A cicatriz no coração e as dores vadias do mundo

 

Sheilla está triste. Sem muita concentração no jogo, sem aquela alegria e sagacidade. Pesou a perda do título para as russas. Foi uma batalha. Parecia que o verde-amarelo ia prevalecer, porém a derrota chegou silenciosamente. Falo de Sheilla, porque a vi jogar, nessa semana, e observei seu jeito deslocado. Pode ser exagero. Simpatizo muito com a maneira gótica dela se movimentar. Transmite energia e leveza. Cuida do coletivo e é imprevisível.

Não cabe focar no individual, nem culpar ninguém. A citação de Sheila é uma homenagem, nada contra sua capacidade de inventar. A vida tem amarguras inesperadas. Os sentimentos desafiam cálculos. Por isso, é quase impossível contar as suas história. Exige experiência, sem desprezar a fragilidade que todos possuem quando são abalados pelos desencontros. São cicatrizes que riscam o coração. Misturam-se com outros desacertos e passam como travessias. O tempo esconde o mistério da extensão das dores, porém o humano não consegue se livrar das armadilhas das frustrações.

O esporte é uma representação da vida, com todas as suas artes e astúcias. Possui regras, não menospreza renovações, mesmo que lentas e polêmicas. Por isso, sua pedagogia é permanente. Sentir a perda, quando a vitória era o espelho brilhante, distrai e deprime. Quem aprende, segue adiante. Não liga para a extensão do abismo e pula as pedras que caem em cima dos atalhos. Outros radicalizam. Desistem. Renunciam. Apagam os desenhos da memória e se cobrem com mantos escuros. Não acreditam na reviravolta e sucumbem.

Os sentimentos aprofundam sensibilidades e relativizam os discursos positivistas. Estão mais próximos da comunhão e da fraternidade. Não casam com os utilitarismo que anulam feriados e fazem do mundo um mercado ambicioso. Cadê as referências me perguntou um motorista de táxi? Definiu muita coisa num trajeto curto, onde os carros reinavam. Estava desgostoso e incrédulo. Compactuei com as suas opiniões. Foi mais longe. Perguntou pela ética, quando, por coincidência, passávamos pelo Hiper Bom-Preço e pelo Shopping Plaza. É danado, mas não dá para esquecer os interesses tão marcados pela volúpia do consumo.

A trilhas limpas e sinalizadas não se constituem sempre. Sheila experimenta as variáveis que compõem as sinuosidades. Talvez, nem  analise a multiplicidade da sua sinfonia esportiva. O investimento foi incomensurável, mas o jogo se reveste de fatalidades. Coisas de esfinges e profetas. Não alimenta, com suas surpresas, a ideia de uma controle definitivo. A cultura nos atiça para não cair nas simplicações. As palavras não significam, apenas, o que se esgota no dicionário. Octavio Paz alertava para a dimensão simbólica, tão enebriante.

A complexidade é campo repleto de teorias. Elas se enriquecem com as dúvidas. Édipo redefine-se a cada momento. Quem se inquieta, atravessa os horizontes sem nem olhar para suas cores. As dores do mundo mergulham na solidão e disfarçam fracassos. Longe estamos de um unidade no sentir. As veias continuam abertas não só na América Latina, recordando-se do título do livro de Eduardo Galeano. O vôlei brasileiro não fechou para balanço. Sheilla e suas companheiras abrirão muitas portas, com a graça das suas danças velozes.

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