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A sociedade se inventa?

A sociedade produz uma exaltação ao desempenho. Joga-se no trabalho, não há horas para os afetos, se atrela aos negócios e assusta com o fantasma do desemprego. O giro se dá num incansável cotidiano, O fetiche do trabalho é forte, o tinir das moedas traz alucinações. O capitalismo incentiva a corrida. Quem se distrai com o ócio é marginalizado. Esquecer que a circulação de mercadorias inquieta e descontrola, que o corpo não deve parar é suicídio para quem vive as horas de salário ou os acúmulos na bolsa. A invenção dos dominantes é buscar brechas para explorar, justificar as desigualdades, empurrar os privilégios para minoria. A sociedade não abandona as tensões, porque as disputas movimentam e desenham as acrobacias da sobrevivência. Há um alerta neurótico, um desfazer da contemplação.

As utopias e as revoluções estão guardadas em algum lugar. Talvez, morem nos corações dos mais corajosos ou ampliem a imaginação de quem não sossega com tanta agressividade. Os animais sociais se toleram, mas não deixam que as perversidades se apaguem. Faz tempo que não surgem projetos consistentes de solidariedade. As guerras continuam, há economias no fundo poço e governantes que tripudiam de suas posições de poder. Não há como escrever novas gramáticas? O que vale é a máscara da permanência?

Os acenos teóricos decretam o fim da modernidade, a morte da história iluminista. O fetiche da mercadoria venceu e derruba sonhos seculares. As mobilizações consumistas coisificam desejos e homenageiam celulares. Tudo parece celebrar o mesquinho.O conhecimento crítico e ousado adoece e as informações tomam conta das redes sociais. O dogma se transfere para imagens e indignações anônimas. O controle é sutil, mina os outros e multiplica os olhares inimigos. O trapézio age sozinho como se o circo fechasse as ilusões e mudasse para outro planeta. Delírios extravagantes.

Os deuses vestiram outros mantos, possuem profetas perdidos entre o sagrado e o profano. Vende-se a salvação com argumentos banais e se aproveitando da expansão da carência. Se tudo é suspeito quem monopoliza o culto da verdade espalha suas ambições,se proclama o arcanjo das tecnologias de um mundo matematizado de forma vulgar. Há quem se engane ou mesmo não se preocupe com o alcance das frustrações. Não é estranho dormir acuado por pesadelos?As fronteiras se fragmentaram, porque a sociedade não desconfia que as inseguranças se consolidam e as distrações aprisionam a reflexão. Muitos se entregam ao destino.Apagam a memória e codificam a história.

Bacurau: somos histórias

A história é uma tatuagem. Talvez, sim. Mas é perigoso se fixar no singular. A multiplicidade dos traços indica que na tatuagem existem tatuagens que não são vistas. É um sentimento? É uma adivinhação? Ser um só é pouco para complexidade que nos cerca. Somos histórias, somos tatuagens, somos pretensões, somos imensamente inacabados. Tudo isso é um desafio que ultrapassa a mesquinhez narcísica da imaginação solitária diante do imaginário coletivo anônimo. Assim, a sociedade cria suas invenções e espalha seus desejos culturais. Mas a busca não se encerra. Bacurau penetra no passado, lembra as permanências, traz a tecnologia ousada, a morte mais sangrenta. Pede decifrações, nunca definitivas, nem enjauladas num texto ou numa profecia dogmatizada.

As esfinges são fugidias. Surgem as interpretações muitas vezes conflitantes. Será que a violência é moradia do social? Será que o visível não apenas é um disfarce? Se tudo possui significados o que fazer para conhecer o mundo e transformá-lo? O filme traduz concepções que não dispensam as repetições de desenganos e desigualdades. Parece que não há alternativas. Os territórios abrigam invasores ferozes, inimigos de diálogos, portadores da morte, amigo da sede dos outros, do inferno de algum ou de todos os tempos que vivemos.

O pecado se encontra na esquina. Não é estrangeiro, porém fala línguas de ódio. Quer consolidar culpas. se ausentar da tolerância, ensinar a eliminar o outro sem nenhuma cerimônia. A necrofilia se faz presente, confunde as teses dualistas. A pulsão de morte se apronta, se mostra nas cores, nos gestos, nas armas, nos buracos da secura. Alguém dúvida da realidades dos cenários, alguém levou o medo para longe ou é preciso ter medo para que haja mudança? O filme diz que o lugar comum é uma tolice que frequenta cada vida e exige o deslocamento dos tempos, sem ordens fabricadas, com sustos e impactos. A fantasia está na geometria do corpo.

Bacurau lança sínteses históricas, visita perdões não resolvidos, entra na porta da nossa casa. As histórias não são sossegos encomendados. Inexistimos sem narrativas. O difícil é encontrar o começo ou se desviar das armadilhas. A arte se apresenta, então, como uma transcendência que celebra a beleza e a simultaneidade. Deus morreu, não questiono Nietzsche. No entanto, a produção das almas e das incertezas sempre desfaz a possibilidade do ponto final. Interiorizo. A narrativa está na tela com as inseguranças que me tornam passageiro da mundo. Sou cigano e refugiado, por mais que me resuma na intimidade das palavras. Elas também são imagens atordoadas. A travessia da aridez faz o riso tímido do vagabundo de Chaplin me desenhar a forma e o tamanho do meu circo.

Jair: os estragos da crueldade

Todo cargo possui seus rituais. Não há sociedade sem regras. Alguns obedecem, outros se tornam rebeldes. O mundo não tem sossego. Não adianta querer enquadrá-lo e esperar a invenção do paraíso. Não é à toa que aparecem os escândalos, as violências, os desmanches. Jair é uma figura merecedora de atenção. Talvez, seja portador de uma neurose crônica. Faz parte do batalhão das ofensas. Usa as palavras como facas afiadas. Fere, deixa pessoas chocadas, desconhece o limite. Há quem ria das suas agressividades. Ataca os jornalistas e solta ferocidades incríveis, se coloca como um brasileiro impoluto.

Exalta a tortura com entusiasmo. Parece o senhor das ditaduras e o administrador das psicopatias mais exóticas. Estende suas afirmativas pelas redes sociais, desfaz pactos, ilude os que o consideram messias. Compõe a regência de uma plateia de víboras rastejantes, de pastores ditos poderosos e de políticos venenosos. Ninguém sabe a dimensão das suas agonias. Suas profecias perversas ampliam espaço na imprensa e seduzem os carentes de senhores agressivos. Jair sempre atua, forma um repertório, mobiliza protestos, festeja sua própria incompetência. Confunde.

Ficam dúvidas. Será que há uma estratégia política para agradar certos grupos ou Jair é mesmo surtado ou não consegue sofisticar sua fala?Desconhece a delicadeza. Ataca damas, elogia Pinochet, desqualifica o meio ambiente. Mas é parceiro de negócios tenebrosos, protege milicianos e admira Trump. Ganha manchetes. Mantém-se em evidência. Alguns o chamam de fascista, se sentem indignados. Jair nos pune com sua obscuridade, diminuiu sua aceitação, resiste aos argumentos mais lúcidos e promete se reeleger. Portanto , não faltam ambições e companhias para seus planos. Bajular é a ordem de quem quer vitrine sem limites.

Diante de tantas perplexidades, muitos não compreendem o que se passa. É dureza. O capitalismo se reorganiza. Jair representa interesses. O estrago de suas palavras alveja inocentes e garante lugares para os cultuadores da grana. Os dissabores inquietam quem clama por ética e observa as instituições se arruinado. A tempestade anuncia ruínas, porém Jair se encontra com desculpas familiares e se situa numa trincheira bélica frequente. Não está só. Pode trazer perturbações profundas e quebrar vidros escuros.É preciso entrar nessa possível loucura e decifrar suas armadilhas. O fôlego de Jair se mostra imenso. Dispara como se jogasse num parque de diversões. Seu narcismo é singular e delirante.

Geneton: azul é a vida

Há cores e ritmos infinitos. O mundo não tem ponto final, nem deuses lúcidos. Tudo corre e se solta. Camus tinha razão. As rebeldias ajudam a sonhar e se encontrar com o acaso. Somos Sísifo. Não custa abrir os olhos, encontrar as pedras e sacudir as ruínas. Nada está acabado, a incompletude nos cerca e dialoga com a inquietação. Li o livro de Ana e Paulo sobre Geneton. Fiquei emocionado e festejei a beleza.O escrita está fascinante, consegue andar por labirintos sem deixar de contemplar os espelhos.As habilidades e as invenções se esticam e despertam sonos que pareciam receber pesadelos medonhos.

A vida de Geneton nos desperta coragem e ousadia. Porém não faltam generosidades, incertezas, aventuras. A criatividade anima a coragem e redesenha mitos. É sempre fundamental retomar a poética das coisas e se lançar sem planejamentos determinados,enfrentar o cotidiano de olhos no vivido e nas suas assombrações. Paulo e Ana trouxeram depoimentos, balançaram corações, fixaram imagens, multiplicaram-se, visitaram tonturas. Viajei. Sou mais velho que Geneton quatro anos. Identifiquei-me com muitas histórias. Estudei no São Luís e no Colégio Torres e terminei sendo professor nessa duas escolas. Lembranças fortes, aprendizagens demolidoras, pedagogias libertárias..

O livro nos toca. O Brasil se mostra na obra de Geneton. Muitas fantasias, desesperos, desfazeres, mas um futuro que não tem arquitetura definida. A história é a construção da possibilidade. Tudo está numa atmosfera ce geometrias inesperadas. Na sua forma leve e sedutora, a escrita de Paulo e Ana nos leva para mares com calmarias e turbulências. O cais está em toda parte. Geneton sabia disso e não hesitava em buscar navegações que tumultuavam sossegos. A vida é azul, atiça dúvidas e requer cuidado. Muito sossego pode, no entanto, estragar a arte e eleger a monotonia.

Ler o livro é uma dádiva. Os mistérios existem e as pessoas possuem suas narrativas. Elas compõem memórias. Sem diferenças, a morte findaria qualquer risco de transformar as gramáticas das existências. A sociedade necessita se largar, jogar fora seus cansaços, escutar os outros, cultivar mais as reflexões de Nietzsche e queimar-se no sol da sensibilidade. Inverter as cronologias, descosturar as estatísticas e expulsar as mediocridades da tecnologias consumistas descortinam horizontes. Geneton, Ana e Paulo são parceiros. Transgrediram e fugiram do lugar comum. Saudações a quem acredita que a beleza salvará o mundo. Ainda há espaços para dançar sinfonias sem o peso do pecado original.

Quem escuta, quem disfarça

O poder se estende pelas relações sociais. Nem sempre usa coerção, mas gosta de convencer e arrumar argumentos sedutores. Existem os contrapontos, um conflito de afirmativas que desenham a política e o conhecimento. O importante é saber quem se interessa em disfarçar. Se o governo desmonta a educação, esconde seus planos de consolidar a mesmice e acabar com as possibilidades de crítica. Isso alimenta as jogadas de Jair e seu time. Não pense que há ruído constante. Muitos se divertem e acreditam que o messias conta com sagrações divinas.

Parece espantoso, Surgem desenganos, depressões, desistências. No entanto, o movimento da sociedade acolhe contradições. Há quem goste de servilismo, quem se negue a conviver com dúvidas e abasteça dogmas. Observe que o massacre dos desmanches é cotidiano. Não traz o homogêneo, irrita, cria contestações. Não deixe de registrar, porém, que certas plateias conseguem apoiar a sua própria destruição. Jair solta absurdos que atraem boa parte da população. Portanto, a polarização se amplia e garante lugar do capitão- presidente na tropa, apesar da lucidez e da indignação que sobrevivem e buscam problematizar o discurso da intolerância.

Tantas sofisticações tecnológicas, promessas de exterminar com as epidemias, planejamentos ditos científicos e a sociedade continua repleta de desigualdades. O que mais assusta é a propagação do desânimo. Analise a convivência cotidiana, a degradação do sonho, a queda dos valores mais solidários. A história nunca foi um paraíso. Houve desastres e descontroles. O tocante é que as lições não são aprendidas e a perplexidade mina utopias e favorece às minorias privilegiadas. O desencanto se globaliza, com estratégias multinacionais articuladas. Um terrorismo psicológico que adoece e inibe.

Não se acanhe. Decifre, mesmo que os erros apareçam. Quem se diz dono da verdade possui fortes ligações com o poder dominante. Há quem condene as violência e quem se choque com os desmantelos arquitetados pelo governo. O desprezo pelo coletivo é um caminho aberto para fazer crescer as ruínas e firmar o fogo que destrói. Não há destinos divinos programados. As manipulações existem para afundar quem luta contra a exploração. Há quem ganhe, quem acumule, quem invista na solidão milionária. A felicidade não tem lugar numa sociedade que estimula a disputa e coisifica os afetos. Amedronta com os abismos inesperados.

Não se desfaça das narrativas

O tempo histórico traz reflexões. Engana-se quem pensa um passado morto ou não observa os diálogos entre as diferenças. Narrar é sempre uma ousadia, uma descoberta, um ruído. Surpreender-se com as sombras do vivido não é uma agonia, mas um impulso para abrir brechas.Sentir a reinvenção, movimenta a história e levanta identidades que pareciam adormecidas. Não há como fixar uma narrativa definitiva. Há várias e inesperadas linguagens. Elas dão ritmo a quem se nega a repetir que as portas estão fechadas e omitir-se diante dos chamamentos da ação. Por que não se lembrar de Hannah Arendt? Por que não se vestir de palavras que buscam o mundo e reafirmam suas fantasias?

Quando há deslocamentos no contar a história, ela se estica. Mesmo que os espelhos se quebrem, sacudir as diferenças e mudanças históricas evita que os dogmas sejam soberanos. Na sociedade que celebra o disfarce, a narrativa perde seu ânimo e ressalta apenas o acontecimento como um congelamento de pecados sempre presos a sentimentos de culpas terroristas. O importante é que as narrativas se cruzem, se entrelacem, não descansem, inquietem os sentimentos, mesmo que a respiração incomode a necessidade do silêncio. Se não se escuta, a música denuncia o cansaço e desenha o destino.

Penetre na saga de Cem Anos de Solidão. São múltiplas magias que ensinam as ambiguidades e descortinam as insistências para que a vida não estranhe o acaso. A narrativa enfrenta a morte ou anuncia a sua aproximação. Quem conhece os primeiros suspiros ou suspeita dos seus absurdos? Se mito não se foi, alguma coisa indica que estamos sempre buscando significados, carregando pedras como Sísifo ou enlouquecendo diante das armadilhas. Há fugas. Édipo conseguiu encontrá-las? Não acreditou que há condenações e subjetividades transtornadas pelo trágico que assusta e desmonta.

Mas a narrativa é um sinal de reconhecimento ou mesmo de que as aventuras foram vividas e estão guardadas na memória. Portanto, as revelações podem configurar encantamentos tardios que misturam risos com lágrimas. Não ponha o ponto final no que escuta, nem trave o som da sua última lamentação. As narrativas não devem ser breves. Não se limitam, nem traçam fronteiras. Elas convivem com as agonias dos outros, viajam nos seus trapézios, relembram nossas finitudes, deixam as angústias de Narciso soltas num labirinto anônimo. O que você narra é o seu espelho, a imagem solene de que a cultura funda-se no que foi dito ou mal dito.

A depressão no cotidiano

Há muitas impressões que circulam como se fossem verdades irrefutáveis; O Brasil foi muito exaltado pela sua alegria, suas festas, sua cordialidade. Tornou-se comum até se negar a violência e acusar outras culturas. O Brasil parecia uma exceção num mundo carregado de conflitos. Mas a exploração continua, o descontrole social se afirma e as cidades vivem tensões constantes. No Carnaval, os ruídos surgem com máscaras e ritmos animados. Os interesses sacodem patrocínios e a grana corre solta. Quem se esquece das ações das milicias, dos moradores de rua, da precariedade da saúde? Será que ninguém se toca com os desgovernos ou com a concentração de privilégios? Portanto, tudo se inventa para forjar identidades e esconder desatenções.

Numa pesquisa divulgada, recentemente, dúvidas se firmaram. Será que o riso é fácil ou se manipula de foma assustadora? O índice de depressão, no Brasil, assusta e supera o de outros países. Inquietam-se os fabricadores de de sociologias fantasiosas. Não me surpreendo. Trabalho faz tempo com educação e observo comportamentos fugidios, medos, falta de expectativa profissional, afetividade desconfiada. Não é incomum enfrentar agressividades ou apatias permanentes. Fico perplexo. O desencantamento se amplia no meios de promessas de consumo nada saudáveis. Não é fácil assistir ao desmonte de valores, ao crescimento do desemprego, aos discursos com deboches e a escassez de solidariedade.O sossego não existe.

A depressão se estende e as dificuldade de contê-la é um desafio. Não adianta isolar a questão. O sistema exige desempenho, trabalho nos feriados, paga salários curtos, pune qualquer rebeldia elogia à servidão. Estimula-se o culto a bens materiais, as religiões ganham espaço par cobrar seus dízimos. A generosidade se apaga. Se a cultura da competição, da vitrine, da ambição se multiplica, a depressão não se vai. Há remédios, terapias, farmácias espalhadas pelas ruas, felicidades escondidas nas propagandas. Mas as perguntas mostram que os impasses são grandes. Como se desviar de solidões? Como encontrar outras travessias na construção de diálogos e aconchegos? Quem imagina para além da mesmice?

O Brasil passa por intrigas políticas perigosas. As polarizações criam fantasmas medonhos. a desconstrução é inegável, porém ela preserva interesses e consolida riquezas. A politica tergiversa, desmancha éticas, transforma-se num grande negócio. Abre-se o espaço para desesperança, para uma vida programada para mediocridade. Nota-se que as ações perversas são justificadas por ideais de progresso. A alegria é passageira e a hipocrisia traz intimidações e desprezos. Continuar apostando nos segredos de reformas autoritárias não é garantia de mudanças. As epidemias mudam e atacam com uma radicalidade cruel. A mente e o coração nessetam respirar e anular as descontroles.

O Historiador: calar, consentir, dominar

As relações sociais exigem manipulações que surpreendem e ajudam a fixar privilégios. Criam-se saberes que conversam com poderes e conformam o jogo político da sociedade. Não há regras definitivas, A história é atravessada por surpresas, não existe um destino programado para encerrar as especulações e nos transformar em seres mecânicas. Os desafios se multiplicam com seus lugares e tempos com cores e sons diferentes. Portanto, a construção histórica movimenta possibilidades, requer ousadias, mas também convive com naufrágios e suicídios.

Não há como aprisionar os atos humanos numa continuidade silenciosa. Os ruídos fazem contrapontos, as arquiteturas possuem geometrias que mudam e ameaçam funcionar como labirintos. O historiador ler o mundo, sem determinar uma linguagem exata. Idas e vindas se compõem. Dissonâncias não se vão, os ritmos desenham-se buscando fugir da mesmice. Não há, porém, uma história que esgote ou o tempo com ponto final. Há a permanência de dúvidas, mesmo que os apocalipses sejam imaginados e as angústia nos empurre para a beira do abismo.

Quem domina não se afasta das seduções. Usar a violência para se tornar senhor da história é algo perigoso. Silenciar quem exalta o diferente é uma prática de quem se instala no poder. Há coerções, porém também promessas de salvação que aliviam as tensões. Disciplinam-se os rebeldes com sutilezas. Não se trata apenas de calar para evitar desordens. Exercer o poder pede contacto com os controles da linguagem , capacidade para inventar palavras e não deixar que o conhecimento tenha um único caminho. Nem todos consentem ou se acostumam com as hierarquizações sugeridas por quem vigia e trama para consolidar suas leis.

O contador de história habita um território de moradias desiguais. Com seu olhar tenta descontinuar consensos. Insistir na homogeneidade é mostrar narrativas no que elas mais escondem das relações humanas. Os consensos mascaram conflitos ou diálogos para neutralizar a queda das sociabilidades. A história dá voltas, o corpo se encontra com outros corpos, mudam seus perfumes. O ofício do historiador trapezista está longe da monotonia. É ágil, não teme o acaso. Quando ele se distrai e consagra a linearidades, apaga as magias. Escraviza-se na repetição de metodologias. Não deve consentir, contudo, que a história eleja a coisificação proclamada pela força do reino da mercadoria.

“A Imaginação no Poder”

Paris, em maio de 1968, viveu momentos de rebeldia. Foram manifestações que acusavam o capitalismo por suas explorações e mesmices opressivas. O inesperado tomou conta da cidade com participação decisiva da juventude universitária. Muitas utopias ganharam espaço, críticas relembraram as dimensões estéticas da cultura e os danos da massificação. Porém, as repressões minaram o movimento, apesar de suas verdades encantarem e mostrarem as insatisfações que atravessam o cotidiano. Fugiu do cerco da mediocridade, denunciou o fetiche da mercadoria, removeu as repetições e reinventou a convivência. Muitas ações se encontravam com dizeres intelectuais revolucionários e o movimento se estendeu atraindo e lançando questões que pareciam adormecidas.

Há quem subestime 1968. A política é cheia de dissonâncias, Não concordo. Tenho outra leitura.Tudo teve a marca do efêmero. No entanto, as utopias não podem ser anuladas pela ansiedade ou frustração de quem as analisa. O armadilhas das tramas capitalistas formam cercos. É preciso que as memórias se inquietem, que as ousadias tragam a imaginação tão marginalizada no ir e vir dos negócios. A sociedade se encontra, hoje, dominada pelas seduções do consumo. Muita competição ameaça a sociabilidades e cria comportamentos que abusam da violência e desprezam qualquer projeto de solidariedade. Portanto, se a linearidade segue consolidada., o silêncio atrai a solidão e a inexistência do ânimo. Globaliza-se o exílio e se mantém a servidão com disfarces perversos.

A tecnologia aumentou suas magias. Empolga. Não destruiu as burocracias, continuou reforçando os poderes das minorias e concentrou mais ainda privilégios. Os individualismos se apresentam no uso dos objetos e no deslocamentos dos afetos e dos poderes. A imaginação limita-se aos encantos materiais das vitrines. Como desmanchar a negatividade? Os rebeldes, de 1968, buscaram vozes do passado, reavivaram as possibilidades de ampliar os desejos, ocuparam as ruas e levaram os operários para celebração das novas barricadas. Não se tratava de uma revolução iluminista, mas de um alerta fundamental para que as relações sociais se desfizessem dos cantos da acumulação. Atiçou teorias, escreveu nas paredes, soltou os versos, visitou outros lugares, apontou brechas.

Os anos 1960 não devem ser esquecidos. Muitas invenções e protestos contra os desmantelos,Os tempos são outros, mas o vivido não se congela. Quando o presente se resume às novidades das manchetes, não cuida de sonhar com mitos plenos da fantasia, a sociedade se arrasta na contabilidade das suas bolsas de valores. 1968 desenhou sinais estéticos e não apenas militarizou a luta político.As revoluções contemporâneas se vestiram de totalitarismos. Anunciaram mudanças e firmaram censuras. Não custa observar os ruídos diferentes, mesmo que velozes, e os desfazeres trazidos pela persistência de uma realidade fabricada para calar. Talvez, com a imaginação no poder a autonomia retire as pedras que insistem em se fixarem no meio do caminho.

A desconfiança mancha o futuro

O futuro virá com suas mudanças e suas permanências. No entanto, estamos vivendo um presente marcado por agressividades cotidianas. Os ataques são muitos. Procuram criar uma atmosfera constante de dúvidas e fanatismos.Ressuscitam ideais nacionalistas, fingem defender a natureza, esquecem as aventuras imperialistas.Tudo se mistura e traz desconforto para os debates. Quem merece confiança? A fragilização dos espaços de verdade representa desmanches perigosos. Há muitas informações que não são aproveitadas e se fixam suspeitas sobre os discursos das lideranças.

O destruir dos sonhos da busca de sociedades solidárias é desmobilizador. Parece que entramos num labirinto cruel, cheio de mistérios e não conseguimos encontrar saídas. As idolatrias persistem atiçando a existência de dogmas políticos. A crítica não deveria se apagar. Lançar dúvidas é importante, como também conhecer a construção do passado. Nem sempre os argumentos justificam atitudes interessadas e, perpetuar dominações. Há uma celebração de interesses cinicamente acelerada pelo olhar ambicioso. Mais uma vez se destacam os negócios. Os diálogos diplomáticos mascaram poderes e as conciliações inexistem.

Observem os noticiários. Muitas manchetes, opiniões, violências simbólicas. Há desvios e a globalização espalha qualquer boato com rapidez. A insegurança mina as relações sociais, os governantes brincam com estratégias perversas, os protestos mostram descontentamentos. Porém, não há como abrir os olhos e afastar os pesadelos. A agonia dos ideais iluministas se consolida. Querer retomar utopias é quase uma ingenuidade. Os caminhos da história desfiam . porque se enchem de pedras. Não existem forças para transportá-las.

A linearidade era uma grande mentira. Como exaltar o progresso se as guerras estão invadindo a convivência urbana e a manipulação é palavra de ordem das invenções futuras. As memórias se sentem asfixiadas. Vive-se um agora que assusta.Esquece-se que houve escravidão. O autoritarismo se sofistica e os teóricos se voltam para os chamados milagres da ciência. As obscuridades desenham narrativas históricas e vendem interpretações. Não se radicalizam as reflexões. A sociedade se ressente de ousadias que fujam das massificações. O futuro é um enigma com cores negativas. A geometria do medo ensaia intimidar as possibilidades de firmar ações rebeldes..