1964: história e memória, verdade e poder

A localização da verdade é, sempre, uma questão instável. A sociedade não vive sem conhecimentos, sem limites, sem estabelecer suas ordens e visualizar suas possibilidades. O jogo político influencia as escolhas. Ele está articulado com as tramas do poder. Não há neutralidade na política. Os compromissos são assumidos e fazem parte da construção da história. As transgressões ajudam aos deslocamentos e a quebrar as mesmices. Redefinem convivências, também, possuem suas máscaras e, às vezes, consolidam tradições, fixam permanências. O discurso da transparência não sacode a poeira das ilusões, nem desfaz  os monopólios.

Olhar o passado não significa navegar por águas estagnadas. Estamos, no presente, negociando encontros e aventuras, mas formando (res)significações e não transformando a memória em objeto descartável. É difícil compreender a complexidade do social, querer esgotar os desenhos e as linhas dos seus mapas. Sobram lacunas, pois a cultura lida com as incompletudes. Por isso, os julgamentos aprofundam debates e dissidências. Muitos atores  estão nos cenários das histórias. 1964 e seus desdobramentos marcaram a sociedade brasileira, firmaram intolerâncias, exaltaram ressentimentos, retomaram nacionalismos, trouxeram perplexidades e frustrações. Surgem justificativas autoritárias, violências são relembradas. Necessidades de rever documentos e situações fazem parte de polêmicas sem fim.

Há memórias fortes de perseguições, desaparecimentos, assassinatos. Quem consegue encontrar respostas para tantas indagações? Elas poderiam desvendar muitas dúvidas sobre as relações de poder no período da repressão. Na história, há vencidos e vencedores. As verdades balançam-se, as perspectivas chocam-se, os movimentos cultuam princípios diferentes. Portanto, não há razão para estranhar os antagonismos. A luta tem territórios, teorias, armas. Assim como os circos desmontam sua lonas, os grupos políticos ganham seus espaços ou perdem seus mínimos sinais de coerência. A clareza não é amiga dos tribunais e a diversidade estimula a contradição.

É importante, então, mergulhar nessas turbulências, sabendo que as inquietudes nunca serenam de vez. Pior é mutilar a memória, ornamentar o cinismo. Limpar as poluições dos véus traz proximidades com os caminhos dos labirintos da história. O inacabado não sairá de cena, as insatisfações não silenciarão, no entanto o movimento rompe com a apatia. Modernidade nunca deixou de ressaltar a autonomia e ela se faz convivendo com os contrapontos. É no confronto que conhecemos melhor as densidades das concepções de mundo, as dissonâncias críticas e os desejos de alargar os esconderijos. Tudo isso não é uma novidade histórica, mas retorna e garante uma circularidade que incomoda os apaixonados pelas omissões.

O que atormenta é a volta dos genocídios, das ditaduras e a sofisticação crescente dos mecanismos de poder. Dialogar com o passado é construir temporalidades, evitar vazios, desconfiar de continuidades fabricadas como fundamentais. Os valores não se mexem se os tempos históricos servem, apenas, para contemplar fatos e heroísmos. O que assusta é a intolerância, a fragilização das sociabilidades que animam o coletivo. Discutir sobre as verdades possibilita rever estratégias, entender as opções tomadas, o desprezo pela utopias, o tamanho das sombras dos mitos de Prometeu e Narciso. As imperfeições não se ausentarão. Fazem parte da história.

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