A busca do encontro e as tensões do imprevisível

Há acontecimentos que abalam as relações sociais de forma mais profunda. Deixam dúvidas, fragmentam esperanças e desconfiam do futuro. A atmosfera pesa. Eles desestabilizam, pois desmontam conceitos e valores repentinamente. As tradições são desmascaradas e a leitura do mundo se enche de vazios. As serenidades se mostram efêmeras. No entanto, não podemos viver, num mundo com tantas diferenças, sem anúncios de descontroles contínuos. Temos que criar fôlego, para seguir adiante,  e combater as práticas violentas que sacrificam o cotidiano.

A memória nos ajuda. As mortes, ocorridas numa escola pública do Rio de Janeiros, fixaram lembranças dolorosas. A grande imprensa já silenciou, porém as famílias vivem suas marcas, aterrorizadas e inseguras. Assassinatos planejados desnudam patologias contemporâneas. Afetividade se costura com farrapos e distrações superficiais. É importante não se perder de vista a história de cada um. Há os que tramam  e os que são surpreendidos com a rapidez e frieza das ações. Ninguém explode agressividade gratuitamente. Os desencontros básicos da vida favorecem ao aumento das perversidades. Elas propagam-se. Servem de exemplo.

Se Breivik detesta os muçulmanos, ele representa também grupos que se calam, mas estão com suas raivas guardadas e aplaudem gestos nazistas. Existe quem não suporte as leis contra a homofobia. Cultivam preconceitos. O mundo se toca, não assiste passivamente à sucessão de ataques a inocentes. A história não se afasta dos conflitos, eles têm suas permanências e seus defensores. Portanto, a sociedade se instala no meio das desarmonias. Articulam-se desejos de conciliação, as utopias são frágeis e o inconformismo possui vários registros. Por isso , a política passa por tantas negociações e termina caindo na valorização do reino da compra e venda.

Não é , sem espanto, que o inesperado atiça os noticiários, sacode os acomodados e faz esquecer os amores da novela das 9. A imprevisibilidade traz emoções fortes, mexe com o inconsciente, atualiza fatos do passado, arranha as emoções, quando estampa genocídios, desastres, chamando a atenção para os descaminhos da sociabilidade. Há pessoas que não condenam a violência, na perspectiva em que ela tem aparecido. Ela rasga pactos e alarga medos. As análises restringem-se, muitas vezes, ao quantitativo, não penetra na observação dos  desencantos que o sistema fabrica com suas vitrines e promessas de paraísos ilusórios.

Apesar de tudo, desistir dos sonhos empobrece a imaginação. A cultura se mantém, porque existe quem não sossegue e transgrida em busca de alternativas, com olhar crítico e suspeitando dos confortos passageiros. O tempo nos agonia, com sua travessias, onde anseios e repetições se cruzam e dialogam. Nem sempre, as dificuldades são amenizadas. A história movimenta-se, desloca-se, mesmo que adormeçamos acalentados por inércias depressivas. Ela é uma construção coletiva, multiplica-se quando expandimos a capacidade de invenção. O desenho de cada um é singular, contudo usa linhas e geometrias dos outros. Tudo isso parece fácil de escrever e escutar. Na prática, é a bolsa que seduz e estremece. Não custa, no entanto, procurar compreender o mundo. É uma de  forma de dividir e sentir que a solidão é o instante e não a definição da vida.

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2 Comments »

 
  • Julio Cesar Silva disse:

    As intolerâncias fazem parte do cotidiano humano, mesmo ser que hoje se gaba de ter alcançado tamanha tecnologia e modernidade. Os conceitos de denegeração racial, étnica, de classe, são antigos, formulados muitas vezes dentro das universidades por respeitáveis doutos, e que ganharam alcunhas mais populares, numa maneira de justificar atrocidades. este tipo de violência não é admissível, mas é tolerável um debate de ideias, num ambiente democrático. Não se pode negar a discussão, mas não se pode tolerar agressões gratuitas e fingir que nada aconteceu.

  • Júlio

    A diversidade de comportamento compõe a cultura, mas há sempre disputas pelo poder de construir verdades. Isso faz parte do cotidiano.
    abs
    antonio paulo

 

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