A bola no pé e no coração: nostalgias de sempre

As saudades acompanham a nossa vida. A memória seleciona momentos que ficam como uma paisagem na janela. As lembranças têm vida, fazem parte das satisfações cotidianas. É claro que há relações que preferimos nem vê-las como sombras. Mas o  passado é fonte de muita coisa, nunca deve ser desprezado.

Sou canceriano, portanto curto a saudade. Converso sobre ela, com muita transparência e sem acanhamento.  É constante na minha imaginação. Passo horas redesenhando convivências passadas e me delicio com certos episódios e gestos queridos. Não nego o futuro, nem me afogo no tradicional. O que mais aprecio é a simultaneidade dos tempos.

Longe de fixar-me no linear, viajo pelos territórios dos sonhos e das recordações que me tornam mais leves. Na minha memória, o futebol tem um lugar especial. Não é nada recente, coisa de adulto ou mania surgida depois dos vinte anos. Está lá na infância, nas suas falações, nas leituras das revistas mais antigas, na emoção marcante da torcida, nos jogos do Santa.

Esperei sete anos para vibrar com título de campeão da valente cobra coral. Nasci , em 1952, e o Santa só, em 1959 , me deu, com mais consciência, essa alegria. Continuei sendo tricolor, festejei muitos jogos, tive ídolos, com moderação. Sempre ressaltei o coletivo. Não sou de exaltar, sem limites, craques isolados.

Um time entrosado, trocando passes, é melhor do que uma equipe com uma estrela arrogante. Não importam os milhões, nem as manchetes repletas de ilusões, querendo agitar o mercado de humanos. Quem viu aquele time do Santos( Pelé, Zito, Coutinho, Pepe…) pensa diferente e não se engana com as declarações de Felipão ou Dunga, sobre o valor dos resultados ou o fim da arte no futebol.

Não me restringia a ser um torcedor. A  minha rua, apesar do calçamento,  alimentava o espaço de diversão dos nossos finais de semana, com peladas monumentais. Bola de plástico duro, muita gozação, tarde de calor e encontros com os amigos. Era uma reunião insuperável. De noite, o sono vinha, sem cerimônia, e o travesseiro parecia um tapete persa.

Tudo mudou. Não vamos condenar os deslocamentos dos prazeres. A sociedade do espetáculo usufrui, atualmente, de uma soberania imensa. As crianças procuram o virtual dos computadores e frequentam shoppings, esquecendo-se das praças e das praias. As imagens povoam cartazes, salas de aula, muros, televisões, com uma magia embriagadora.

A felicidade se redefine. Ela nunca é total, porém nos atiça com suas provocações. Certas melancolias tiram, às vezes, as cores do mundo.  Todo  cuidado deve ser mantido. É importante acreditar que a luz não se apaga para sempre . Há, porém, instantes de escuridão. Tatear também ensina, aprimora o toque e a intuição.

Com a bola no pé e no coração ficava, no quintal da minha casa , dando chutes para o além. Brincava, suava, olhava o azul do céu e nem sabia que as invenções da cultura trariam travessuras tecnológicas, para a vida , de forma quase absoluta.

Não fujo delas, no entanto não me nego a atravessar o tempo, solidário à nostalgia, enfeitiçado com a beleza do quadro de Portinari. Ainda bem que a vida é múltipla e o labirinto possui saídas. As brincadeiras são outras, mas não foi perdida a vontade de brincar.

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