Latest Publications

A rebeldia e a repetição não se largam do cotidiano

Nas festas especiais do consumo de tudo acontece. Os shoppings ficam marcados pela avidez da grana, mas também se sente ameaçado pelas multidões ausentes do fluxo maior dos bens materiais. Há silêncio sobre os descontroles. A imprensa divulga os êxitos, o maior poder de compras das chamadas classes C e D, as últimas novidades vindas dos descartáveis chineses. Tanta coisa se revira. Termina prevalecendo a euforia. As mensagens omitem a violências, as  fantasias de fortuna esquecem a fome,  o mundo agigantado das drogas e das depressões. A gangorra da vida não descansa nem sob as luzes das vitrines. Nosso estar-no-mundo continua sinuoso, apesar das promessas dos políticos que não apagam seus arranjos pouco éticos.

Os conflitos  não se descolam de cenários que pareciam voltados para reencontros com o sossego. No Egito, os combates de ruas denunciam que a democracia está distante. A famosa primavera que iria florir no Oriente Médio possui fôlego curto. É difícil redefinir tradições, assombrar autoritarismos. Os fantasmas fascistas percorrem passados, querem permanecer como identidades firmadas. O diálogo entre judeus e palestinos não se expande. As populações sofrem, nascem condenadas a conviver com armas e ódios. Não sentem o tilintar dos sinos, adormecem inseguras com medo das bombas.

Há uma fábrica de ilusões que atua, distorce fatos e intimida críticas. Não pense, no entanto, que a ordem dominante se sente cercada de certezas. As desigualdades sociais geram vacilações e convocam as instituições repressoras para organizar suas ações. Há ameaças de invasão a shoppings que atordoam comerciantes e minimizam lucros. Isso acontecce, circula em alguns jornais, é tema de reportagens nas TVs, porém de maneira discreta e quase invisívisel. O inconformismo não fica nos heróis das novelas, nem nas revoluções do passado. Todos querem ter acesso aos bens materiais, tão anunciados como portadores da boa vida. Não é uma provocação manter um sistema que reproduz desacertos e joga a maioria na lata lixo?

Pois é. A ordem vencedora não convence, totalmente, embora se cerque de artifícios sofisticados. O salário-mínimo aumentou, respira-se outros ares, no entanto as hierarquias não diminuíram e milhões enchem cofres de uma minoria. A concentração de riquezas é agressiva. Ela se agudiza nos momentos de exarcebação do consumo. As praças públicas estão iluminadas, com moradores pedindo refeição e crianças buscando água para lavar suas roupas. As generosidade são passageiras, explicitam bondades localizadas, pintam gestos que pouco mudam os desconfortos gerais. As igrejas oram, muitas vezes de portas fechadas, não ligada nos que, fora, choram a dor do desprezo.

É importante não esquecer que as ambiguidades não residem, apenas, nas especulações dos filósofos, nem nos lamentos agudos dos profetas. O mundo é vasto na distribuição das rivalidades e das competições, não só na multiplicação dos saberes e na renovação do estoque das mercadorias. As continuidades não se largam do cotidiano. As formas variam, as utopias se redimensionam. Os simulacros de paraísos merecem ser expostos. Os ruídos ajudam a refazer a história e não emudecer as rebeldias.

Share

Devagar:não acelere a vida e não despreze o cuidado

Não se pode viver sem mencionar a força da velocidade. Ela é uma marca do mundo contemporâneo. Derrubou regras e refez caminhos na comunicação. Mas é importante que você verifique o controle que ela exerce sobra a sua vida. Quantas vezes acordou antes do sinal do despertador? Costuma ler jornal e comer ao mesmo tempo? Desliga a TV antes  de ouvir a última notícia? Resume história para ganhar tempo e aproveitar os minutos da noite, deixando seus filhos desconfiados das  conversas e dos disfarces? Usa o telefone fixo, sem conseguir tirar o olho do celular, inquieto, celebrando cada toque com gestos nervosos?

Exemplos de pressa, de falta de paciência mínima não faltam. Aqui, estamos no blog, mas existe o e-mail. Muitos reclamam dos textos longos, quando eles têm no máximo 500 palavras. Estão esquecidos dos romances de Pamuk, do memorável Ulisses de Joyce ou de Cem anos de solidão de García Márquez. A quantidade incomoda, pois ela prende a passagem do tempo, argumentam os velocistas da vida. As questões de saúde provocadas pelas ansiedades assustam os governos, fazendo duvidar o valor das máquinas e suas fúrias aceleradas . O investimento é grande. Crianças possuem agendas, pais trabalham mais de 10 horas, surgem comportamentos estranhos. O afeto se desmancha, pois o cuidado com as pessoas é raro.

Há, porém, resistência. Nem todos embarcam no avião mais ligeiro, nem cultivam mensagens impessoais para ativar negócios e compromissos. Leia o que afirma Carlo Petrini do movimento internacional Slow Food: Ser Devagar significa controlar os ritmos de nossa vida. É você quem decide  em que velocidade deve andar em determinado contexto. Se hoje quiser andar depressa, vou depressa; se amanhã quiser andar devagar, vou devagar. Estamos pelo direito de determinar nosso próprio andamento. O Slow Food conseguiu adeptos e reeducou a forma de se alimentar de muitos grupos sociais, sobretudo na Europa.

O que Petrini coloca não é o fim das tecnologias. Não vamos apagar conhecimento e se desfazer das facilidades que também auxiliam o bem-estar das coletividade. Novamente, a volta do debate sobre autonomia entra em cena. Qual o espaço de escolha que  temos de conquistar para seguir a vida? Portanto, a velocidade não é um mal em si. Ela compõe a história e suas circunstâncias. A política da acumulação de riquezas é que nos leva a considerar os ritmos que podem nos assegurar confortos, nos encher de objetos sofisticados para diversão constante.

Observar a construção das relações sociais é fundamental para avaliar por onde trilha o lugar da autonomia. A prevalência da concentração de poder, a exaltação ao narcisismo, a expansão dos simulacros  firmam a superficialidade. Estima-se, então, que o maior valor da vida é transformar o tempo em dinheiro. Daí, o menosprezo pelo cuidado, o avesso à alegria esticando os azares da depressão. Transformar a sociedade, numa vitrine, parecer ser o gosto da velocidade sem reflexão. Todos seríamos manequins orientados por fórmulas mágicas. Quebrar a autonomia é desfiar o fio de Ariadne,  no temer o labirinto.Leia Devagar de Carl Honoré e não deixe escapar o sossego  da vida.

Share

Paul Klee: o afeto roubado e o exílio

                                

                                          QUEM ME VIU NUMA CRUZ,

                                          DEU-ME UMA ESPADA DE MADEIRA

                                          E  UMA ARMADURA DE CRISTAL.

   COM A MADEIRA FIZ UM BARCO SEM VELA

    E NO CRISTAL DESENHEI UM ROSTO INESQUECÍVEL.

                     ERA O EXÍLIO, E  EU NÃO SABIA ONDE NASCER OU MORRER.

                           NO TERRITÓRIO DOS QUE NÃO TÊM IDADE, PLANTEI-ME.

                                

Share

O movimento inesperado dos labirintos da história

Quem esperava tanta gente nas ruas e tantos prédios construídos numa velocidade incrível? Dizem que falta mão-de-obra, a precariedade dos serviços é visível. Improvisa-se, escondem-se os perigos, especula-se. Não há moradias suficientes, nem rede de esgoto que dê conta das necessidades mínimas da população. As praças públicas não são só locais de divertimento, mas de estacionamento de carros, de pregação de religiões, do fluir dos negócios de drogas, de acolhimento dos sem teto. É a quantidade que explode, como sinônimo de desenvolvimento, atravessando discursos, disfarçando desigualdades,acirrando invejas partidárias. Onde se localiza a saída do labirinto ninguém sabe? O olhar é ambicioso e concentrador, longe da solidariedade, afastado dos sinais de cidadania.

Não se cogita parar. Aliás, a história não freia o tempo. Ele se faz e arquiteta carregando os desejos, sem pedir interrupções. A cultura segue, escolhendo significados, mesmo que seus dicionários sejam ilustrativos da desordem. Há mais celulares do que pessoas. O mundo está repleto de personagens que passeiam pela vida, representando seus textos, vestindo seus modelos, se engraçando com seus espelhos. Imagine o problema alimentar da China, a degradação das favelas nas cidades brasileiras, a disputas religiosas entre os muçulmanos, a fome crescente em vários países da África!

Não há sossego. As teorias são, rapidamente, superadas. A questão não é secular, porém de semanas ou de minutos. O saber vale muito e contribui para concretizar hegemonias. Por isso, o investimento na educação é uma opção clara das grandes potências. Prevalece o conteúdo técnico, a possibilidade de conquistar mercados. Os mistérios do humano estão na reserva. Criam-se crenças, retomam-se rituais medievais, apela-se para violência, mas quem controla o ir-e-vir dos conhecimentos se conecta no lucro. Os lamentos ocorrem quando as expectativas comerciais são frustradas ou quando as bolsas se curvam às instabilidades das economias mais poderosas. As lágrimas sintetizam sentimentos de fraqueza.

Não vamos atribuir um sentido a história. Não há como ficar prisioneiro das adivinhações ou de quadros estatísticos. A complexidade não está, apenas, nas relações sociais, na diversidade de costumes, nas manipulações das imagens. O pode da tecnologia não é infinito, é compatível com a nossa incompletude. São frequentes tragédias inesperadas que desnorteiam planejamento e furam esquemas, aparentemente, inexpunáveis. As fronteiras entre a fama e os desmantelos são confusas. O sorriso pode ser um truque da propaganda, um artifício do produtor perverso para enganar o público. Portanto, as ambiguidade se sucedem, não adormecem.

Lembrar o labirinto e seus desenhos surpreendentes atiça compreender que a história é uma invenção, no entanto não é um quebra-cabeça com mapa definido e instigado pela eternidade.O signo da liberdade nos assanha. O que é uma sociedade livre ou autônoma? É aquela que dá a ela mesma, efetiva e reflexivamente, suas próprias leis, sabendo o que faz… Estamos muito longe de uma sociedade livre. E quem imaginaria por um instante que a preocupação ardente das oligarquias dominante seria de nos fazer chegar a tal sociedade? Quem se compromete com as interrogações de Castoriadis ou nega a força das utopias?

Share

As leituras do mundo: a opinião e as redes sociais

Estou criando experiência no chamdo mundo virtual. Não gosto de me chegar às aventuras sem estimular reflexões e derrubar preconceitos. Escrevo no blog, desde 2010, cotidianamente. Um desafio que ensina muita coisa. Contato com pessoas, diálogos com o mundo, percepção mais aguda dos deslocamentos sociais. É importante acompanhar a renovação, não ficar achando que o descartável é o rei absoluto do contemporâneo. Por isso, não há sossego. Também vou adiante nas minhas leituras e não elejo só o que passou como foco das análises. Sinto-me um aprendiz. O mundo não cessa de se reinventar. Esconder-se é uma omissão, uma perda de sintonia com a coletividade.

Recentemente, estou circulando e atuando no facebook, auxiliado  por Marcelo, meu filho mais novo. Novas linguagens, opiniões diversas, imagens soltas, vontades de transformação. Forma-se outro lugar de debate, de encontro, de redimir os afetos. Tudo isso é agitado, ganha velocidade com as conquistas tecnológicas. Desenham-se os avessos. Muitas vezes, celebram-se opiniões passageiras e perde-se o apego por leituras mais reflexivas. Um perigo para quem busca exercer a crítica. Os mergulhos não podem ficar na superfície, pois a dominação gera preguiça e nos enche de fantasias. Portanto, a inquietação é saudável e deve firmar incômodos consistentes. O tempo se vai, confundindo e alertando.

Articular as críticas e os lugares de protesto traz dinamismo e olhar mais paciente para se compreender as ambiguidades. As diferenças não deixam de ser desconfortáveis. Elas revelam mecanismos de poder nada democráticos, mas sabe fabricar ilusões. Sociedade carente de socialização de riqueza e de cultura não se afirma como democática. Os discursos pesam, porém as ações morrem nas gavetas. A burocracia é uma forma esperta de censura. Desgasta, corta ânimos e simula dificuldades. Sem instituições a sociedade não anda. No entanto, é preciso não mumificá-las. Nenhuma ordem é para sempre. Daí, a necessidade de esticar a opinião, visitar os labirintos, não temer a extensão das palavras.

A força da dissonância é sinal de que o conformismo está abalado. Há artimanhas na seleção das notícias, na formação dos estudantes, na organização dos currículos. Nem se impressiona, apenas, a população com a mobilização da polícia. Maquiavel já apontava a complexidade do poder nos tempos modernos. Gramsci conseguiu desvendar estruturas e mostrar a construção da hegemonia e sua relação com a capacidade de persuadir. Portanto, desfiar o tecido que nos envolve e nos aprisiona exige atenção e cuidado com os abismos. Eles se disfarçam com agilidade incrível.

As redes sociais se multiplicam. Nelas, há espaços para fofocas e indignações. Não se distraía apenas. É um lugar que, também, joga com armadilhas. É lúdico e político. Fortalecê-lo, com denúncias, é sempre bom. Fundamentar as denúncias e fazê-las circular aumenta sua participação efetiva na crítica aos desgovernos. A opinião pública carrega responsabilidades que permanecem e se espalham pela história. As leituras do mundo não se resumem a uma piscadela. O circo está armado, contudo existem buracos na lona. A conversa e a solidariedade ajudam a ir além da superfície. Traz o frágil perfume da esperança.

Share

O tempo passa, a memória fica, o progresso engana

Estamos no ano 2012, galopando com rapidez. Nem parece que chegamos ao século XXI, estamos no pique da sociedade de consumo, com o Partido dos Trabalhadores no poder central, sob o comando de Dilma Rousseff. Muita coisa se foi, mas as esperanças também se sentem ameaçadas. Não há perspectiva de mudanças substanciais. Insiste-se no valor das transformações teconológicas, na genialidade dos cientistas, na possibilidade de revoluções nos estudos da genética, na dificuldade de visualizar qual o caminho das religiões diante de tantas reformas nos hábitos e nas crenças. Há muita confusão, pois a ideia de um tempo progressivo, marcado por avanços espetaculares, não vingou no campo da ética e da política. Cogita-se firmar censuras, interromper transparências, internacionalizar o cerco da colonização pós-moderna.

Um olhar passageiro, pelo início deste século, não deixa saudades. Sacuda a memória. Não estranhe que continuem os conflitos entre judeus e palestinos, que os imigrantes sofram perseguições na Europa. A corrupção anda veloz e atinge até as negociações esportivas. Acumulam-se dissabores, embora persistam disfarces com intenções de esconder os desencontros. Aposta-se no êxito das aventuras do mercado, para distrair as dores, jogar no lixo as especulações pessimistas. Acontece que o capitalismo tergiversa, os escândalos não descansam, as incertezas financeiras não diminuem. Surgem suspenses com o agigantamento da China e da Índia.

A  exaltação da quantidade esvazia os movimentos de solidariedade. Quebrar  pacto em nome do lucro é comum. A história treme, a memória alerta, porém os dominantes possuem recursos para manter as ilusões e muitos não saem do território da ingenuidade. Apesar dos desmantelos, as estratégias do poder se redefinem. As acusações fermentam as conversas. Falta punição. As denúncias aparecem, ajudam a mobilizar a imprensa, causam rebuliço. Depois, há outras inquietações, personagens saem do palco e tudo naufraga no esquecimento. As frustrações mudam de lugar, as lembranças também. O melodrama entra em cena.

Tudo isso acompanhando o corre-corre da fama. As vitrines estão brilhantes esperando seus manequins. Não interessa que sejam individualistas, que estimulem comportamentos nada saudáveis. A grana balança o entusiasmo. A sociedade não vive sem agitar as bandeiras dos ídolos. Portanto, a simulação de cuidado é superficial. Vale mesmo o pragmatismo, como se o mundo flutuasse e elegesse sua sorte num grande sorteio de loteria. As drogas se renovam, perturbam convivências, não escolhem vítimas, nem grupos sociais. As dúvidas permanecem: reprimir ou educar? Quem consegue sobreviver ao assédio constante dos golpes organizados, com graças virtuais?

A memória fica , porque ela é seletiva. Busca estradas alternativas e entender as arquiteturas dos labirintos. Não adianta garantir que existe avanço nas idas do tempo. É preciso não se enganar com o fetiche do desenvolvimento. A felicidade tem seus limites, mas a procuramos. Ela não significa a nova invenção da informática norte-americana. Por isso, o ruído dos tempos são fundamentais para não mergulharmos em rios sem margens visíveis. A história é uma construção. Isso é não novidade. Resta saber, contudo, como essa construção é feita, a dimensão do compartilhar. A respiração é parceira da imaginação. O corpo pede sentimentos e aconchegos.

Share

Repressões, cinismos, violências, desgovernos

O mundo é território de muitas invasões. Os comportamentos mudam rapidamente. São bilhões de pessoas convivendo, com crenças e sentimentos conflitantes. Esperar uma harmonia é um devaneio. No entanto, é importante a inquietação e  perceber a multiplicidade. O ano de 2012 não promete sossego. As coisas se balançam, a gangorra se movimenta. As desconfianças prosperam, pois quem acredita no milagre da redenção dos tempos fica sem fôlego. É chato, mas não custa relembrar. A história é uma relação dinâmica entre permanência e descontinuidade. Nada é para sempre da mesma forma, nem tampouco existem rupturas radicais.

Aquele sonho de revolução não se assanha como antes. Os vencedores controlam o poder com sofisticação. Não vamos naufragar na apatia. A crítica e a transgressão solidária merecem lugares especiais. No entanto,os políticos ambicionam aumentos, mordomias, acesso aos cargos. Não procuram estimular reflexões. Poucos questionam os limites. As notícias se restringem às brigas pessoais, enchem-se de mistérios, duram semanas.  Novelas. A disputa eleitoral já contamina os partidos. Todos correm em busca de apoio.Cantam promessas. A confusão é geral. Ninguém é de ninguém. Sobram acusações, mas faltam planejamentos, configurações coletivas. Uma continuidade que deixa a maioria insatisfeita. Qual a trilha do diálogo? Quais são os compromissos?

A violência não foge. Compõe as ações humanas em todas as épocas. Ganha astúcias perigosas no tempo da tecnologia. As redes sociais trazem deslocamentos políticos significativos, porém podem difamar, levantar suspeitas destruidoras. Muita gente pensa que a violência é a morte, o crime, o roubo. A violência usa artifícios variados, possui simbolismos, infiltra-se em movimentos, aparentemente, ingênuos. Analise essa polêmica sobre o BBB. A Globo tira o foco do principal. Sua programação é ambígua, sua pedagogia paradoxal. Por que tanta arrogância ? A manipulação inibe, quebra reações, cria imagens vazias.

A sociedade navega e submerge em mares turbulentos. Há momentos de  desgovernos chocantes. Geram pessimismos. O que acontece, na Síria, é uma prova de que o autoritarismo não se vai e a pressão internacional fracassa. Há cinismos que minam a solidariedade. Troca-se de posição, arbitrariamente, nas estratégias de negociação. Muitos países que, hoje, pressionam o governo da Síria estão comprometidos com passados nada dignificantes. A riqueza material é um sinal definidor de valores. Ela faz vacilar a cidadania e aumentar os ruídos dos sistemas financeiros. Por isso, a Organização das Nações Unidas é um fantasma sem máscaras. A escrita é pequena para tantos contrapontos. Não podemos, contudo, obstruir as indagações, nem  apagar o social. 

Ontem, no Recife, a repressão não vacilou. Mais uma vez, o aumento da passagem de ônibus trouxe a polícia para as ruas. A tensão continua, as feridas estão abertas. É difícil manter a frágil chama da democracia. Tudo é uma construção. Não interessa que seja mínima. Pior é o conformismo. As rebeldias assustam quem domina. O absoluto é uma caricatura. O Enem sofre com as reações do público. Isso evita menos desacertos. A aldeia global estreita compromissos, acende proximidades, apesar das controvérsias. A polêmica sobre o acidente com o transatlântico é uma lição. Desfazer descuidos é esticar responsabilidades. Ainda se fala em heroísmo. Ouvem-se dissonâncias. Existem, porém, garantias para a soberania popular?

Share

Os rituais de cada dia e as celebrações solidárias

As sociedades inventam calendários para organizar o tempo. Cada uma usa símbolos diferentes, recorre à memória de tradições, registra nascimentos de heróis ou define o passar de guerras gloriosas. Não há como se livrar das andanças do tempo. Ele se entrelaça com a morte e com a vida, ditando os ritmos da cultura. Pode morar nas marcas dos ponteiros dos relógios ou fazer reviravoltas nas emoções cotidianas. Sempre há espaços para surpresas, noções matemáticas para contar sua extensão e suas ligações com as curvas geométricas. Por isso, os sonhos de eternidades estão presentes nas celebrações culturais, na busca de idades perdidas, talvez inexistentes.

Acho importante haver anúncios de mudanças. Mesmo desconfiando, não custa visualizar um mundo mais solto, sem preconceitos e desigualdades. O que cansa e desmotiva é o cinismo constante de autoridades que transformam tudo num grande espetáculo. Próximas dos palcos estão as favelas, a falta de esgoto, a violência sem limite. Não vamos negar as diversões, nem  ficar de luto, inertes, esperando o milagre de todos os santos. Mas é preciso certo equilíbrio, para não cometer exageros, quando as necessidades urgentes tomam conta do cotidiano. A questão não é naufragar no sofrimento, mas se lembrar que existem cidadania e alternativas políticas  saudáveis.

A sociedade não vive sem rituais de passagem, festas, aventuras, esperanças. A incompletude é permanente, por isso o malabarismo inverte situações, inventa crenças, fabrica produtos, dilui tragédias. Portanto, não entremos nas ilusões do absoluto. Fazem parte das construções da história não se curvar às linearidades e desenhar arquiteturas imaginárias. O real e a ficção possuem fronteiras frágeis, atiçam debates acadêmicos, confundem os inocentes. No entanto, há espaços de criações incessantes que superam perdas e assanham as apatias culturais. Não é à toa que surgem revoluções, transformações nos comportamentos, crises radicais nos costumes.

O mundo não tem uma única vestimenta. Guarda mistérios, não se liberta de memórias, mas sempre se recorda que há futuros e possibilidades de conversar sobre eles. O medo do juízo final não impede que a vida se estabeleça e avance no calendário do tempo. As religiões perdem força, pois optam por apostas que acompanham os artifícios do capitalismo. Não deixam de armar disputas sangrentas, como se as divindades elegessem escolhas. A fantasia é vasta e destruidora. O que devia fermentar paz  produz desmantelos e fanatismos. A miséria habita regiões imensas facilitando manipulações de toda ordem, até nos lugares do sagrado.

Confesso que tenho alguns hábitos que enganam artimanhas desse tempo burocrático e massacrante. Não nego a disciplina, nem tecnologia. Elas ajudam. Andar, porém, na contramão da maioria traz mudanças no olhar. Onde há muita pressa não custa pensar em ser contemplativo, esticar a reflexão, pois aparecem sinais que os outros não avistam. Os meios de comunicação aceleram o ir-e-vir das notícias. Tudo passa, apenas, a ser resolvido por e-mail. Já experimentou o avesso, exercitar a conversa pessoal, a não disfarçar os sentimentos? O que parece moderno, muitas vezes, quebra sociabilidades, desfia afetos. Acumular concentra . A corda é bamba, o balanço é audaz.

Share

Goya: o tempo e a fragmentação da vida

                                      

                        As tatuagens da vida não têm formas, nem medidas,

                        são pintadas pelo pincel do tempo branco como a areia do

                        deserto.

                        Tudo é relativamente contado, não há exatidão, nem quietude.

                        Os sossegos são aparências enganadoras, vestígios finos e

                        sinuosos.

                        Cada instante passa como um número infinito, com radical

                        indefinido.

                       São as lágrimas que escrevem os caminhos e os risos que

                       mascaram os  desencontros,  tardios ou ingênuos.

                       O corpo é a palavra que revela  o sangue e a dor, o medo e o

                      mistério encoberto  pela  pressa da loucura inexplicável.

                      Os anos estão desenhados nos teus olhos, mas os espelhos não

                      conseguem vê-los  e o sentimento  esconde-se  embaixo do

                        travesseiro que não dorme.    

                       O simultâneo  das  imagens na memória diz quem  és e quem não

                       serás  jamais.

           

                       

                       

Share

O território do Big Brother e as ambiguidades gerais

É a polêmica agitando a sociedade. Ele se desloca quando as intimidades são colocadas em questão. Vibra com a TV, mas esquece os infortúnios que marcam a desigualdade social. O BBB da Globo traz a turbulência das fantasias, o olhar curioso, conta com uma audiência que atrai bons patrocinadores. É claro que muita gente não curte as estratégias da emissora soberana. Não há uniformidade nas opiniões. Isso é bom, mostra controvérsias, inquietações. Na sociedade do espetáculo, qualquer detalhe consegue abrir espaços. Basta uma astúcia mais irreverente que os grupos sociais se incomodam e as comunicações estendem seus tentáculos tecnológicos.

Tudo não se resume a relações amorosas ou sexuais. A TV dança a música que seus telespectadores gostam. Ela não é ingênua, nem tampouco o público que, às vezes, chega a ficar cinco horas diante da tela. Não só aqui, mas no mundo todo. A anunciada sociedade do lazer não aconteceu. Então, há uma corrida imensa para diversões supérfluas que ajudam a desfiar as amarguras do cotidiano. Não é fácil. O Big Brother seduz, provoca comentários, tira o sono dos apáticos, redefine os encontros familiares, une a vizinhança.  Por isso, ele se repete, tem seu lugar reservado, atiça mobilizações, agenda as férias do início do ano.

Um mergulho, nas inúmeras ambiguidades que nos cercam, indica algumas reflexões. Mesmo quem curte o programa não suporta quando ele ultrapassa certos limites. Não quer conflitos, preserva aspectos da vida privada. Cada um cria suas fronteiras, imagina seu pedaço na aventura. O caso de Daniel-Monique levantou dissidências. Até a polícia se envolveu. Uma fermentação incrível que abalou a imprensa. O que foi que, realmente, aconteceu? Houve constrangimento ou simulação? Surgem os juízes, os princípios morais, os julgamentos nas conversas das esquinas. Será que o Big Brother não assanha demais os comportamentos e nem se preocupa com as possíveis consequências?

A história da vida privada volta a ser o centro do circo, das farsas, dos discursos mirabolantes. Bial é o maestro. O programa joga com a sociabilidade, não está fora do mundo, não é uma invenção gratuita dos seus diretores. Portanto, ficar, apenas, nas pegadas da rede Globo é pouco. Há  transgressões que diluem valores. Quem aposta nelas? Quem deseja a aventura curta e passageira? Quem se aproxima das imagens, mas se amedronta com os desafios afetivos da vida? Quem, ainda, acredita que a solidariedades ganha espaço numa convivência individualista? Big Brother exalta o narcisismo, o toque da embriaguez, os chamegos profanos do corpo.

Ontem, peguei um ônibus rumo ao Derby. Fiquei de ouvidos acesos para sentir os comentários, fugir dos intelectualismos pomposos. Tive sorte. Duas passageiras falavam muito sobre o assunto, com soltura e bom humor. Procurei escutar. Uma afirmou a que televisão ensina malandragem e safadeza, embora seu marido goste de assistir ao programas mais cheios de cenas picantes. Riu e disse: A gente quer se divertir. Depois, até Deus entrou nas falações como o grande protetor. Ele nos salva dos pecados gerais, dos vírus televisos. Que confusão! Quem pede a companhia de Deus dorme na casa do BBB?  Onde habitam os anjos dos competidores?

Share