1964:as datas atiçam memórias e histórias

Não é novidade saber que as histórias acontecem na luta e na construção de projetos. É simbólico marcar calendários. Não conhecemos as origens, nem podemos precisar o que motiva mudanças ou tradições. A complexidade provoca análises que nunca  trazem respostas definitivas. Estamos buscando não deixar que o vazio se instale e a memória ajude a agitar as recordações. Lembro-me dos tempos dos governos militares no século passado. Eles coincidiram com boa parte da minha adolescência e com início da minha vida de professor. Portanto, a censura impedia o debate e transtornava quem pensasse na democracia. O cerco era grande e tinha adeptos, não era o simples desejo de uma minoria repressora.

1964 fechou muitas portas. Quebrou a atmosfera dos anos 1950, consolidando ações de controle e firmando perseguições constantes aos chamados inimigos. A tensão não se escondia, apesar das propagandas otimistas que exaltavam o progresso e o nacionalismo. Toda essa articulação pelo conservadorismo não evitou que as inquietações circulassem e que as ruas silenciassem de vez. Jornais alternativos enfrentaram visitas nada amistosas e os artistas esforçaram-se para burlar os disciplinadores oficiais. Não foi fácil. Os ruídos acendiam, porém, esperanças e colocavam em xeque a ideia de que havia homogeneidade. A sociedade estava partida, muitos grupos, profundamente, marginalizados, contudo os contrapontos apareciam nos atos de coragem. Não houve descanso, pois o alerta era geral.

Os governos se sucederam, existiram momentos de dureza e de violência, de denúncias e resistências, com ritmos diferentes. A insatisfação aumentava, na medida em que as rebeldias se faziam presentes e os governantes vacilavam no seu poder de convencimento e de polícia. Muitos dizem que vivemos anos de chumbo. Uma expressão usada para declarar o peso e a extensão dos pesadelos. As relações de poder possuem seus pontos de fragilidade e as desconfianças trazem aberturas para protestos. Há quem desista e mude de posição, por oportunismo ou observar a gravidade dos desmandos.

Hoje, sobrevivem, na política, pessoas que se encantaram com 1964 e seus desdobramentos. Elas conseguem espaços e gostam do pragmatismo.  Muitos se transformaram, fizeram uma revisão de suas atitudes. Não cabe, aqui, instaurar um tribunal e promover julgamentos. Mas é importante interligar os tempos, questionar, localizar as razões que só levaram a outros caminhos. Saímos do sufoco, no entanto há, ainda, muita desigualdade social e as corrupções frequentam os noticiários. Não falta o que fazer. O esquecimento não deve ser a trilha, nem tampouco a raiva desmedida e vingativa.

Os testemunhos da história merecem ser escutados, os relatos de quem enfrentou as opressões e de quem simpatizava com os movimento dos governos da época. Apagar o que passou não parece ser uma boa lição. Insistir no diálogo torna mais leve os ressentimentos, permite que a memória seja ponto de contato para rever situações. Nunca temos uma fotografia exata do que se foi. Há dores, frustrações, mas cada um narra seus desamparos com ritmos assimétricos. Somos, contudo, animais que se agrupam e organizam coletividades. Não dispensamos as armaduras do poder. O presente não é solitário. Necessita de conversas e ousadias.

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12 Comments »

 
  • Isak de Castro disse:

    São duas faces de uma mesma moeda, o governo militar e seu milegre cheio de segundas inteçõens, a esquerda partida em varios quadrados com sua luta.

    Me apaixonei pela história por conta desse périodo.

    Professor gosto muito do seu blog!

  • Isak

    Agradeço seus comentários. A história é nossa aventura, por isso é complexa e atraente.
    abs
    antonio

  • bruno catunda disse:

    excelente texto sobre esse periodo da historia brasileira que foi tão marcante para todos nós e que sempre volta a tona com muitos debates.
    Ótimo Blog tbm.

  • Silvia disse:

    Muito bom o texto professor. A imagem então, muito representativa. Sem cor, com a voz repremida e muita incerteza do destino que muitos tomariam naqueles tempos de ditadura.

  • Há ocasiões em que o jornalismo, principalmente o fotográfico, honra a grandeza humana, preferindo o registro de uma tensão estritamente humana, sem deixar-se contagiar pelo apelo de interesses especializados ou cumpridores de encomendas de mercado. Parabéns ao fotógrafo, aos atores, ao professor e ao compartilhamento de Vitória! Vocês produziram um tributo à democracia da informação, obrigado.

  • Dayse Luna disse:

    Antonio

    Balizamento bastante interessante. Gosto da forma como analisa as interfaces dos processos, poetiza a narrativa: “O esquecimento não deve ser a trilha, nem tampouco a raiva desmedida e vingativa.”

    Abraços.

  • Dayse

    Grato e pareça sempre. O blog tem publicação diária. É uma conversa com as coisas que nos tocam.
    abs
    antonio

  • Márcio

    Grato e apareça; as leituras dão vida aos escritos.
    abs
    antonio

  • Sílvia

    Pois é. As leituras ajudam muito e fazem parte do estímulo. Apareça; o blog é diário. Grato.
    abs
    antonio

  • Bruno

    O blog é diário, portanto os leitores dão o ritmo e animam os escritos. Grato.
    abs
    antomio

  • Helton disse:

    Professor sou um leitor assíduo do blog. E essa é a primeira vez, em pouco mais de um ano e meio como leitor, que comento neste espaço. Quero elogiar a lucidez dos seus textos. São de grande inspiração e motivação para que eu continue a querer buscar sempre mais através dos caminhos da História, os significados deste mundo. Consciente do meu papel como cidadão tentando compreender, denunciar (e não desanimar) com as mudanças/permanências das relações humanas.
    Fiquei bastante feliz em o senhor ter citado Kafka – que é uma das grandes referências literárias que tenho. Queria saber se o senhor, assim como eu, é um admirador da obra de Graciliano Ramos. Pois não recordo de algum texto em referência a este escritor. Sobre cinema queria saber a sua opinião sobre Kieslowski, o “poeta do cinema”(na minha opinião).
    Por fim, quero indicar (caso não conheças) estas obras-primas da música Scheherazade (sei de sua admiração pelo livro) de Rimsky-Korsakov e Recurdos de la Alhambra de Francisco Tárrega. E uma mais recente (muito boa) Sinal dos Tempos de Totonho Villeroy.
    Grande Abraço!

  • Helton

    Grato pelo estímulo e sugestões. Gosto muito de Graciliano e de Kieslowski, mas não conheço Tárrega e Villeroy.
    Apareça sempre. Korsakov já ouvi muito. O blog é espaço de boas conversas.
    abs
    antonio

 

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