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Albert Camus: a revolta e a existência

Viver não é fácil.Há muitas instabilidades e esfinges indecifráveis. Parece que tudo é magia, mas o toque do absurdo e desespero inquieta. As dúvidas trazem certas agonias, as buscas inventam as ansiedades, os perdões andam juntos com a culpa. Não adianta inventar teorias para resolver as armadilhas do cotidiano. Porém, há sempre desafios que podem significar alegrias e a palavra para alimentar o desejo. Um fôlego estranho não se ausenta e os deuses não deixam de enviar seus anjos e seus demônios.

Camus me fascina pela escrita. Não é pouco.Ele sabe entrar nos suspiros do trágico, não se escandaliza com a angústia. Aprofunda e expande sua gramática existencial. Sempre procuro ler suas reflexões e olhar o poético. Camus é comprometido com o humano, parceiro de Sísifo e Prometeu. Sua sensibilidade transcende o comum. Viaja, conhece labirintos, não se intimida com a falta de sentido. Para que negar as melancolias? Para que esconder que há disputas, perplexidades, limites?

Dialogando com o mundo, entendemos os exílios, nos aproximamos das paixões e do sentimentos atraentes.Tudo muito efêmero, como um sonho que se mistura com pesadelos. Sobram perguntas, os caminhos são de pedra, mas a beleza chega e nos contempla. As surpresas não se vão da história, os refugiados reclamam e choram, outros riem e explodem com as ironias. Camus não corre da complexidade. Analisa as permanências seculares, as quedas, os empurrões da tristeza.

Conversar com Camus é encontrar o estrangeiro, se desfazer de certas metafísicas e fixar-se em horizontes de cores diferentes. Ele tem sua singularidade. Debate, mostra o estranho, não despreza o afeto. Sua ética reforça a solidariedade. Não corteja mandamento vindo do céu. O planeta terra já tem muitos desencontros e pede ajuda imediata. Camus não se livrou da urgência, não abandonou os mitos, narrou seus impasses e se abraçou à coragem. Não entrou na vitrine. Foi humano, demasiadamente humano. Saudações, grande companheiro,

Nietzsche: deus está morto?

Imaginar que a sociedade vive sem o absoluto é inquietação permanente. As incompletudes colocam situações de pânicos para os que se sentem controladores das imperfeições. No entanto, como negar que há necessidades, que buscamos nos salvar das imperfeições e nos perguntamos sobre tantos mistérios que acompanham o cotidiano? Terry Eagleton, no seu livro A morte de deus na cultura, enfrenta o desafio de dialogar com os anúncios de Nietzsche e as tentativas frequentes de criar teorias para viver sem religiões. Os gregos conviviam com os espetáculos das tragédias e não negavam a perplexidade que encobre a existência. Parece que ambiguidade é parceira das nossas indagações e Eagleton não foge das suas armadilhas. Traça trajetórias, esclarece travessias, navega na tempestade.

O rompimento das tradições, conduzidas pelas rebeldias luteranas, foi uma queda nos valores tradicionais dominantes ou uma alternativa para fugir em buscar de outras redenções ?A sociedade saía do medieval, a burguesia ensaiava consolidar suas ordens e suas ambições. Tudo acontece transformando comportamentos, agitando planos de colonização, instituindo catequeses. A Inquisição metia medo, silenciava intelectuais, mas havia reviravoltas proclamadas nos tempos renascentistas. A adivinhação é uma prática pretensiosa e histórica. Quem sabe o que se esperava com o fortalecimentos das críticas racionalistas? O dogma se apagava e os céus se desfaziam?Eagleton questiona os projetos iluministas. A razão se mostrava com desejos soberanos e abalava crenças seculares. Era uma ousadia empurrar as religiões para o abismo, porém as apostas no progresso multiplicavam teorias. Teríamos um mundo sem deus, com uma nudez escandalosa para muitos? A ideia do absoluto persegue a cultura?

Os românticos não simpatizavam com a objetividade definida pelos defensores do império da razão. Assumiram a quase adoração da arte e trouxeram a beleza e a sagração dos encantos da sensibilidade. Marx tomou outras direções, desvendou a exploração capitalista, acreditava em redenções políticas, seguindo dialéticas, apontando para necessidades de atender aos reclamos da maioria. É preciso sacudir no lixo da desigualdade e combater os desgovernos de quem se serve de escravidões e cultiva a mais-valia. Marx abria a porta da revolução e atiçava insatisfações dos trabalhadores assalariados.O olhar de deus não se foi, mesmo os positivistas prometendo uma ciência profana e diferente, sem pecados católicos, nem escritas calvinistas.

Darwin considerou a evolução, observou mudanças, construiu experiências surpreendentes. O homem foi mesmo feito à semelhança de algum deus? Muitas reflexões aprofundadas, pecados anulados, desesperos fluentes, inteligências astuciosas e filósofos enfrentando as ruínas de metafísicas. Nietzsche não hesitou. A morte de deus não é uma ilusão, mas o absoluto não viaja em voos acelerados e a sociedade comete seu deicídio sem resolver seus dilemas principais. Constroem interpretações, assanham-se projetos políticos inesperados, cantam-se conquistas tecnológicas. No entanto, ainda hoje,os fundamentalismos persistem e as bruxas andam soltas. Nietzsche esqueceu de organizar a missa de sétimo dia e deus não suporta esperar por velórios. A história não se desvincula de nostalgias, nem a fé desaparece. Há quem medite, ore, jogue na loteria e destrave imaginações antigas. O lúdico mora nas palavras e nos feitições que nos cercam. Não há ponto final.

A morte da ética ou a doença social?

As regras existem para colocar limites e buscar organizar a convivência. O império do individualismo quebra a sociabilidade e provoca violências angustiantes. Parece que é impossível construir um mundo sem desconfianças. A contemporaneidade trouxe mudanças nos valores e tentou fixar promessas de futuros. O século XIX se encheu de utopias socialistas e de críticas aos desfavores capitalistas. Cobrava-se um ética que ultrapasasse a exploração e facilitasse a solidariedade. As tensões continuaram e as fantasias vestiram outras cores, porém os privilégios apagaram possibilidade governos que formulassem leis e reflexões coletivas para benefício das maiorias.

As revoluções modernas possuíam, de início, propostas que entusiasmavam os oprimidos. A revolução francesa terminou sendo festejada pela burguesia, as rebeldias nas fábricas não minaram o capitalismo e os totalitarismos se fizeram presentes em todo século XX. Colonizações impediram que a liberdade cultural se expandisse e se pensasse em inventar democracias e no desmonte de teorias eurocêntricas. Muitos estudiosos justificaram o racismo, os preconceitos dizimaram as ilusões anarquistas e sociedade foi e é consumida por intrigas.

A ética existe e dialoga com os desencontros. No entanto, a prática estimula o engano, prepara armadilhas, manipula quem se inquieta diante das jogadas mesquinhas da política. A complexidade não se vai. Ora as religiões avançam e se misturam com as ambições, ora se exalta a vinda de messias e se elege os escolhidos por deus. As farsas estão no palco e a plateia de treinados aplaude.É difícil aprender a pedagogia da responsabilidade. A mudez aumenta o silêncio das apatias. Crescem a censura e o medo de divulgar ruídos e denúncias.

A doença social mostra que as pessoas se incomodam e, ao mesmo tempo, se punem assumindo desânimos. Há uma fatalidade? Mesmo que as permanências desenganem e lembrem o passado tenebroso, por que o espetáculo de horrores não pode interrompido? O tempo apressado das redes sociais, as novidades das imagens , o suspense constante adoece. Nem sempre, registra o aumentos das depressões, das ansiedades, das coisificaçoes trazidas pelos mercados. Não é sem razão que se julga e os juízes não deixam de sacudir fora o equilíbrio. O apocalipse não é fim da história. Ele costura o cotidiano e sacrifica corpos sem remorsos.

Marcuse:O sinal fechado e descolorido

As cores expressam sentimentos. Nada se inventa que não tenha significado. Há necessidade de mudanças, de viver possibilidades, abrir portas e refazer moradias.Quando a sociedade assume projetos conservadores, os olhares para o passado se reforçam e busca-se o negativo. Cria-se uma tribunal de condenações e se deturpam experiências. O mundo parece ser escravo de uma única sentença. Os senhores do poder não sossegam. Planejam permanências, não se inquietam com as exclusões, jogam para uma plateia que aplaude violências e renega inquietações. O ambiente da razão instrumental se alarga e produz desesperos.

O sinal se fecha, porque as regras atendem aos privilégios. É comum desfiar as memórias, ativar as mídias com propagandas e divulgações de religiões obcecadas pelos dízimos. O lugar da política se estreita, expulsa o coletivo, consagra as minorias. Coloniza-se a mente, firmam-se massificações, se proclama a força de ideias preconceituosas. Volta-se a um passado que não dialoga, que não se entrelaça com o novo, que sugere trocas e interesses sempre mesquinhos. Há quem sinta saudades das histerias nazistas e sacudam fora as inquietudes iniciais do cristianismo.

A história expõe que há espaços para abrir portas, mas quem se sente saudoso dos fascismos não querem pactos. Deseja anular as diferenças e consolidar dominações. É difícil manter o som de ruídos, quando a resposta é a violência. Quem compõe hinos de opressão estimula o cansaço da imaginação, quebra os espelhos da invenção e se justifica expandindo a censura para evitar saídas.Adotam a arquitetura dos abismos, preferem abandonar as utopias, desenhando os fantasmas dos pesadelos e transforma a punição numa forma de convivência.

Dispensam-se as cores. Prefere-se a melancolia, apaga-se o olhar ativo, vendem-se a monotonia e o fetiche da segurança. Ouvimos discursos milicianos e descobrimos que as inquisições não se foram, portanto as intrigas continuam, a sociedade se militariza e os projetos sucumbem diante dos autoritarismo vigilantes. A história oficial assume as narrativas, desmonta a crítica, menospreza pedagogias coletivas. Freud identificaria a vitória da pulsão de morte. Marcuse lamentaria a morte de Eros e a mesmice da vitrine idiotizante. A sociedade unidimensional sufoca e desama.O capitalismo festeja suas astúcias nada solidárias. administra sua razão instrumental, nos faz lembrar de quem não desistiu de suspeitar das suas opressões.

A memória é seletiva!

Não imagine que a história possui uma travessia sem oportunismo ou longe de qualquer inquietude. Não somos neutros e a realidade nos toca.A política invade a sociedade com as suas seduções e o tempo rege as nossas escolhas. Não é fácil traçar caminhos, pois as pressões nos empurram para lugares estranhos. Portanto, é preciso olhar o passado, compreender seu diálogo com o presente, definir as semelhanças, observar que as incertezas flutuam em cada época. A memória é seletiva. Não há recordações absolutas, muitos acontecimentos se perdem e as manipulações protegem interpretações de genocídios.

Há uma luta cotidiana. A história não vive sem contradições, embora as visões do paraíso sempre apareçam. As idas e as vindas dos tempos acenam com permanências. Não há cronologias fixas que legitimem progressos. As ciências buscam saberes que não são ingênuos. Ajudam a consagrar poderes.Quem pensou que haveria o fim das religiões, depois das especulações iluministas, deixou-se levar por profecias enganosas. Nem as grande revoluções conseguiram colocar no lixo as escravidões e as desigualdades.Elas se globalizaram, quebram possibilidades de socialização.

As colonizações continuam com seus disfarces. Espiona-se, grava-se, desmonta-se. A memória mora em máquinas e há perigos de termos um futuro de inteligências artificiais opressoras. Inventamos e perdemos o controle sobre as possibilidades de ajustar nossos desejos e conviver com sociedades com sossegos e solidariedades.A ciências se articulou com as ambições do capital. Há reações, mas muita grana circula, faz calar instituições, multiplica negócios, privilegia minorias, implanta perversidades, promove discursos, aparentemente, inocentes.

Não é sem razão que os esquecimentos são estimulados. As experiências ganham histórias que confundem os mais críticos. Joga-se tudo para um presentismo cego e dominador. A exaltação da eficiência não é lugar comum.Serve aos senhores que danificam as igualdades auxiliados por assessorias especializadas. Há quem se esconda, risque suas memórias e invista num individualismo pantanoso. As emoções entram no mercado de consumo. Formula-se um calendário de mentiras para celebrar datas vazias e se desfazer de memórias rebeldes. A sociedade administrada engana e nos coloca diante de imagens que, apenas, obscurecem a criatividade e consolidam a mesquinhez. Não surgem revoluções, nem metamorfoses.

O mundo é vasto e perigoso

O poeta nomeia o mundo. Sabe que os sentimentos são importantes, mas observa que a sociedade se mete num consumo avassalador. O deslumbramento se volta para as vitrines, para os passeios no meio das mercadorias. Pede-se desempenho. O poeta não consegue ultrapassar tantos impulsos marcados pelas ambições. É a tecnologia que atrai, apresenta sua magia, coisifica o desejo.Tudo tem seu preço. O verso do poeta mergulha, muitas vezes, em nostalgias. O mundo é vasto, porém quer fixar caminhos programados. Quem não ver que há pedras imensas atropelando as ousadias inquietas? Como dançar, esticar as astúcias, se pendurar nos trapézios?

O poeta não se retira de seus sonhos. Cobra fôlego, se abraça com as palavras, não discute sobre o vazio. Desconhece a solução final. Há um mistério universal ou deus se sente confortável com os sentimentos de culpa colados nas religiões? O poeta não se chama Raimundo, mas balança seu coração, puxa a imaginação, para que o corpo não se intimide com o ruído das máquinas. O mito é uma narrativa indispensável, nunca se ausentará das conversas, nem sufocará as acrobacias da cultura.Por isso, é preciso não anular as utopias, nem duvidar que os arcanjos ainda sobrevivem.

O perigoso é inutilizar o tempo e classificá-lo com calendários festivos e oficiais. A palavra do vencedor é sempre dúbia, envolvida com a estreiteza das possíveis opressões. Segue o ritmo de quem se fecha no individualismo e se segura em discurso planejado para empurrar as diferenças e inaugurar o abismo. Se o poeta cria mundos, os governantes buscam expandir orgulhos e armam-se para desfazer qualquer autonomia. O autoritarismo é forte, possui disfarces, engana e não apenas coage. Sacode a rebeldia no lixo e espalha regras com sinais de ordens inabaláveis.

Os escorregões acontecem, há necessidade de se entregar ao delírio, mesmo quando o labirinto toma conta das história. Portanto, a inquietação não é loucura, ser torto na vida pode ser um pulo para ultrapassar as banalidades. O poeta não é inimigo de Narciso, não se entrega a uma solidão que cega, nem testemunha o suicídio. Quando a arquitetura das palavras dialoga com a beleza as portas recebem luzes com chaves para para decifrar seus segredos. Quem suporta os espelhos e não contempla o mundo com seus olhos, se afastou do poeta para se escravizar no reino das mercadorias.

Você tem medo de quê?

As ruas estão cheias de pessoas apressadas. Não sabem seus caminhos ou os caminhos mais agradáveis, Querem salvar o cotidiano encontrando mercadorias ou vendendo sua força de trabalho.A situação é complexa e as mudanças servem para intimidar. O capitalismo consegue se refazer, apesar das muitas intrigas internacionais. Sobra a luta para não se perder nas explorações e tentar sobreviver. A tensão não se esconde e a morte faz tremer quem pensava que o século traria sossego e tecnologias ditas do bem.Zeus contratou seguranças para obscurecer suas astúcias.

Não escapamos do medo.Ele sempre existiu, mas ampliou seu território. Muitas bipolaridades, armas sofisticadas, milícias ambiciosas e governantes tontos. Não faltam teorias que justificam a competição e eliminam qualquer possibilidade de retomar sonhos afetivos. Parece que o pecado original sse encontra em toda parte. Os divulgadores de absurdos se aproveitam das redes sociais. Divulgam que a terra é plana e se sentem portadores de mensagens divinas. Tudo é confuso e assusta. Há planos suicidas e sociedades, melancólicas, imaginando que o futuro será a redenção. Nem todos celebram as alternativas proclamadas pelas teologias da prosperidade.

Navega-se. Se os barcos não encontram tempestades as relações entre seus passageiros vivem sossegos. Mas os mares estão cansados, desconhecem portos, recebem refugiados traumatizados com a fragmentação das suas culturas. O medo pode ser uma saudade de convivências solidárias. Há dúvidas e dificuldades de dialogar. Um silêncio vazio fortalece a covardia ou a necessidade de ficar oculto para não ser massacrado pela opressão. Portanto, a paralisia da imaginação desfaz invenções e a perplexidade traz agonias. Os deuses não se mostram atentos.Talvez, nunca tenham firmado compromissos com suas criaturas. Arquitetam-se para não fugir da monotonia e do narcisismo.

Resta provocar, soltar ruídos, riscar espelhos. Gramsci alertou para as sutilezas das hegemonias. Não há dominantes sem a coerção. As relações de poder se modificam e acompanham o fazer histórico. As imagens são guardadas em celulares.Quem profetizou tal ousadia? Lutos e lutas carregam perguntas, denunciam desigualdades, buscam brechas para se livrarem das repetições do medo. Kafka narrou, como poucos, os acasos e as ameaças do inútil. A literatura sempre inquietou, foi negada por alguns, porém antecipou a narrativa de tragédias e de ressentimento tão atuais. Por detrás das portas, os acontecimentos se constroem e as tramas marcam incertezas. Temos medo de quê? Talvez, dos demônios que abandonaram os frágeis infernos.

A cultura e a ruína

Exercer o poder central é sempre um desafio. Quem pretende calar as rebeldias pode cair sem sentir que a queda está próxima. A história é longa, passa por travessias inesperadas, sobrevive aos desencontros mais ferozes, porém convive com disputas e as polarizações se ampliam.Quem controla o poder sente que há muitos ruídos. Procura meios de construir saídas e não deixar seus aliados desamparados. A luta política não cessa, tem cores confusas, desilude, inquieta.Esperar que, uma dia, ela se encerre é um sonho pouco provável.

Vamos seguindo. Há manifestações de ódio, houve genocídios gigantescos, há sentimentos de destruição e ruínas que poluem paisagens alternativas. Compreender como animais sociais manifestam suas intenções nefastas desfaz expectativas que os labirintos se desfarão. Crescem os caminhos nada lineares e as sofisticações tecnológicos ajudam a agitar negatividades e preparar armadilhas. Diante de tantas contradições, há suspiros de desesperos e medos. A sociedade se fecha, para alguns, que buscam solidões cercados de prédios por todos os lados. Como fazer, como contemplar, como curtir o perfume do sossego?

Os gregos escreveram tragédias e aprenderam a nomear limites. O ser humano inventa a cultura, mas não abandona práticas que desmontam afetos e nos empurram para abismos. Existem milhares de estranhamentos. Os mitos narram possibilidades, multiplicam fantasias, revelam a persistência das dores. As especulações gregas não se foram. Apolo chama atenção de Nietzsche, Freud não nega a importância de Édipo, as modas exploram a arte clássica. Os gregos conversavam, queriam resolver impasses, não superaram, contudo, as relações de escravidão. Navegaram em ambiguidades radicais.

A sociedade não fechou as portas da reflexão, muda metodologias, arruínam lembranças do passado, instituem teorias e ameaçam a sobrevivência da sociabilidade solidariedade. Os suspenses assustam, pois desequilíbrios ocupam corações e as guerras invadem as mínima aventuras cotidianas. Não é fácil sair de perplexidades, refletir que o lixo contamina incessantemente pesadelo mais cruel. Os desencontros firmam temores. A cultura ganha espaços angustiante e apagam nostalgias de paraísos. Por que as agonias permanecem tão ofensivas? A ruína é companheira da cultura? E nós somos inventores de nós mesmos?

As ambiguidades formam a história

Quem se abandonou aos cantos do progresso sentiu que a história se constrói e não está pronta no armário de algum quarto decrépito. Há surpresas para quem se nutre das linearidades e congela a memória. Lembrar e esquecer dialogam. As narrativas possuem a marca das aventuras de quem as escreve. Portanto, não se assuste se, no seu cotidiano, apareçam amarguras de tempos considerados mortos. Tudo se entrelaça. Não há um sentido que anuncia mudanças coletivas desenhadas pela solidariedade. Dependemos dos outros, mas não dispensamos inveja , nem arrogâncias.Existem lógicas que fazem os sistemas funcionarem e garantem especificidades nas relações de poder. Recorde-se que Freud dissertou sobre a compulsão à repetição e não desprezou as fantasias.

A história passa por estradas cheias de abismo, ilude quem aposta na lucidez impoluta da razão e sacode preconceitos adormecidos. Não há como afirmar a nudez absoluta do acontecimento. Mergulhamos em interpretações, somos inventores de hermenêuticas. O mundo que o iluminismo projetou se desfaz. Restam algumas profecias que, talvez, Voltaire apagasse. Há teorias ousadas que se enfraquecem com os assaltos da violência.Mata-se, arrumam-se genocídios e se engessam rebeldias. Há minorias privilegiadas amantes da reprodução de medos e massacra quem desconfia das suas manipulações.

A história não foge das ambiguidades. Os românticos enalteceram a beleza, arquitetaram encantamentos, mas a exploração do trabalho assalariado multiplicava a desigualdade e enchia as urbes de mendigos e de epidemias. Alguma coisa se transformou? As ciências consolidaram conquistas, no entanto, nunca buscaram se conectar com imparcialidades. Os conhecimentos abrem espaços, criam polêmicas, invadem os perigos das obscuridades. Isso é tudo? Por que existe a energia atômica? Por que a miséria não se foi? Por que os totalitarismos tecnológicos? Quem polui a natureza e oprime com seus planejamentos ditos racionalistas?

Os tropeços prosseguem significando que o futuro não é uma certeza de redenção.Quando terminará a história, não sei. Talvez ela se converta no reino da eternidade ou nela habite os mistérios do infinito. O importante é não apodrecer. Saber que há ruínas, que os circos não desistiram de suas acrobacias,mesmo que as lonas estejam todas furadas. Não faltam ordens armadas, preparos autoritários para assegurar disciplinas e riquezas concentradas. Narciso não se afogou. Apenas vestiu outras roupas e convive com encenações nada utópicas. A ambiguidade mora nas primeiras astúcias do pecado original. As religiões prometem massificar as salvações e exaltar redenções monetárias.

Jair: ressentimentos vadios?

Jair provoca polêmicas diárias. Suas falas remetem a preconceitos, tumultuam projetos de reformulação do meio ambiente, exalta as andanças da violência, fere sensibilidades e reforça seus parceiros na construção da ruína. Não surgiu do acaso. Encontrou uma sociedade com polarizações seculares, cheia de desigualdades e mágoas confusas. Tudo servia para atiçar ressentimentos e derrubar sonhos de quem desenhava solidariedades. Ele apareceu na turbulência, mirou o discurso da salvação, se aproveitou da onda moralista, dos escorregões dos chamados esquerdistas. Criou um clima de animação política marcado pela necessidade de vingança.

Contou com ajudas, senti a queda de antigos ídolos e apostou numa sincronia de desgovernos. Trazia frustrações, queria superar passados, armou-se com suas afirmações bombásticas, Consegui se tornar um mito, uma figura quase divina, com a benção de religiões desejosas de espaços de poder. Encontrou-se com a fúria de capitalistas indignados com as ações petistas. Lula tem admiradores, inquieta, promete, porém foi alijado da disputa principal. Não saiu de cena. Jair se cansa de acusá-lo dos desgovernos, sacudindo suas pérolas contra os mais pobres, desprezando os intelectuais, se cercando de ministros com ideias esquisitas. Diverte-se?

A repercussão das ações de Jair assustam, porém mantém uma plateia significativa. Não é difícil estimular o fanatismo quando a fragmentação caminha firmando perplexidades. Não se deve individualizar as idas e vindas da história. Jair segue articulando , comove, agride, não se afasta do barulho. Há protestos internacionais, reações na França, tentativas de denunciá-lo como curtidor do fascismo. Tudo isso gera debates, danças entre o bem e o mal. Quem está preso ao sagrado? Quem subestima o profana? Quem visualiza o suicídio da utopia? Será que o vazio abre espaço para multiplicação da tolice?

As dúvidas se movem, o tempo foge, as apostas atacam os discursos políticos. As permanências das agressividades assombram. Quem comunga com Jair, sabe que o fogo se espalha. É sempre fundamental que a sociedade conviva com disputas. Jair está no meio delas. Intimida, convoca seu simpatizantes que enaltecem a cor amarela. A divisão é grande, o sossego não existe, a luta está na rua, no desengano, nas orações dos que temem. Numa sociedade carente de autonomia, não é incomum que os paternalismo se propaguem e misturem memórias. Jair se aproveita dos espantos, faz recuos enganadores. Não se esqueça das aventuras dele no passado. Os ídolos arrogantes não bebem no acaso e não negam a força do pragmatismo.