A cidade na sua agonia cotidiana e veloz

          

O tempo veloz balança os conceitos. Pensar o mundo virou uma dificuldade constante. Não é possível fortalecer as relações para  que elas mergulhem em profundidades e sintam-se soltas. A incerteza atua, segue uma trilha acidentada. Não estamos querendo afirmar que há épocas cheias de harmonia ou que estamos no pior dos mundos. Assusta-nos a novidade que parece surgir do nada. Ela cria ilusões, magias sufocantes, faz da máquina um soberano incontrolável. O medo se espalha, porque as identidades são leves, como plumas no ar, sem direção. Há, sempre, alguém afirmando que o tempo se vai, lastimando as faltas, mas seduzido pelas descobertas e ousadias tecnológicas.

A cidade é a nossa moradia. Por ela passam todas essa agonias e deslumbramento. A medida é, muitas vezes, a quantidade, numa disputa que revela um perigoso processo bem articulado de infantilização. Contabilizamos prédios, ruas, carros, motos e festejamos desenvolvimentos. Não vemos a poluição, as praças abandonadas, os políticos contado seus votos nas reuniões sociais, a educação invadida por programas televisivos vazios. A crise de valores é séria, nem Nietzsche dá conta de analisar tanto desmantelo. Ninguém é inocente, por mais que se queira estimular ingenuidades. Os valores não existem acidentalmente. Eles são construídos, trazem choques, confrontos entre os poderes.

A cidade renova-se. Não se afaste dela por muitos dias. A surpresa acompanhará o retorno. A especulação imobiliária promove-se com uma habilidade envolvente. Garante empregos, paraísos pós-modernos, shoppings fabulosos. E as ruínas que ela carrega em cada investida? Muda paisagens, derruba casas, multiplica a vizinhança, ocupa lugares que poderiam ser públicos, de convivência, para amenizar as tensões da vida. A cidade se despedaça e nem percebe. Não há como ossificá-la, nega suas travessias, suas marcas. No entanto, a moradia deve ter aconchego e não, apenas, cimento armado e vidros escuros.

O equilíbrio é instável, mas se tenta andar com os pés no chão. Achar que modernizar é a saída, talvez, seja um exagero. A história possui ritmos. Não aparecem à toa. Dizem dos sonhos, dos projetos, das tiranias. Misturam-se. Se tudo se resume ao imediato não há tempo para escutar, curtir, relaxar. O mundo não é fixo. Convive com deslocamentos. Eles têm um conteúdo pedagógico. Se há como aprender de que maneira reconheceremos os outros ou saberemos o tamanho da fronteira que configura cada passagem da vida? Ficar à deriva é uma ameaça. O oceano é vasto, não sustenta calmaria, não aprisiona ondas.

Portanto, as transformações urbanas mais rompem com o sossego do asseguram os significados que a coletividade ganharia se buscasse ritmos e não a cumulação de grana que disfarça dissabores e narcisismos. As arquiteturas se repetem para reforçar custos e benefícios para quem as controla. A especulação passeia pelo simulacro, com cinismos variados. O futuro vem por aí, não adianta temê-lo, pois o importante é firmar o aqui e o agora. A cidade se desencontra. Perde seus espelhos. Não descansa. Os ruídos das máquinas fermentam as arrogâncias, avaliam a excelência dos confortos eletrônicos. A sociabilidade, porém, se enfraquece, quando o individualismo é cortejado como valor.

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4 Comments »

 
  • Aline Lopes disse:

    Com certeza, a urbanização tem crescido de forma rápida, e o maior problema é que nem sempre paramos para pensar nas conseqüências desse processo de crescimento. Talvez, daqui a alguns anos quando não existirem praças ou áreas verdes naturais para que nossas futuras gerações possam brincar, ou relaxar e aproveitar o natural, então tentaremos mudar o fato de tudo está se tornando projeto urbano, concretado e cheio de individualismo.
    Ótima reflexão!

  • Aline

    Grato. Estamos desperdiçando muita coisa. Somos levados por urgências, por lucros. É um perigo, com certeza. Falta senso crítico, sobra individualismo.
    abs
    antonio

  • Jonas dos Santos disse:

    Falta senso crítico e sentimento coletivo.
    Vivemos tempos estranhos, onde todos buscam uma “salvação”, onde todos se refugiam em seus cantinhos e em seus aparelhos modernos, como se quisessem se distanciar de tudo e todos.
    Não existe mais conversa/diálogo, o que existe é estresse/brigas.
    Um individualismo assombroso.

  • Jonas

    É isso, muito individualismo e não de cuidado com o outro.
    abs
    antonio

 

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