A batida do violão, as dissonâncias do tempo e da arte

Celebra-se o aniversário de João. Não é qualquer João perdido no vaivém das avenidas. Trata-se de João Gilberto. Trouxe contribuições valiosas para  a nossa música. É ídolo. Caetano não cansa de homenageá-lo. Junto com outras figuras, como Tom Jobim, sacudiu a poeira de muita coisa e respondeu, com a sua obra, a insatisfação dos críticos. Não é unanimidade. Muitos ressaltam suas manias e perfeccionismos constantes. Insistem no demérito, lembram teses nacionalistas, maltratam a imagem de João. O discurso das raízes ainda possui eco na pós-modernidade. Há quem goste de falar da autenticidade num mundo complexo e múltiplo. Não esticam os cordões da cultura.

João continua cantando. Exige cuidado nas condições de trabalho. Não quer cair nas armadilhas das produções improvisadas, onde vale a agitação da plateia. Não cultiva esses caminhos. Sua voz merece silêncios, para que encante os que o admiram. Não é cantor das multidões, o perseguidor de sucessos e dos programas de domingo da Globo. Sempre tenho seus discos na vitrola, curtindo cada canção. Quando o ouço, lembro-me de Chet Baker e Henri Salvador. O primeiro é conhecido pelos fãs do jazz, teve um vida sofrida, mas é fabuloso nas interpretações. Henri Salvador não é muito lembrado. Sua voz traz sossego, parece um arcanjo anunciando os afetos do mundo. Entrelaça-se com o murmurar de João.

Henri viveu 90 anos.  Nasceu na Guiana Francesa. Não deixe de escutar Dans mon île. São claras as ligações com a bossa nova. Cantou com Caetano e Gil e suas gravações são imperdíveis. A força dos meios de comunicação nos leva a mesmices culturais e abandonamos o passado, em nome das novidades. Perdemos e sepultamos memórias. Aquele apego ao aqui e agora é fatal. Apaga as aventuras do passado e descarta as coisas com facilidade. Henri Salvador e outros ocupam lugar especial que a pressa, em querer o último lançamento, destrói. Há quem assista a remakes, pensando que está se deliciando com projetos ditos originais. É comum, no nosso tempo, ressuscitar cadáveres artísticos e anunciá-los como invenções recentes. O pior é que o mau gosto, às vezes, impera. O diálogo, do presente com o passado, ajuda a perceber as permanências, sem desprezar o exercício da crítica.

Como compreender João sem saber das histórias  e das controvérsias que atravessaram os anos 1950? A memória é balanço entre o lembrar e o esquecer. Não dá para alargar o vazio do tempo. Não podemos ter tudo na cabeça. Somos seletivos. Não podemos, também, cair na isca de que o mercado escraviza as  escolhas. Cadê a resistência, o olhar de detetive, a imaginação flutuando como um tapete mágico ? O que seria da literatura se decretássemos o fim de  Flaubert, Rimbaud, Mário de Andrade, Machado de Assis…? E se na pintura colocássemos nos porões os quadros de Picasso, Coubert, Dali, Van Gogh, Matisse, Da Vinci…? A leitura do tempo é desafio. A linearidade é  máscara perigosa. Para arte, a ideia de que o futuro é sempre promissor não funciona. Se cultiva muitas dúvidas sobre as tramas  do tempo, não custa visitar santo Agostinho. É um conversa animadora, com confissões surpreendentes.

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6 Comments »

 
  • Gleidson Lins disse:

    Para mim, música é como um tônico. Esboço de músico que sou, aprendi a caminhar pelos meandros sonoros de quem costuma fazer música fugindo do lugar comum, das mesmices mercadológicas fúteis. João Gilberto é diferente, dissonante, às vezes etéreo. Oferece possibilidades musicais inimagináveis, dissonâncias perfeitas.

    Abs,
    Gleidson Lins

  • Gleidson

    A música é a grande arte. Isso é o que penso. Refaz e acompanha.
    abs
    antonio paulo

  • Paulo Marcelo disse:

    Sempre gosti de ouvir João , sozinho no escuro da sala de madrugada.
    É incrível a fusão de sua voz com as cordas de seu violão.
    Acho que podemos datar a música populau brasileira , antes de
    João Gilberto e depois de João Gilberto.
    Assisti em 2000 na reabertura do Teatro Santa Isabel um show de João , perfeito, sozinho apenas com um violão e o banquinho
    cativando a todos…….inesquecível……

  • Paulo
    João é uma figura singular. Merece nossa celebração.
    abs
    antonio paulo

  • Juany Nunes disse:

    Fazer uma análise sobre determinadas músicas, é ao mesmo tempo, analisar o autor e seus contextos, há músicas que são eternizadas por que retratam o cotidiano, ou as angústias que todos passam. O que diferencia João, assim como outros músicos é que são artistas no sentido nato, não desenvolvem um projeto com intensões mercadológicas, buscam na música uma forma sincera e descompromissada de tentar expressar a vida, mas como diria Fernando Pessoa: “A vida prejudica a expressão da vida, se eu vivesse um grande amor, nunca o poderia contar”. A música pode transcender quando há uma história envolvida não é a mesma coisa como uma sistematização de sons e melodias, como vemos por aí.A necessidade do “agorismo” faz com que o acesso a um outro tipo de história, da qual não faz parte das necessidades contemporâneas faz com que tesouros com João e tantos outros se percam no tempo. Não podemos deixar que isso aconteça! o/

  • Juany

    A música segue a sensibilidade de cada um. Traz lembranças, quietude ou agitação. Depende muito da emoção.
    abs
    antonio paulo

 

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