A contemplação do tempo e a incompletude das despedidas

O corpo silencia, esconde-se dos outros corpos, mas não consegue fugir das marcas do tempo. São sinais, significados, envolvimentos. O passado tem múltiplas representações. Não podemos captá-las como queríamos. Construímos as lembranças sem linearidades. Há afetos que parecem desaparecidos e retornam para firmar suas despedidas. É difícil a hermenêuticas dos sentimentos, conjugar verbos envelhecidos e olhar permanências persistentes. Nosso controle sobre o vivido é desafio. A memória não possui uma definição que nos aquiete. Estamos sempre penduradas em trapézios, desenhando sonhos e pesadelos, sem a conhecer a medida que encerra a vida. Nem por isso, as ousadias se diluem. Não dá para costurar as narrativas sem elas.

Os conceitos mudam. Os românticos  desconfiavam da razão iluminista, atiçavam os amores e os sentidos. Os santos medievais lamentavam o pecado, buscavam a salvação, nem todos se miravam em Francisco de Assis. As cenas de cada momento não consagram os mesmos suspiros e penitências. Nem por isso, o passado não se apaga de vez. Há brilhos que cegam não importam o tamanho. A convivência é um largo espaço de ressentimentos e perdões sem datas definidas. Talvez, a vida valha pelas surpresas ou pelas saudades que acumulamos. Há dúvidas e não são poucas.

Quem não contempla suas histórias, confia no acaso, não se atordoa com os julgamentos. Eles são incompletos, balançam na incerteza dos valores. Organizar as histórias, entrelaçar seus descasos, faz parte da busca interminável de quem não anula o mistério. Se tudo é um grande jogo, quem formulou sua regras e rir dos seus escorregões? Penso que tudo está preso na terra molhada, cheia de vestígio das argilas primitivas e  sobram cogitações que nunca se findam. As metáforas nos salvam, porque trazem transcendências. No entanto, o efêmero é contagiante e ocupa os labirintos mais comuns.

Portanto, estendemos acontecimentos, inventamos períodos, escrevemos palavras que não se esgotam e não temos as cenas antecipadas do juízo final. Somos profetas. Profecia e verdade casam-se. São acrobacias. Com viver sem os circos. Não interessam suas existências materiais. A fantasia não é fabricação de psicanalistas confusos. Não sabemos de quase nada, porém, muitas vezes, subimos ao Olimpo e festejamos as astúcias dos mitos. A curva é o berço do embalo que nos acolhe. Nada se vai para sempre, nem as aparências enganos. O importante é não  namorar com uma passividade pálida. O movimento é o ânimo, mesmo que dispense os ruídos.

Os historiadores oficiais e acadêmicos lutam para sistematizar tantos desacertos. As metodologias desfilam pelos livros, causam intrigas, não afugentam as arrogâncias. Sócrates cultivava a humildades, Adam Smith defendia o livre comércio, Comte encantava-se com o progresso, Picasso brincava com as formas, os imperialistas assanham as violências. Os autores são, atualmente, outros. Restam, no entanto, perfumes do que foi vivido, os lixos que incomodam o ressurgimento de algum otimismo. O tempo não para. Não é o senhor da eternidade, mas seu contraponto. O corpo padece com sua velocidade. A história conversa com o corpo, sem deixar de contemplar o tempo e encurta a história.

 

 

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4 Comments »

 
  • André Lins de Albuquerque Lima disse:

    Eu entendi tão pouco Mas sinto que essa linguagem não é daqui, deste mundo. Aprendi a compreender as coisas sem o seu significado habitual. Entendê-las pela superfície dos símbolos; degustando-os. O sarcófago – de madeira – assume a forma de um corpo humano recostado a um dos espelhos do divã: é como se a morte fosse ao divã,e que este é o destino traçado, a priori: como se a vida já fosse suicida – aliás, vocês querem meu suicídio, não é? O suicídio, a propósito, é uma precipitação tal como a chuva. Mas,voltemos ao divã… Às vezes, eu fico pensando – momento raro! -, eu não sei de nada. Kafka é ao inverso a mesma coisa. Bom… Eu não sei de porra nenhuma

  • André Lins de Albuquerque Lima disse:

    Sim. Mas,eu ainda queria dizer uma coisa: a beleza do caixão, dos pés do divã, do divã, do manto saindo pelas frestas… o pedestal… É tudo tão bonito, tão esteticamente harmonioso… Isso tudo não exerce uma influência no que concebemos como significado? Não há aí uma significância idiossincrática? Não seriam elementos fetichistas? por exemplo, p’ra mim a cena ficaria perfeita, se houvesse um corpo nu, feminino, branco e magro ali, que tivesse uma necessidade visceral de outro corpo, masculino, que, visceral e reciprocamente, necessitasse reciprocamente daquele primeiro corpo, ambos tentando saciar sua sede de um por outro, infinda e sem razão, sem nenhuma possibilidade de justificativas racionais para essa insaciabilidade, mas como um conto de fadas fosse algo idílico, lírico e romântico, mas de um romantismo devastador, de uma passionalidade incorrigível, louca, incompreensível e absolutamente animal, mas com uma certa nostalgia humana

  • André

    As estéticas trazem fetiches, mesmo quando quebram a harmonia. Cada um viaja na sua fantasia. A cultura é mesmo múltipla e o racional não dá conta de tudo Gostei de suas reflexões.O humano é imenso, passível de muitas interpretações.
    abs
    antonio

  • André

    Você coloca sua visão, seus sentimentos. Eles dizem muito. Não há um olhar único, nem ninguém deve assumir a verdade única.Há muitos sentidos que articulamos e não satisfazem , muitas vezes, aos olhares de outras pessoas.Faz parte da complexidade.
    abs
    antonio

 

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