A difícil arrumação dos significados das culturas

A população mundial convive com mudanças e permanências. Há uma aproximação construída pelos meios de comunicação, acompanhada pela globalização dos interesses econômicos. Vemos imagens exóticas, em segundos, e ficamos impressionados. Não costumamos absorver bem as diferenças culturais. Será que existe o exotismo? Não é mais um artifício para especular sobre as etnias e suas possibilidades de superar ordens tradicionais? Conhecer, superficialmente, como os outros comportam-se faz parte do cotidiano. As informações são tantas que não conseguimos fugir das conversas e mergulhar em versões confusas, em verdades passageiras, em lutas que não nos afetam. A quantidade de abaixo-assinado que circula nas redes sociais é alarmante. Revela solidariedade, mas também complexidades pouco analisadas.

Os significados de cada cultura trazem dissidências internas. Quantas interpretações existem da Bíblia, do Alcorão, do surgimento dos mitos na fantasia dos povos? Não se tratam, apenas, de discordâncias distantes, de caminhos que afastam o Ocidente do Oriente. No mesmo bairro, convivem hábitos que se chocam e podem provocar cenas de violência. Temos que buscar consensos democráticos, pois o esfacelamento do social produz transtornos, quebra o mínimo de harmonia necessária para fazer o mundo girar. Nem é bom imaginar  que o fio que nos segura é fino e transparente.

Viajando pelas histórias, olhamos as diversas formas de culturas, desde os tempos mais remotos. Como os caldeus conseguiram conviver com os egípcios, os romanos conectaram-se com os gregos, os europeus entenderam as crenças asiáticas? Não estacionemos, na nossa época, deslumbrados como as contradições contemporâneas, com os enredos dos paradoxos atuais, com os ressentimentos persistentes e agressivos. Toda rede de relacionamento sofre instabilidades. Não importa as invenções de regras ou a sofisticação das máquinas. Há ordens que incomodam e transgressões que nada reformulam. O movimento da gangorra desconcerta, não se desenha em linha reta. Exibe sinuosidades.

 Procurar arrumar a sociedade é sempre atravessar desafios. Há promessas de salvações, de estímulos para a paz, de convergências. Não é o que avistamos. As notícias desmentem sintonias. Nem tudo é conflito, contudo os estranhamentos não se acomodam. Muitas vezes, nos sentimos exilados na nossa própria cultura. Ocorre o perigo dos acenos totalitários que exaltam unidades e nacionalismos luminosos. Hannah Arendt escreveu críticas instigantes sobre os danos causados pelos governos autoritários. Fechar a polêmica para consagrar o discurso dos vencedores não transforma. Cria disciplinas policiais e escravidões. Melhor é procurar fluir com as diferenças, enfrentando o inesperado.

A história não requer garantias de que as culturas humanas se conciliarão. Nem por isso, as utopias devem ser esquecidas e o conformismo deve dominar as ações. Os deslocamentos atiçam recordações, alimentam criatividades. O pior é a pressa em definir situações pela simples e tirana agonia de acumular grana. O tempo corre,  desandamos, traçamos, contudo, cartografias. Nada de ressaltar inocências ou pecados, viver sob o jugo de profecias que simulam  o jogo do sagrado. As culturas existem, estão atrás de respostas, não desconhecem os perigos. As diferenças atraem diálogos, não só ódios e desmantelos. O risco não anula a história.

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