A bola de plástico e a lama: o jogo é de todos?

Tudo se entrelaça? Parece . Nada está solto no ar. Há uma comunicação múltipla que prestigia o cosmo. No cotidiano, desenham-se vestígios. A sociedade tem conflitos, ternuras,violências, paixões e desacertos. Nem tudo merece lixo, nem tudo é luxo. Mesmo que a aldeia global fale a linguagem forte do consumo, podemos refletir sobre muita coisa. Ainda…

O futebol traz complexidades. Ela se entretece com a vida cultural. Mexe com tudo. Assanha emoções, agita investimentos, promove diversões. Não precisa ir aos estádios. O  jogo é onipresente. Há espaços, para ele , em toda cidade. Até nos corredores dos prédios, o barulho da bola é identificado. Assusta os mais tensos. Como em um pequeno lugar pode existir tanta vibração?

O lúdico possui suas atrações. Desperdiçá-las é despertencer ao humano. Ando pelas ruas e vejo as crianças brincando. Os carros passam com suas buzinas ameaçadoras. Querem tomar conta de tudo. A bola circula, apesar dos perigos. A esfera tem poderes que a própria razão desconhece. Sua geometria é mágica. Pode ser plástico ou couro, Nike ou Adidas.

E aquelas famosas bolas de meia, de linha, as caixas de papelão ? Qualquer objeto redondo distrai. Faz o tempo vadiar. A geometria se desinventa e uma cartografia astuciosa ensina a ousadia à imaginação. O movimento é o que fascina, como o abraço sensual de dançarinos de tango. O ritmo desinforma os mais sérios.

As cidades se encheram de gente e de construções. Muito cimento armado, vidros, elevadores panorâmicos. As suas ruínas ficam escondidas, para que haja a exaltação ao esplendor. A ordem não consegue, porém, derrubar todas as transgressões. A convivência com o futebol alimenta disciplinas, mas também rebeldias.

As torcidas mostram as contradições. Multidões, gritos, discórdias, batucadas, solidariedades. As ambiguidades são instituintes. Não significam a consagração do caos. O capitalismo as incentiva. Ele sobrevive como pode.  Seus infernos e paraísos não possuem fronteiras nítidas. Os seus anjos não se olham no espelho.

No mundo, todos jogam. Há uns de sorte majestosa. Evitam encruzilhadas. Enfrentam desafios. Contemplam  mitos da sorte. Outros não encaram riscos. Sentem-se desconfortáveis. Lastimam. Confundem azar com falta de sensibilidade.  Submersos na  mediocridade, só suportam  a manchete mínima da página de jornal.  Desconhecem que o gol é o jogo no seu agora divino.

As desigualdades dão resistência aos desmantelos da exploração. Muitos não ligam. Desfazem as cores ou as profecias da derrota. O que é legítimo é a luta. Já vi reviravoltas inconcebíveis. Na vida e no jogo, há moradia de linhas estranhas e  quartos sombrios . Se há a exaltação para o primeiro, há os que, também, se contentam em competir.

A lama suja os pés, o plástico arranha a pele, a dor revela e aquieta abandonos. Os ruídos desadormecem  preguiças. A guerra se estende pelas urbes. Sutis ou agressivas. São astúcias do animal homem. Nas avenidas, se mascaram os rostos com as pinturas da barbárie. Na travessia da palavras, encomenda-se o amém da oração profana, no perdão do ponto final. O vencedor é o dono do jogo ou o artesão da bola?

 

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8 Comments »

 
  • gleyce da paz disse:

    Antônio Paulo,
    adorei os textos desde do momento em que o professor Márcio Lucena os apresentou em sala.Em poucas linhas temos uma quantidade vasta de informações e conteúdo, transmitidos de forma clara e agradável.
    Parabens pelo belo trabalho.
    Gleyce da Paz Neta

  • Daniel Silva disse:

    O futebol tem se metamorfoseado… Dos campos de várzea para as quadras, para os “societys”, para os games.
    Mas, continua enormemente presente na vida diária dos brasileiros.
    Muitos… hoje, inclusive, muitas mulheres.

  • Daniel

    O futebol ganha espaço, mas está muito mediado pelas travessuras do capitalismo.
    Abs e apareça
    antonio paulo

  • Gleyce

    Grato pela boa energia. Aguardo outras visitas. Minha intenção é trazer reflexão, leveza, não ficando na superfície.
    abs
    antonio paulo

  • Sharlene Malta disse:

    Antônio Rezende,

    Seus textos suscitam boas reflexões e fazem bons entrelaces com a realidade social.Realmente comprova que foi dito pelo professor Márcio Lucena!Parabéns!

    Sharlene Malta

  • Marcelo Falcão disse:

    Desde os tempos da Roma antiga, os gladiadores são tão exaltados como os césares, embora sua fama seja bem mais passageira. No século XXI a arena deu lugar ao estádio, mas de certo a emoção que movimenta as torcidas é a mesma que movimentava os cidadãos no coliseu. O que me traz uma grande pergunta: Por que torcemos e vibramos tanto pelo futebol? É pelo esporte com seus altos e baixos, ou é a necessidade que temos de ter heróis e acreditar que sempre podemos mais? Só espero que nossos políticos possam fazer com nosso país o milagre que alguns jogadores fazem com a bola e, sobretudo, não sejam seduzidos pelo dinheiro assim como outros jogadores. Talvez seja uma utopia, mas como na lenda da caixa de Pandora só nos resta a esperança. Parabéns pelo blog.
    Marcelo Falcão

  • Marcelo

    O jogo faz parte da cultura. Vencer, perder, sentir emoções mexem com a vida. No capitalismo, a grana impera.
    abs e grato
    antonio paulo

  • Sharlene

    Escrever é um bom exercício. A gente se liga com mundo.
    abs e grato
    antonio paulo

 

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