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Julgar: o poder opressor da notícia veloz

 

Vivemos contando a nossa vida e falando da vida dos outros. Há inúmeros meios de comunicação. A tecnologia abriu espaço para velocidade. Todos querem novidades. Sentem-se motivados pelas fofocas gerais. Há uma certa perversão em escutar insucessos, em curtir escândalos, em vibrar com tragédias alheias. A generosidade nunca existiu de maneira plena. Somos animais que gostam de emboscadas e cultivamos invejas. O crescimento das redes sociais trouxe outras intrigas. É saudável encontrar amigos, rever passados. Mas não faltam ansiedades, grupos vingativos, solidões destorcidas, desejos de fluir com fantasias obscuras. A complexidade é comum.

A crise política aguçada é pródiga em desenganos. A notícia vale grana, as imagens se reproduzem, as discussões se alimentam de delações. Estamos no fundo do poço. A ética entrou em estado de coma e até os juízes não merecem crédito. Mente-se com um cinismo exemplar. Observe Temer. Parece que não possui limites.Junta-se com outros também entusiasmados com o poder. Seja atento. As fisionomias dizem muitos dos projetos de cada um. Portanto, não se convença com os discursos. Há atitudes confusas e escandalosas. O cenário está repleto. Os valores se misturam conturbando sociabilidades e arruinando alegrias. Há muito pó nas brancuras artificiais.

Tudo agita. As festas juninas estão estilizadas. É mais uma  mercadoria para se lavar dinheiro, com espetáculos suntuosos num sociedade esfomeada. O forró tem carimbo e nota fiscal. As polêmicas alimentam o facebook. Muitos escorregam, navegam nos excessos. Os artistas são vistos como figuras públicas. Sofrem com assédios. Não deixam de cativar a imprensa ou se incomodar com suas coberturas. Fabio Assunção passou por um drama nada agradável. Não conseguiu completar a euforia da estreia do seu filme. Envolveu-se num situação limite, caiu nos braços da instabilidade, visitou o inferno, afundou no pântano dos dissabores. A vitrine do desespero é feroz. Despreza a lucidez. Os predadores não ficam apanas nas selvas. Atacam no asfalto molhado.

A divulgação do que aconteceu com Fábio foi desastrosa. Aproveitaram-se de tudo. Ele ficou preso, foi punido, arrastou olhares negativos, Dividiu e globalizou.O tumulto alterou julgamentos, crucificaram Fábio. Não se teve clareza do que, efetivamente, houve em Arcoverde, porém as condenações se ampliaram de forma amarga. Ele se desculpou, mostrou-se perplexo. A fama se inverteu, os inimigos aparecem, o dia vira noite. Não é algo inédito. Todos possuem suas extravagâncias, a sociedade não é ingênua. As polêmicas acendem a ambiguidade que rege a cultura. O céu nem sempre é azul. A sociedade não vai se cansar de jogar seus venenos. Eles são destrutivos. A cultura não é inimiga da crueldade. Ela vive de sobressaltos, com silêncios desconfiáveis.

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Quem funda o mundo e a poesia?

Octavio Paz escreve com um fôlego admirável. É o tempo que ele tece ou ele é tecido pelo tempo? Fico deslumbrado. As palavras voam, adormecem, encantam. De onde elas surgem? Estão guardadas no coração do poeta? Sempre desconfiei que o mundo nunca será decifrado. Observo que os mistérios se confundem com as magias. O que dizer? Os saberes buscam verdades, assombram academias, aliviam dúvidas. Octávio Paz parece não se entendiar com as perguntas. Borda com paciência. Suas palavras não se perdem. Elas se encontram nas curvas, reconhecem que a arte é a saída para minorar a incompletude. Transcendem.

Nunca nego que os poetas são fundadores. Não dá para ficar celebrando deuses ou mergulhando religiões interessadas pelo pecado. Pedir perdão cansa. Muitas cerimônias vazias com pessoas que militam numa convivência social formal. Prefiro o desafio dos poetas. Eles possuem audácias. Não querem arrogâncias. Sabem que as magias não invenções tolas. Nomear, multiplicar as identidades, armar seduções. Se a vida fica no tédio das tecnologias, o abismo se enche melancolias. Portanto, provoque o diálogo das permanências com as mudanças. Não se agonie com a compexidade

O contemporâneo cultiva o descartável. Não gosta de profundidades. Octavio Paz nos remete para nostalgias. Não entra na apologia dos progressos. A história existe e o poeta não está fora dela. Ela caminha pela sensibilidade, não se restringe a fazer cálculos e eleger razões congelada. Livra-se das incertezas é uma fantasia que agrada. Mas como fugir das perguntas, dos escorregões? Quando entrelaçamos o ritmo das palavras a dança da vida se torna mais leve. As hierarquias incomodam, porém é preciso que haja comunicação. Não se impressione com a velocidade.

Falar com o outro, escutar o outro. Dizer o tempos, para não haja sustos repentino. Se os retornos existem, é fundamental compreendê-los. Não tropece nas explicações cartesianas. Procure contemplar. Não faça de tudo um espelho. Octavio não esconde que a história não se veste de uma definição fixa. A palavra que mora em apenas um significado não dimensiona a força do arco e da lira. Desprezar os poetas é jogar pó na imaginação. Aqueles que acreditam no poder da razão instrumenta estão enlouquecido com as máquinas. Lembram calendários de propagandas. Estão aprisionados pelas distâncias que nunca serão percorridas.

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Descole-se: os anjos usam motos velozes

Confiar nas utopias se tornou uma crença, pois os lutadores estão caindo na lona. Proclamaram-se revoluções, refizeram-se liberdades, esconderam-se violências. A chave da porta principal está perdida. A sociedade aumenta sua população sem encontrar regências harmoniosas para sua administração. Sacudiram os sentimentos no ar, em nome de razões ditas esclarecedoras. Os sistemas se implantaram buscando o escudo das palavras indiscutíveis. Mas se vive no balanço do trapézio no circo obscuro da hipocrisia. Temos destinos ou possibilidades de desmanchar os estragos? A rebeldia não se foi, mas se fragiliza.

Observe como as lideranças cínicas mudam suas armaduras. É importante não cair na ordem e no progresso. O século XIX produziu críticas aos valores decadentes. Não esqueça, porém, que o capitalismo se fortalecia e o utilitarismo ampliava seus espaço. A contradição não é uma exceção, nem mora em tempos remotos e tardios. Prometeu desafiou os deuses, os operários são explorados, os políticos renegam a ética, a imprensa abusa do sensacionalismo. As serpentes habitam o mundo com esperteza.

Ver a história com uma escada que leva ao céu é uma mistificação vendida e consagrada pelos que desprezam o humano. As quedas acontecem, os sonhos não se largam, os gritos registram agonias. Mesmo que os impasses empurrem para o abismo, há planícies que não foram conquistadas. Há Doria, Moro, FHC, Suplicy, Cunha e tantos outros. A multiplicidade é um sinal de insegurança. Nem todos estão no barco do conformismo,  nem inventam reformas opressoras. No entanto, o discurso de felicidade é traiçoeiro e convence.

A incompletude mostra que a cultura agiliza soluções para superá-la com velocidade. Não há homogeneidade que  garanta  projetos de mudanças efetivas na sociabilidade. Tudo está com uma imagem de ruínas. Ande pelas ruas, veja os programas de TV, escute as falas dos governadores, analise a presença da polícia no combate às drogas. Você tem escolhas, a liberdade brinca, mas com cercos permanentes. A incompletude sinaliza que o absoluto é uma lenda sinistra. Aprisiona a imaginação e protege militâncias atormentadas.

A história não pode se desfazer dos limites. Eles trazem as regras. Elas dependem da nossa s ações. Hannah não deixa de ressaltar a condição humana, de saltar impasses.Os conflitos agudizam perdas. Visite o passado: os romanos dominaram o mundo, o Vietnam derrotou os Estados Unidos, as religiões promoveram guerras, o terrorismo mata inocentes. Quem se encontra com a verdade? Pensar uma história com uma paz firmada, sem hesitações, seria sair da órbita. A luta cotidiana ajuda a diminuir as dores. O sempre e o nunca são palavras perigosas num mundo de suspeitas e de profecias. Descole-se, peça carona nas motos dos anjos.

 

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Freud: memórias,lembranças,esquecimentos

Lembro-me de tanta coisa que seria impossível nomeá-las. Tenho recordações preciosas que alimentam minha vontade de viver. Há época em que o riso é solto, tudo corre para o mar, sem constrangimentos. Mas não esqueçamos dos infortúnios. Nos momentos mais eufóricos aparecem, às vezes, descontroles. Não dá construir a vida sem contradições. O erro não sossega. Pensamos que temos forças consagradoras, porem escorregamos na primeira esquina. As tristezas não se esconderam e as distopias arrastam sonhos. Os ruídos da melancolia fazem com que as farmácias estejam cheias de trajas pretas e psicanálise continue buscando saídas.

Freud foi um observador minucioso. Percebeu o poder do reino das fantasias e os desajustes que nos assaltam. As tragédias gregas já nos alertavam para as incompletudes. A cultura ganha complexidade. Muita tecnologia, saberes, academias, conquistas. O mundo se enche de multidões, ousadias, refugiados, combates, devaneios. O equilíbrio é instável e quase não existe. Somos animais sociais, não estamos livre das aventuras que comprometem a saúde, com violência ferozes. Os espelhos quebrados mostram o desespero que, inesperadamente. assalta o cotidiano. Não simulemos um mundo de harmonias, nem permanências fixas. A gangorra está sempre montada.

As memórias nos acompanham. Sacodem poeiras. Quantos atos falhos cometemos? E o desejo montando arrependimentos? Lembrar e esquecer. Sem o passado e a reconstrução constante do passado, o que seríamos? Nem Freud gostaria de aprofundar essa questão? A história é sempre um releitura. A memória é inquieta, não adianta congelá-la, nem sufocá-la com teorias. O conhecimento traz também angústia e nunca esgota as idas e vindas do mundo. Sei que as distopias se espalham e a sociedade chora a mesquinhez de governantes. Não me esqueço da década de 1960, nem dos absurdos de Stalin, Hitler e cia. Nada é linear. As curvas possuem desenhos estranhos.

O diálogo com a memória é obrigatório. O presente nos impõe regras. Elas surgem repentinamente? Quantas coisas foram ditas por Rousseu, Locke, Équilo, Platão, pelos poetas das feiras que estão guardadas na subjetividades? A história se balança entre a arte e a ciência. A verdade atrai, a beleza seduz. Temos muitas escolhas, pois a vida possui formas, cores, dissonâncias, histerias. As palavras se encontram na invenção de cada dia. Compõem acasos, esclarecimentos, paradoxos. Não jogue sua gramática fora, nem fique colado nas novidades. Não se desfaça dos desafios do lembrar e do esquecer. Não somos soberanos indiscutíveis. As memórias casam-se com as histórias.

Os intelectuais desfilam pelos caminhos acadêmicos. Não são senhores das metodologias absolutas. Sofrem também tropeços, santificam-se, arquitetam alianças. Freud visitou ordens familiares, desfez tradições, reconheceu seus limites. Há muito de religião na ciência, de modas descartáveis. Ser crítico é importante, para evitar o fanatismo. O perigo é sempre se envolver com as verdades e considerá-las inatacáveis. Quem as ensina, quem as escreve, que as divulga possuem seus desenganos. As arrogâncias testemunham inseguranças. Os deuses humanos estão no mundo. Transformá-los na porta de saída do labirinto é mistificá-los. Consulte sua memória. Freud tinha vaidades que o confundia. E nós? Somos companheiros de mistérios soltos e traiçoeiros.

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Anjo azul: existências

Há uma anjo azul no telhado da esquina.

Sente-se abandonado, busca afeto de um paraíso esquecido.

Há pessoas perdidas na avenida central,

correm desesperadas com medo dos mendigos.

Há criança esfomeado na rua sem saídas,

desencontrada com a vida, pede brinquedos.

Há amores vazio, celebrados inutilmente,

com festas brilhantes no motel decadente.

Há mentira montada no pátio da casa principal

e juízes obscuros lamentando os privilégios.

Há um mundo envolvido em azares permanentes,

desfeitos pelas emboscadas dos cinismos cinzentos.

Há uma história contada na porta do inferno.

cheia de fantasmas fugido do cais iluminado.

Há um fim sem nome e uma profecia despertencida,

jogados num lixo que sobrou do luxo da minorias.

 

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A política: lugar de desgoverno sem fim?

A confusão se amplia. Muito choro, muitas velas. Não há como ser ausente às tantas idas e vindas da história. Existe quem exija objetividade e segue mandamentos cartesianos. A justiça se torna a letra exata, ditada pelas inteligências supremas. Desconfio. O que menos sobrevive é a certeza. A sociedade está dividida e repleta de análises paradoxais. Há ingênuos que ficam paralisados. Não olham o passado , não percebem com tudo vem sendo articulado. Mudam de opinião para garantir amizades ou de olho no voto.Ficaremos na corda bamba, trancados no quarto sem janelas? Ninguém responde, pois os privilégios continuam presos na ganância de uma minoria. E Aécio tem armaduras?

Temer está complicado, cercado de acusações, mas cultiva o cinismo. Possui companheiros que gostam do poder. Vive uma esquizofrenia desafiante. Talvez, seja o excesso de Viagra. Não dá para compreender a fogueira de vaidades. Os caminhos são tensos. Estão forrados com granas e ambições. Sinto uma atmosfera doentia. As indignações não se foram e os ruídos persistem. Adivinhar o futuro é coisa de feiticeiro bem sucedido. As análises mostram que o sistema competitivo queima afetos e legitimidades. Numa sociedade em que as vitrines são fundamentais, as desconfianças permanecem e suspeitas não são chutes. O que diriam Adão e Eva?

Há abatimento, frustrações, jogos. A política lembra crenças religiosas, falsificadas por interesses vazios. Muitos cultivam a fé fragmentada e elogiam perdões, fazem da vida uma corte aos mais poderosos, assumindo disfarces. Querem naturalizar o capitalismo. Não discutem sua lógica. Muitos dependem do movimento do mercado. Fabricam ingenuidades impossíveis.Não se engane. Há quem formule um discurso para cada momento. Sacodem a poeira, tocam fogo, depois se tornam pacientes e desaparecem. Por isso, o tempo linear e progressivo merece ser banido. A ética não é só sonho, sofre pesadelos, adoece.

O conhecimento intelectual serve também para ajustar argumentos. Provoca admirações e seguidores. As redes sociais não dispensam polêmicas. Existe quem não passe sem elas. O quebra-cabeça compõe-se de formas esquisitas. As palavras sempre acompanham os que se adornam com saberes. Ganham eleições internas, viram ídolos, se agrupam, visitam-se. A tecnologia trouxe novas medidas, uma mídia sofisticada e um deslumbramento com as mágicas velozes. As propagandas fazem as armadilhas. Estamos numa sociedade de consumo e muitos compram suas identidades. Não se tocam com a vergonha.

Quanto ganha Karnal por  cada palestra? É o novo sacerdote dos desamparados? Os naufrágios acontecem e as desistências ferem os ânimos. Nunca a imaginação está morta. Ela balança com as apatias e as noites mal dormidas. De onde vem a história, não sei. Qual o cenário dos deuses? É difícil decifrar.Não acredito numa sociedade de harmonias. O conflito não é novidade. As permanências lembram passados, testemunham ruínas. A intolerância faz estragos. Os risos reforçam o cinismo, se banham nas águas da contradição. Mas o coração bate, reconhece as dores. distingue os exilados, os covardes, os efêmeros. O mundo não tem uma só cor. Acorda com o barulhos das balas e dos boatos. Não é sem razão que se curva e se atormenta.

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Octavio Paz: a palavra é nua

 

Num país em que o presidente sofre pressões inusitadas, os políticos são denunciados, o cinismo ganha corpo no cotidiano, a negligência assume lugar de destaque ficamos tontos com os sensacionalismos contínuos. As dificuldades financeiras da imprensa tornam os escândalos o cerne do noticiário. Fermenta-se um jogo infernal de poderes malditos. As controvérsias se multiplicam e os traficantes de drogas impõem normas violentas. Há um esvaziamento crescente e fatal dos partidos políticos. A lógica da suspeita merece atenção, não podemos fertilizar inocências e burocracias. O que se salva?

Há uma queda dos valores ou uma confusão generalizada. Onde fica a verdade? Ela sumiu ou naufragou em inúmeras versões. Cada um guarda ressentimentos, agiliza armadilhas, a desconfiança constrói um mapa ardiloso. As palavras mascaram emboscadas. Octavio Paz afirma que a crise se manifesta, com profundidade, no mal uso das palavras. Precisamos repensar o mundo, inclusive como existe a possibilidade de renomeá-lo. A dimensão estética perdeu-se na mediocridade das propagandas consumistas.

A literatura traz um outro olhar. O mundo está invadido pelas imagens. Não se iluda. A  fragilização da poesia e da capacidade de inventar deprime. Se a repetição assume a monotonia de costurar a vida, a melancolia dissolve a convivência social. As sentenças dos juízes se vestem de contradições. As espertezas envolvem cada ato, como  se  buscassem o menor esforço, a teoria do engano. Octavio faz outra busca,desenha as palavras nunca desprezando o encantamento.  Contrapõe, nos tira do descartável. As palavras têm ritmos. Fundam prazeres,  redefinem sentimentos, tocam os tangos  de Piazzola.

N’ O arco e a lira, de Octavio, existe a construção de caminhos de leveza, sem mistificar salvações. Ele mostra que a palavra é instituinte e incomoda quem a acolhe como uma mercadoria. A história não foge do seu lugar, nem do seu tempo. Ninguém escreve solto, sem compromisso. Conversar com o mundo é mover os significados , não firmar apatias. Quem se mira  no espelho dos últimos labirintos sacraliza imagens,  propaga o pecado original e a culpa. Não esqueça que a rebeldia garante a instituição da vida. Ela morre com palavras inúteis.

A sociedade do herói fabricado anuncia espetáculos. Tudo tem sabor de acaso que o planejamento termina destruindo. Se não há surpresas, se a máquina reina, a queda é frequente e as energias entrelaçam desespero. A literatura borda traços inusitados.  Ela contraria, desmonta o definido. Viver a consagração de verdades que cegam e emudecem empurra a história para dança dos demônios. Talvez, nem possuam a força do desengano, mas assustam e compõem um medo sem fim. O império da fantasia não se foi.

Todo escritor formula sua arquitetura. Auster é lúdico , misterioso, Calvino transcende o lugar de  curvas e retas transitórias, Octavio tem veias vermelhas brilhantes, com eternidades míticas animadas. Não confunda as escritas, nem as isole. Não pense que a verdade é quieta e a ciência segura as vacilações. Há quem escreva sem perder o fôlego. Pamuk gosta de minúcias e tensões, Kundera é um mestre que enfeitiça o leitor. Escrever é respirar, pertencer ao mundo, sem desistir ou se abalar com as invejas persistentes. Mas não delire: o homem não é o rei dos animais. Ele desconhece o maior segredo.

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Tempo de levitação

Guardo os mistérios dos amores perdidos,

como os anjos cuidam dos segredos dos deuses.

Há tempos escondidos na vida corrida,

há nostalgias desprezadas pelas amarguras.

Conto a história envolvida com o paraíso,

como um delírio que descobriu um encanto.

Há mitos apaixonados pela beleza de Vênus

há não-lugares quietos no inferno das ilusões.

Não revele o espelho da imagem do eterno vadio,

deixa a palavra vestir-se com a magia do adeus,

iluminando o cais esquecido das navegações de Ulisses.

 

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As leituras da história: tolerâncias e dogmas

O mundo do conhecimento pode não ter muros. As portas se abrem, Há diversidades juntas com concorrências. Não vamos desenhar ingenuidades. A ciência continua produzindo poderes, alguns arrogantes e cheios de dogmas. Parece estranho, mas as controvérsias não deveriam causar intrigas. Seria interessante que elas abrissem diálogos. Não somos torres inabaláveis, nem a solidariedade é companhia permanente. Queremos decifrar desencontros, renovar a cultura, desfazer paradigmas. Tudo isso custa inquietudes.Há quem se vista com a arrogância. A ciência se torna a doutrina, para evitar que as inseguranças sejam reveladas.

Não há como analisar a interpretação com conceitos definitivos. Os tempos se balançam, Comte trouxe suas contribuições, Nietzsche incomodou seus contemporâneos, Benjamin não abandonou a sensibilidade. É importante assinalar os entrelaçamentos, as fragilidades, os conflitos. No entanto, cristalizar verdades para interpretar a história cria suspeitas. Não há autores que dê conta das mil aventuras humanas. Há retornos, diálogos, ainda hoje assistimos às tragédias gregas. Não escutar os outros, desaconselhar quando é preciso cuidar dos escorregões, fermenta disputas vaidosas e traiçoeiras. Quebram-se possibilidades coletivas e atraentes. Traça-se a arquitetura do pesadelo.

A homogeneidade não adormece, ela traz mesmices. A violência desestabiliza. Anular o outro é prática fascista que o mundo do conhecimento poderia desmantelar. Restam muitas perguntas e as respostas possuem suas vacilações. Como jogar fora as estratégias de competição do capitalismo? Como derrotá-las e mudar o ânimo para ampliar as convivências mais cotidianas? Dizem que nada é para sempre. Quem apaga as ruínas, quem define a memória, quem mantém os afetos? Se o reino das vendas e trocas não se vai, a contaminação é geral. O conhecimento termina fixando seu preço e as histórias seus valores. Explodem as pontes e os abraços mostram o peso dos negócios.Os corpos envelhecem escrevendo marcas que denunciam suas amarguras, desinventam a mudez das formas..

A sociedade não se firma sem linguagens. Elas atormentam, aliviam, aprisionam ambições. Somos metáforas, sintetizamos hábitos. Estamos nas travessias de despedidas e encontros. Como disse Guimarães Rosa o sertão está em toda. Portanto, a aridez dos lugares indica que alguém quer respirar e calar o medo de pedir ajuda. Os sentimentos recebem nomes, variam, transitam pelas histórias. Se o outro representa um incômodo, interrogações se consolidam: Como anular a dissonância? Como abrir as portas da indiferença? A guerra não se faz apenas com armas mecânicas. Ela denuncia afetos mal resolvidos, próximos, silenciosos. As garantias somem destruídas pela falsa profecia do eterno.

 

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Doria: a cracolândia, a política, a controvérsia

 

As notícias ganham espaços movidas pelas curiosidades. Nem todos se ligam ao seu conteúdo. Apostam no sensacionalismo. Surgem os preconceitos, as violências, as amarguras. Observe a questão da cracolândia. Um inferno, na capital mais rica do Brasil, que assusta e comove. Ela não é só movimentada pela pobreza ou astúcia dos traficantes. Mostra que a sociedade se despedaça. A droga, citada, estraçalha. Traz a dependência quase fatal, A ameaça se generaliza, pois há apatias que apagam ânimos. Existem suicídios em plena luz do dia, denunciando a miséria humana e os valores esfarrapados. A questão não se resume a proibi-la de forma abrupta. A profundidade da questão nos fere, pois as reflexões são contraditórias, giram em torno de lutas políticas e a tensão estica a corda da dúvida. Não é fácil argumentar onde a dor aporta e confunde.

Se o desequilíbrio social traz problemas, os abandonos afetivos também arrasam futuros. A droga aparece, muitas vezes, como um consolo que tumultua e alimenta escapes. Solta ilusões que se fragmentam e adoecem. O pior é visualizar soluções. Isso é explorado pelo sistema que fermenta o lucro. Por detrás do comércio de drogas existem interesses que sacodem instituições. O problema não é apenas nosso. O mundo vive de trocas sujas que enriquecem minorias. As distopias avançam, porque o pessimismo se agiganta diante dos vazios. Como escolher? O prazer sobrevive? E solidariedade está presa e incomunicável? Não há histórias que são indeterminadas?

O fracasso das políticas e as corrupções se espalham. A desconfiança é um perigo. Joga-se com a descrença ou se mantém a população envolvida com suspenses. Encontrar o caminho num mundo cheio de mercadoria é difícil. A pressa de viver não esconde as agonias. O tempo imprime ansiedades. Todos querem um conforto para amenizar seus desencontros. Armam-se escândalos, pois eles atraem. A cracolândia é um dos retratos dos descontroles. Possui um simbolismo cruel e apavorante. Quem quer se ver envolvido por tantos infortúnios? Mas não é com violência que se rebate a situação. Observe a história e as tramas dos divertimentos e aventuras humanas, as rebeldias, a necessidade de burlar as instituições. Mas não esqueça as variedades múltiplas. Nem toda droga atinge como o crack.

As ações de Doria mostram desacertos. Quem pensa na coletividade? O perigoso é que ele é apontado como modelo. Muitos se fascinam. Querem higienes opressoras. Estamos numa sociedade marcada pela propriedade privada. Dória não assumiu o poder para vender bilhetes de loteria. Possui planos, não é dominado pela generosidade anônima. No entanto, surgem admiradores, eles difundem a luta do bem contra o mal, tão comum em missões religiosas. A política está tonta, faz tempo. Submersa nas espertezas do capitalismo gosta de vender. Os mercados abrem suas portas. Cada território tem seu valor e assombra quem acha que a ingenuidade abraça os ditos salvadores. Os mecanismos da mídia merecem atenção, pois invertem saídas muitas vezes com intenções nada saudáveis. Travam.

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