. Quando a desconfiança se amplia, os muros se desfazem por cima das verdades ainda existentes.

Cuidado. Não justifique os que aumentam o tamanho do pântano. A história não existe para purificar espíritos. Ela é construída com tropeços. A sociedade se veste de falsos perdões, quando esta submersa pela culpa. Não despreze o que não vê, os que escolhem labirintos de luxo. Os perfumes servem para disfarçar a sujeira e imagens são trabalhadas para desfazer iniciativas. Há quem se entregue às apatias. O mundo se deprime no movimento da grana. Julga-se para triturar-se. A terra do bem talvez seja uma fantasia. Não custa, porém. citar os desmantelos. Ficar de braços dados com a arrogância é um constrangimento. Dizem que os perdões possuem o tamanho dos pecados.

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Quem sabe o caminho?

Entro na nostalgia para saber o que é a saudade.

sinto-me refugiado nas avenidas da cidade.

Não existe andarilho onde tudo é pressa,

não há poema se a palavra escorrega.

Sei que tenho um nome, mas não me pertenço,

apenas observo que o céu azul ignora as nuvens,

e estrelas desistiram de namorar com a noite.

Faz tempo que a verdade se desmancha e

que piso no chão para conversar com a terra.

Os caminhos estão sendo bloqueados e

a melancolia desenha a medida do corpo.

Quem inventou o paraíso se esqueceu do perdão,

desfaço a geometria do espelho antigo e olho a porta fechada.

Ninguém escuta os gritos abafados e os ruídos do coração sem ritmo.

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Neymar: a vaidade no meio do caminho

 

Sou torcedor do Santa Cruz. Sempre curti futebol. Jogava peladas na ruas calçadas e nas praias. Era bastante irregular, mas tinha muita garra. Divertia-me, fazia amigos, cansava o corpo e liberava o ânimo. Até 22 anos, comparecia aos estádios. Era um alívio, para se livrar das tensões. Mesmo que Santa perdesse, não deixava de viver o momento com entusiasmo. Gritava, vi Pelé e seu malabarismo, multidões soltas sem agressividade. Hoje, continuo assistindo aos espetáculos pela televisão. Tive um blog sobre futebol e reconheço que muita coisa mudou. O futebol não está isento das andanças sociais. Globalizou-se. É território dominado por máfias internacionais. Informe-se sobre o futebol inglês.  O buraco corta as travessias e celebra os negócios.

A vitória do Brasil contra a Alemanha provocou polêmicas. As controvérsias estão acesas. A raiva, o preconceito, a frustração se espalham. Portanto, surgem as dúvidas e as inimizades se radicalizam. As redes sociais são cenários de euforias e desavenças. Sobram exaltações e melancolias. O governo Temer mexe com a insatisfação e arrasta outras formas de protesto. Ele não é nada simpático e esconde-se. Não sei como sobrevive. Morre de medo de levar vaias, faz acordos com pessoas nada recomendáveis. Obedece ao calendário de decisões estranhas. se olha no espelho do golpe. Nunca seria escalado para seleção brasileira. A política se ocupa das mentiras com astúcia e sem vergonha

Neymar desponta como grande ídolo, porém possui seus adversários. Milita no time das arrogâncias, deslumbra-se com a grana e não percebe as ilusões. Pensa que o sucesso não se vai, que o mistificação está guardada com segurança. Não sabe o que é pedagogia, zomba, desconhece limites. Como esperar, então, que seja um defensor da democracia? Sei que tem arte no seu jogo. Lembra craques do passado. Toca sua sinfonia solitário. Veste-se de vaidade e  estimula antipatias. Muita gente torceu contra o Brasil indignada com as declarações de Neymar. Faz parte da sua tonta programação, dos excessos nada sadios. A sociedade é também tomada por desacertos e cinismos. Observe o orgulho de quem se considera um mestre inigualável?

Não tenho expectativas que ele se torne um anjo, no entanto torci pelo Brasil. As inquietações invadem as sociabilidades. O capitalismo não se distrai. Ele não poderia se ausentar daquilo que seduz a maioria. Não esqueço que nas universidades , nas escolas, nos tribunais há pessoas arrogantes. Fico assustado com certos comportamentos de figuras que centralizam poder e se mostram como grandes senhores do saber. Vou esperar que Neymar seja guerrilheiro? Não custa olhar para os lados, analisar os ambientes, observar como os caminhos são traçados. Descarregar a emoção, cultivar perplexidades vazias não ressuscitarão os desejos de mudanças. A dificuldade é distinguir as ambiguidades e desconfiar dos julgamentos.

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As Olimpíadas: o jogo, a política, o humano

Bolt, Phelps, Sheila, Marta, Argentina, Croácia, China, Estados Unidos… Tudo passa, mas não sem polêmicas e travessuras, sobretudo quando a tempestade é longa. Curto, porém, os jogos desde muito tempo. Sei que é uma época de demônios e Dráculas políticos. Muita gente envolvida com corrupções, outros destilando falta de caráter, mostrando ser mensageiros do céu. Nunca vi tanta hipocrisia. Condeno qualquer ação que desmanche a solidariedade e festeje o autoritarismo. Há fascistas que não sabem o que é ser fascista, nunca leram Freud, Arendt, Gramsci e pouco ligam para a generosidade. Gostam de navegar nos pântanos, comercializar drogas, ser companheiros dos privilegiados astuciosos.

As Olimpíadas fazem parte da cultura. Quem as inventou, na Grécia, tinha ligações com a magia. Hoje, há uma multiplicidade de esportes que nos deixa assustados. Tênis de mesa, hóquei na grama, salto em altura, futebol, ginástica, natação… Seria impossível contar os movimentos que assinalam as performances dos atletas. Portanto, a imaginação anda solta. Gritos, vaias, delírios, medalhas. Há empenho ou aventuras midiáticas espetaculares. Quando podia, estava deslumbrado com a  velocidade de Bolt e o esforço dos que ficam lá atrás, mas não desistem. Difícil simular indiferença. Para quê? Não há fantasia? Temos que nos fixarmos na melancolia e morrer com a culpa?

Não sou ingênuo. O capitalismo adora sacudir a grana em tudo. As grandes corporações lançam palavras de ordem, incentivam o consumo, dão lições de patriotismo. São as senhoras de uma sociedade carente  e dispersa. Lamento, resisto, visto-me de indignação. Não posso negar, porém, minha paixão pelos esportes. É importante, muitas vezes, levitar, observar os mitos e não celebrar a raiva e o ressentimento. A vida é um jogo, os azares iludem e como as sortes não saem do mundo. A nossa incompletude é extensa, trágica. Não esqueça de Prometeu Acorrentado.

A história mistura tanta coisa. Neymar é um dançarino, um artista. No entanto, promove farras gigantescas e não mede seus ataques de vaidade Quem não se lembra das atrocidades de Hitler? Quem não aprendeu com a poesia de Rimbaud? A sociedade morde seu próprio rabo. A quantidade de invenções que circulam nos tempos históricos é infinita. Existem cinemas, bares, escritórios, lendas, vereadores, fotografias, psicopatas… Como não se fascinar com a escrita de Kundera? Como considerar tudo perdido para sempre? O sonho se cansa. Temos pesadelos, apelamos para os divãs, chutamos as portas, procuramos heróis.

O humano é indescritível, não cabe numa página, nem tampouco assusta uma estrela. Os intelectuais e os artistas buscam sínteses que decifrem as caminhadas humanas. Há divertimentos, polêmicas, depressões. Brinco e me escondo das palavras. Conversar com os outros, desafiar os limites, jurar alegrias no facebook, tudo faz parte da vida. Se há um paraíso, não posso confirmar. O cotidiano é o soberano. A morte é saudade, a vida inquietação. A tarde está azul, voar é com os pássaros. Não devo  adormecer meus desejos. Um dia, talvez, as Olimpíadas ganhem outras cores e exterminem as armadilhas. A história não me pertence, porém olho sempre no seu espelho.

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Contar as tristezas

Não se esconde as lágrimas, nem se quebra espelhos.

a vida não se entrega com a raiva que se forma.

Cada momento escolhe deveres e se cansa dos tempos,

mas o desespero provoca desistências e pesadelos.

Como construir as arquiteturas históricas é desafio,

pois desenhos vacilantes, obscurecem os olhares.

Os sentimentos correm, escorregam, sobrevivem.

As tristezas inquietam, intimidam, imitam a solidão.

Não há sentir sem estética, não há tristeza morta.

Há um acaso que ama a distração e perdoa as incertezas.

Alguém fechou a porta e adivinhou que a despedida é o início de alguma coisa.

Difícil é firmar a síntese final ou testemunhar o amanhã,

o encanto não tem moradia, se refugia como um pássaro.

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Não desconheça a história, nem a mentira

Estamos numa travessia que parece não ter fim. Não é primeira vez. Adão e Eva não ficaram acomodados quando desobedeceram as ordens divinas. A questão do pecado e da culpa é antiga, já vive dias de ruínas e desacertos. No entanto, não acredite que as religiões estão fulminadas.Elas prosseguem buscando adeptos e escolhendo salvações. São ardilosas, não optam mais por meditações. Gostam de ruídos, televisões, templos ricos, política e condenar os que defendem mudanças nos costumes. Não sei que transformações acontecerão. Vejo abismos, não consigo construir utopias e os sonhos estão de férias. Uma confusão nos valores distorce sentimentos. As raivas e as violências não cessam.

Nunca esquecer os balanços da memória é fundamental. O progresso não é visível. Os conhecimentos esclarecem, mas também consagram dominações. Preconceitos são retomados e ordens são revistas. Por isso desconfie da ideia que o tempo é linear e existe uma escada que nos leva aos céus. Não deixe de lembra que há pessoas que possuem bilhões e outras que se perdem nas ruas da cidade. Somos animais sociais. É sempre importante resistir ou mostrar que a sociabilidade necessita de convivência, de afeto, de olhares coletivos. Construir a história é abrir possibilidade de reforçar o coletivo e não desejar destruir culturas.

Renegue o destino. Não temos vida determinada por um tempo exato. Apesar dos descontroles, não há uma natureza fixa. Há identidades que se multiplicam, que dialogam com o futuro e o passado. Vamos inventando, mergulhados em surpresas. A tragédia se move, os exílios são comuns, porém não custa avistar uma luz que parece tardia. Talvez, a história seja um grande jogo ou uma brincadeira. Quem sabe? As dúvidas não se vão. Descartes, Freud, Hannah, Marcuse, Deleuze e tantos outros especularam. A resposta que sossega navega por mares que anônimos.

A sensação de perda não é novidade. Aparecem acrobacias, os cansaços se escondem, mas de repente o fogo volta agitando os desejos. Os desequilíbrios nos tocam e nos acendem. A história nos acompanha, somos seus mensageiros e seus escribas. Portanto, mesmo que o desespero se espante, não custa refletir, imaginar que os fracassos não estão consumados. Por que se calar e achar que o fim está próximo? O desejo de gritar limpa o coração e solta as tristezas. As incertezas vestem as travessias. As perguntas trazem aflições. Será que a história não foi assim desde seus primórdios? Não se engane,a mentira é um produto da cultura, não voa sozinha.

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Marx, Nietzsche, Freud: os tempos dialogam

Rejeitar pode ser um erro. Os tempos dialogam. É fundamental observar a renovação do que fica. Não perder de vista a crítica, ela ajuda a esclarecer a complexidade do contemporâneo. Ninguém parte do nada, há entrelaçamentos visíveis. Nem tudo pode ser radicalmente decifrado. Hábitos antigos se repetem e violências tiranas acontecem nas mais sofisticadas cidades. O historiador não pode expulsar as contradições e se iludir com as mentiras desenvolvimentistas. Elas enchem os cofres de muita gente que muda de posição de acordo com interesses. Há perplexidade, porque as ingenuidades não morrem e nem todos gostam de ser patriarcais. A sociedade se move, acolhe escândalos, toma sustos.Há especialistas em formular boatos e as verdades vacilam ou não existem..

Marx pensou a capitalismo no século XIX. Suas teorias provocaram fanatismos e iras. Seus ensinamentos atravessaram séculos, foram bastante lidos, motivaram rebeldias e interpretações múltiplas. Não deixou de sofrer críticas.Muitos acham suas análises absurdas e superadas. A luta política influencia nas leituras da obra de Marx. No entanto, é inegável a força de suas decifrações para um conhecimento das aventuras do capitalismo. As reflexões sobre fetiche da mercadoria é uma abertura incrível para penetrar nas ilusões trazidas pelas revoluções burguesas. No Capital, mostra como a burguesia se organizou para derrubar o passado e assegurar a mais-valia.Nem tudo se foi,  as crises se sucedem sem acabar com a dominação burguesa.

Sepultar as ideias de Marx como se fossem um lixo acadêmico é se encher de ressentimentos.No Manifesto Comunista, que escreveu com Engels, há um relato histórico das mudanças que abalaram a sociedade da época. Foi um salto. O texto descreve as tradições e suas quedas, ressalta a diluição de hábitos consagrados. Tinha perspectiva otimista. A burguesia continua se equilibrando e os governos ditos socialistas não alcançaram o êxito. O Manifesto critica os valores, as instituições e a precariedade de um sistema que alimenta o individualismo. Há uma fascínio que atrai, ideias que justificam a afirmação. Não existem apenas violências ou armadilhas. As controvérsias se firmam. Não há unanimidade. É   o mundo das tensões com traços marcantes de sinais de barbárie.

Nietzsche é lido, nos tempos atuais, com avidez. Tornou-se um ídolo. Há muitos autores influenciados pelas suas teses que transtornaram os bem comportados. Ele demoliu a cultura ocidental, assinalou as suas hipocrisias. Era pessimista. Apesar de pensar para além do bem e do mal, registra desencontros. Não aceita o cristianismo e combate o platonismo. O poder se salienta e a luta se evidencia. . Sobram interesses e os valores estão podres. Nietzsche foi vítima de sofrimentos físicos, delírios, mas escreveu uma obra que desnorteia pela sua radicalidade. Hoje, há grupos de estudos buscando compreendê-lo, ele circula nas academias, sacode preconceitos. Talvez, tenha sido um profeta.  A onisciência é, contudo, uma fantasia. Nietzsche não poupou os que vendiam e negociavam verdades.

Freud buscou paradigmas nas relações afetivas. Também denunciou os cinismos e as egolatrias. Não se deixou se encantar pelas generosidades de sua época. Analisou os sonhos, decifrou frustrações, entrou no romance familiar com sensibilidade. Impressiona sua sagacidade. O corpo e a sexualidade ganham espaço nas suas indagações. Debateu questões que, hoje, estão ainda assustando a sociedade. A psicanálise não é vestígio do passado. Renovou-se, porém há quem desfaça os raciocínios freudianos. Suas teses demonstram que a violência não existe por acaso. Os prazeres e os desprazes são temas que balançam a vida. Não ler Freud é um vazio na formação dos que querem encontrar esconderijos. A cultura se compõem com os malabarismos desafiadores dos que duvidam. É precioso não riscar os espelhos das imagens que atravessaram os tempos.

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A praça , a vida, a dança

Há um desenho na esquina com cores vermelhas,

é um anúncio anônimo de quem se esqueceu d0 mundo.

Sentados nos bancos, há sonhos de esfomeados que desconhecem o amanhã.

Os cães, perfumados, acompanham seus donos e medem afetos especiais,

como se a vida se transformasse sem observar a imagem do que se foi,

como se os afetos buscassem um sossego poderoso e inusitado.

A praça parece uma vitrine, uma síntese do mundo, um lugar sem definição,

uma imagem tardia que não apaga as incertezas do cotidiano.

As suas cartografias revelam o que as hipocrisias escondem e escravizam.

As dores do mundo cabem num quarto ou num pesadelo insperado,

mas os fogos de artifício querem silenciá-las e legitimar qualquer espetáculo,

os minutos são contados como se fossem perdões apagados pelas fugas.

A brincadeira se desmoronou no grande circo da partida e do acaso,

quem acreditou no juízo final despediu-se do mundo no suicídio da desilusão.

A vida ritma uma dança envolvida pelo desejo de imortalidade.

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Pokémon: o encontro das solidões apressadas

O circo não se foi. Não é aquele de antes, quando os palhaços tinham mil brincadeiras e os risos corriam soltos. Quem se lembra dos malabaristas, das bailarinas, dos trapezistas audaciosos? Era um divertimento amplo que deixava a plateia mobilizada. Não se trata, aqui, de nostalgia consolidada.  Temos de olhar o que passou, os prazeres de ontem, para não cairmos na loucura das artificialidades atuais. A opção pelo capitalismo é feita por muitos de forma persistente. Há quem mude, quem abandone as utopias, escrevam nos jornais pedido perdão pelos erros. Cada um faz sua escolha, porém é difícil negar o mercado dos bens arrogantes. Não há como querer que o capitalismo celebre a justiça. O jogo sempre se constituirá de complexidades assustadoras.

A história tem um traçado nada racional ou objetivo. Inventa e desinventa. Curtir saudades se insere no cotidiano. Os amores não se vão de vez. Há vestígios na memória, há tropeços nos caminhos, há discordâncias nos sentimentos. Será o pecado original exclusivo dos ingênuas? Quem acredita nos sermões dos pastores que vendem salvações? A sociedade não se livra das dúvidas. Elas as movimenta, pode até transformá-las em modas intelectuais. O supérfluo está na cultura, ganha adeptos, seduz, cria confusão e desigualdade. É sempre uma tristeza saber que as verdades são frágeis e ainda buscamos encontrar os paraísos. As redes sociais inquietam e dialogam com os retratos de vida, não desprezam os instantes mais profundos das melancolias.

A solidão nos acolhe com solidão. Nem sempre, aquieta ou revela segredos. Num mundo das tecnologias insistentes e autoritárias, surpresas acontecem e delírios procuram anular a solidão. Surgem escapatórias sofisticadas. Pokémon  não é antipático, possui mistérios, atiça curiosidades. A solidão , muitas vezes, incomoda. É preciso encontrar fugas, reverter o foco, agarra-se em distrações poderosas. Não importa o risco, o tamanho da ressaca, os escorregões nos becos e nas avenidas. Conhece alguma sociedade sem solidão ou instrumentos para aniquilá-la? As formas ganham outros desenhos. Não estamos na época de Copérnico , nem de Platão, porém prossegue a caça, a incompletude. os cinismos, as ousadia… As indefinições se colam nas existências.

As permanências são ativas. Já leram Medéia, tragédia grega escrita por Eurípedes? Tente compará-la com as novelas das TVs contemporânas? As violências circulam, os preconceitos se firmam, as corrupções não se perdem, os juízes vacilam. O olhar para o espelhos nunca é um desperdício. Pokémon não fascina todas pessoas. Existem críticas raivosas. Mas muitos querem se largar, se encher de aventuras, mesmo que elas reproduzam o vazio. As Olimpíadas são seculares. Provocam deslumbramentos, aquietam ânimos, configura uma paz fantasiosa. Na época, em que acontecem grandiosidades globalizadas não esqueçam que outros movimentos se desenham. Os tempos são soberanos; pintam-se com todas as cores.

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A depressão e as festas virtuais: o balanço da desconfiança

Estamos envolvidos por notícias assustadoras. Não sabemos se vai aparecer alguma luz. Denúncias se multiplicam,  golpes com identidades renovadoras se afirmam. O debate é mesmo inquietante. Portanto, os ânimos assustam, pois há comportamentos fascistas e corruptos soltos ditando normas. Tudo é confuso, os julgamentos vacilam e a sociedade vive desmanche de instituições. Mas fechamos os olhos para outros problemas que se espelham pelo mundo e arruínam valores. Já assistiram aos documentários que mostram crianças sendo treinadas para entrar nas guerras? Já pensaram nas repercussões das disputas religiosas e dos terrorismos que se propagam pelo mundo? Elas não se fixam , apenas, nos chamados países pequenos. Observem as pressões imperialistas.

Numa situação de tantos dissabores, há questões que intimidam e corroem as sociabilidades. O movimento de intranquilidade não cessa, se aprofunda, desnorteia. Não é sem razão que os afetos se decompõem. Há dados espantosos. Existem 11 milhões de pessoas que sofrem de depressão no Brasil. Um número que mostra a perplexidade que arrasta coragem e configura medos. As indústrias farmacêuticas ganham fortunas com a venda de remédios para controlar os dramas individuais. A forma de sistematizar as convivências não prometem salvações, porém cavam abismos, celebram as explorações e o descartável.O desamparo não é algo passageiro. Em quem confiar se as suspeitas marcam o convívio? A fragmentação é indecifrável?

O capitalismo não perde tempo. A política não se afasta da economia. As grandes corporações a financiam. O desencontro geral, diminui esperança, oprime planos de libertar-se das pressões. Essa forte desconfiança, que concentra poderes, monopoliza riqueza, desequilibra. As pessoas buscam fugas. Não se escutam. Fantasiam inimigos, surgem heróis alimentando discursos de ódio. Apesar das inúmeras teorias, das campanhas educacionais, dos espetáculos, há algo de podre que atormenta e se reverte contra as convicções de que as saídas podem ser vistas, que o que existe é um incompetência nas gestões administrativas.Freud anunciava, em suas obras, as tensões permanentes. A expectativa de que a história amplia mudanças possui muitas ambiguidades. Os balanços se movimentam atraindo suspenses anônimos.Enquanto não se sepultar a ideia positivista de progresso, ficaremos nos enganando e submissos aos anseios da grana.

É  espantosos como negam o social e procuram individualizar os problemas. Somos animais sociais, não devemos esconder as necessidades artificiais manipuladas cotidianamente, as comunicações virtuais semeando ilusões, as vitrines comemorando a chegada das novidades. Como desejar que a sociedade se renove, respire, se a melancolia transformou-se numa epidemia? Se há as viroses que destroçam os corpos e deixa dúvidas nos serviços de saúde pública, as emoções e os afetos também são atingidos radicalmente. O que esperar, se o tilintar da moeda dá ordens? A casa não se abre se a chave é falsa e a dança é macabra no interior dos seus quartos.Não é na calça desbotada que mora a felicidade. A festa não deixa de acontecer, mas ela curta e virtual, refugia.

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