A Dama de Ferro: outros olhares e imagens

O sucesso do filme A Dama de Ferro é indiscutível. O desempenho de Meryl Streep é cativante. Não é novidade. Ela é uma atriz privilegiada. Emociona e nos chama atenção. Não desperdiça talento. Nunca me esqueço d’ A Escolha de Sofia. Ela foi extraordinária, consagrou-se. Quem não conhece este filme está perdendo muito da sensibilidade de Streep. Os grandes artistas garantem, muitas vezes, o volume da bilheteria. Há um forte sistema de divulgação que atua na sociedade globalizada. Parece até um ritual de convocação. Consumir é viver. Nada escapa: a diversão, o sabão em pó, a literatura, o pão integral.

Seguindo as ordens das aventuras contemporâneas, fui assistir ao badalado espetáculo, aproveitando a folga carnavalesca. Não curto as salas dos shoppings. O cheiro de pipoca é assustador. O costume de casa vai à praça, com dizem os mais velhos. O cinema tem parceria com a TV. Se a soberana das imagens do lar nos atrai para petiscos, a sala de cinema também possui espaço na gastronomia superficial. Estava curioso, sobretudo em contemplar, mais uma vez, as façanhas de Meryl. Não me liguei na direção, nem tampouco exigi uma sequência histórica perfeita e crítica. Não deixei a leveza em casa.

Acertei. A atriz é o grande foco. A trama do filme é centrada na sua atuação. Ela não perde uma cena. Deslumbra. Diante disso, me preocupei em fazer  outra leitura do que se passava na tela. Sabia da dureza de Margareth, a primeira-ministra, com comportamentos conservadores e neoliberais. Foi uma época marcante, de muita polêmica e assanhamentos políticos. Penso a política como lugar de busca da solidariedade. Difícil, mas possível. Portanto, minhas discordâncias com as estratégias capitalistas são claras. Quando a opressão ganha fôlego, a situação se complica para os que mais precisam.

Visualizei a primeira-ministra vivendo dramas afetivos que assombraram sua velhice. Tinha paixão pela política, envolveu-se inteiramente. Elegia as atitudes racionais, considerava-se portadora de verdades que salvariam o povo inglês. Enfrentou agressões, rebeldias, mas não desistiu. Viveu o último limite, mantendo altivez, convicta das suas medidas. Foi uma permanência no poder, noticiada, exaustivamente, pela imprensa. Margareth tornou-se um símbolo, tinha admiradores radicais e circulava entre os principais líderes da época, com desenvoltura impressionante. As turbulências ameaçaram trabalhadores, dividiram os partidos, provocaram violências. Ela conviveu com glórias e desesperos, contudo mostrava autonomia e duvidava de quem lhe importunasse com os contrapontos. Nada, porém, é para sempre.

Margareth sofreu muito com os fantasmas da vida. Dedicou-se à política com coragem, não há com negar. O equilíbrio da balança dos sentimentos não se fixou. Não conviveu com a família, perdeu momentos afetivos, não acompanhou as idas e vindas dos filhos e do marido. O filme traz esses tormentos, acrescidos pelos desencantos da saúde. O exemplo da dama de ferro não é único, anuncia a complexidade do estar no mundo. A instabilidade não é exclusiva de perturbações doentias. As escolhas profissionais também desmantelam, fazem o coração bater com ritmos desiguais.O afeto costura seus esconderijos e ardis. Os descuidos não ficam soltos.

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