1964: entre as “memórias” e as “verdades”

Não há história uniforme, sem discordâncias. O paraíso ficou misturado com as lendas e os mitos. Não desprezemos os pecados, mas sigamos costurando ações e sentimentos sem sabermos quando tudo isso terminará. Talvez, sejamos atores de um drama infinito, haja um escritor astucioso e transcendental. Não faltam espaços para especulações. Pensar a vida é sempre um desafio, nunca um sossego definido. As palavras honram os poetas e os poetas honram as palavras. Mas o mundo possui muitas linhas e labirintos, apenas traçamos pinturas de cenas avulsas e, às vezes, descartáveis.

A luta política acende as sociedades. Mostra que há privilégios, desigualdades e razões cínicas justificando desgovernos. As reclamações não se aquietam, trazem disputas, deixam as pessoas confusas. Fala-se em transparência. Sem ela, a democracia sucumbe. Como concebê-la num vaivém de negócios e consumos e concentrações de armas discursivas? E os desejos que nos cercam? A complexidade humana não é uma ficção tola. Se  não conhecemos o começo como julgar os méritos do juízo final? No entanto, tudo se movimenta e as religiões tomam conta de templos. Estão envolvidas nas compras e vendas de mercadorias.

Buscam-se referências. A existência da relatividade não impede que as verdades apareçam. Muitos não aceitam seus limites. Querem permanências, seguram valores, avivam passados. A sociedade divide-se. É o movimento da história. Guerra, greves, revoluções, teorias, escândalos. Certos acontecimentos marcam. O golpe de 1964, no Brasil, apagou esperanças e distribuiu autoritarismos. Foram anos de censuras e violências. Muitos colaboraram para que não houvesse mudanças. Não só os militares coordenaram suas atividades. As memórias existem para que o esquecimento tenha abalos e a crítica não se esvazie.

O Brasil refez alguns caminhos. Continuam as insatisfações e maioria da população ainda padece. As corrupções encontram moradias e as armadilhas preparam ganhos para as minorias. Contudo, os debates são frequentes, a vida partidária mobiliza-se e as denúncias balançam as hipocrisias. Criaram-se comissões para avaliar dissonâncias, rever documentos, descobrir os esconderijos da opressão. A história não pode aliciar a memória, nem celebrar o presente como verdade incomum. É preciso lembrar, embora nem tudo possa ser desvendado. Quem duvida das mesquinharias, das necessidades de confrontos?

Aprendemos lições quando a sociedade não se afoga na apatia. Atiçamos direitos, combatemos covardias, aprimoramos os cenários dos sonhos. Se as divergências afloram é porque as diferenças não se foram. Há violências, tradições, conservadorismos persistentes. Por isso a inquietude e o desejo de superar o tempo  vivido. O sonho democrático exige que haja descompassos, para que a luta política traga outras verdades. Mesmo que a democracia não alcance plenitude, o sonho não deve ser eliminado.

Pior é sacralizar as verdades e obscurecer a força da reflexão. A marcha do progresso é uma expressão cansada e ilusória. Os contrapontos merecem ser ativados. A história não é propriedade privada. O coletivo anônimo cuida de socializá-la, apesar das resistências e das hierarquias. A relação entre permanência e mudança nos traz pesadelos e também descortina possibilidades. O território das certezas está sempre cheio de sombras. Elas se agitam com medos e contradições.

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