A cobra coral fuma e a multidão tricolor se assanha

Mover-se é um dos mandamentos da vida. Ficar estático, esperando que o tempo passe, traz preguiça e desmantelos. A torcida do Santa Cruz gosta do movimento e do desafio. Seu time não consegue tranquilizá-la. É de uma inconstância fora do comum. Está na série D, busca contratações desconhecidas, cria suspenses, mas nada que modifique a instabilidade.

Os tricolores não desanimam. No domigo, foram ao Arrudão com a alegria de um carnaval. Mais de cinquenta mil pessoas. Parecia a população de uma cidade, numa assembleia política decisiva. O adversário pouco interessava. O importante era começar bem. Não faltaram gritos, músicas, dizeres. O Recife foi possuído pelos admiradores da cobra coral.

A partida tirou o fôlego de muita gente. O adversário vinha de Sobral, Ceará, e se mostrou audaz. Não se intimidou. Marcou dois gols na frente. O mundo das três cores parecia desmoronar. Quem adivinharia tão desastroso insucesso? O Guarany queria estragar a festa, entristecer a multidão e sair de Pernambuco com uma vitória inédita.

E o Santa? Brasão não articulava nada. Como disse, não era seu dia. Abusou de ficar impedido. Recebeu vaias. Muita conversa não resolve as necessidades da equipe. Brasão precisa acordar ou mesmo ficar no banco de reservas. Talvez, um pequeno susto o traga para luta, com disposição. Ele que é autor de muitas promessas.

A defesa não segurava o ímpeto do adversário.  Tomou dois gols contra, de maneira infantil. Tudo acontece, mas a reação é o caminho de quem tem coragem. O Santa partiu para reverter a situação. No primeiro tempo, o placar mudou. No entanto, a vitória de 3×2 balançava as esperanças da torcida. O time não oferecia confiança.

Na segunda fase, o Guarany não recuou. Foi punido com mais um gol do tricolor. Era o placar ideal. Mais uma vez as coisas se complicaram, quando pintava um quadro de perspectivas de classificação. O time de Sobral diminuiu a contagem, para revolta do técnico Givanildo. Há algo que não se firma nas aventuras do Santa. O entusiasmo, de tanta energia fluindo, parece amedrontar a equipe e tumultuar seu equilíbrio.

Depois do evento, foi interessante ver a urbe, com milhares de pessoas, em busca de transportes, voltando para suas casas. Quase todos uniformizados, com bandeiras, reunindo familiares, enfrentando o precário trânsito. A paixão remove dificuldades, acede desejos de festa e frustra-se com os descuidos.

A cobra coral não afirmou a trilha anunciada. A dúvida questiona o valor do que dizem seus líderes, corta a vontade de curtir outro domingo no Arrudão. Quem ver, no futebol, um momento de superação de tantos contrapontos do cotidiano, não compreende os porquês de vacilações contínuas. A ressaca da amargura e  da incerteza tensiona.

É sempre possível lembrar o pragmatismo do mundo atual. O lugar da diversão e os sabores da alegria ficam condicionados às malícias do mercado da bola. E a torcida permanece na ameaça do  naufrágio, numa embarcação sem direção definida? O mundo de um futuro vazio pode acomodar o fogo das multidões. Estaria decretada a falência geral.

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

4 Comments »

 
  • pedro pachêco disse:

    A tão preciosa, admirada, respeitada e apaixonada torcida do Santa Cruz deu mais uma prova de que no futebol ainda existe um pequeno espaço para o abstrato contrariar a lógica do mercado. O futebol vem perdendo muito e ainda há muito a perder, pois as relações existentes no mundo da bola são fundamentalmente movidas por interesses financeiros, que abdicam e afastam o amor e o imprevisível do esporte bretão. No entanto ainda existem fendas onde o verdadeiro sentido do futebol é exposto, e uma dessas sem dúvida alguma, está no amor e paixão incondiconal que a torcida mais apaixonada do Brasil tem pelo seu clube, o Santa Cruz.
    Infelizmente não estive no Arruda no Domingo, pois havia marcado uma viagem para Bahia antecipadamente. Todavia estava devidamente tranjando o sagrado manto coral santacruzense das bandas do arruda nos dias em que estava na terra de Jorge Amado, e fui parado diversas vezes por desconhecidos para me dá os parabéns, comentar e trocar idéias sobre a tão instigante tarefa de torcer pelo Santa Cruz. As pessoas queriam entender como pode um clube da grandeza do Santinha está afundado a algum tempo e a torcida não abondonar de modo algum. E as conclusões na conversas rápidas eram quase que unânimes, o futebol ainda nos da brechas para tal sentimento verdadeiro e limpo, porém esses espaços se esvaziam a cada dia que passa. Um pena o futebol está se tornando um braço do sistema capitalista, assim como qualquer outro.

  • Pedro

    Gosto de ver sua sensatez. O Santa merecia melhor sorte. O futebol é uma roda-gigante. Não adianta negar os interesses que, às vezes, perturbam a boa vontade dos torcedores. Esse sentimento está muito ameaçado e tem valor de troca comercial para os ambiciosos, mas não devemos entrar nesse mundo. A crítica é companheira. Sempre.
    Abs e grato pelo diálogo
    antonio paulo

  • Flávio disse:

    Tudo bem, reconheço que quando a coisa é da ordem da paixão, não adianta querer explicar. Mas porra, eu queria ao menos compreender… Como pode um negócio desses? A torcida do Santa deveria virar estudo de caso. A imprensa esportiva adora falar da torcida do Flamengo, do Corinthians, mas, que nada, torcida é isso.

    É feito aquele poema do João Cabral (O torcedor do América F. C.):

    O desábito de vencer
    não cria o calo da vitória;
    não dá à vitória o fio cego
    nem lhe cansa as molas nervosas.
    Guarda-a sem mofo: coisa fresca,
    pele sensível, núbil, nova,
    ácida à língua qual cajá,
    salto do sol no Cais da Aurora.

    Enfim, taí, nessas matemáticas oito linhas, um tratado a explicar a força que move essa multidão que não cansa de se alimentar dessa expectativa de prazer. Que, como sabem os bons amantes, é o que mantém a paixão acesa.

    Ou, como diria o canalha que mora aqui do lado, o que sustenta essa torcida é o encanto que ela tem por ela mesma. Narcisismo puro. Sim, porque o time é uma bosta sem-fim!!!

  • Flávio

    Realmente, parece que o sofrimento estimula. Acontece na vida também.
    abs e saudades
    antonio

 

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>