A educação e a saúde no fôlego da agonia

Muitas mudanças aconteceram com sinais de que as relações sociais poderiam ganhar mais solidariedade. Houve mesmo melhorias em índices de desenvolvimento e não faltaram os discursos de celebração. O Brasil virou notícia, diziam os otimistas de plantão. O caminho havia sido aberto, com alianças política amplas e escorregadias. Não era tudo tão sossegado como parecia. Muitas negociações, denúncias constantes, trocas de acusações deixaram a atmosfera nublada. Nem tudo se concretizou como as esperanças exaltavam. Há buracos e desconfianças permanentes. Na política, residem muitas queixas. O consumo aumentou, mas não firmou qualidade de vida significativa. Funciona cercado de ilusões, traz hierarquias e projeções de acirradas competições. Portanto, não perder o olhar atento exige crítica e reconhecimento dos desacertos.

Convivemos com frequentes greves na educação. Não são só os professores do ensino público que reclamam das condições de trabalho. O protesto é geral, atrai todos que lidam com educação. Ele se repete, faz parte do calendário, mostrando que a prioridade se encontra deslocada, sintonizada nos lucros financeiros, na disputa por cargos no governo. Os compromissos com os eleitores se esfumaçam, transformam-se em palavras vazias. As greves são longas, porque não tocam, apenas, nas questões salariais. As falhas se multiplicam. Há desmantelos cotidianos que atravessam os ânimos, provocam apatias.

A educação não se resume à acumulação de conteúdos programáticos ou a criação de estratégias para o sucesso nos vestibulares. Educação e política deveriam andar juntas na socialização dos benefícios. No entanto, a festa é prometer tecnologias. As salas de aula se mantêm com pouco espaço, os profissionais correm para conseguir o mínimo de decência e os esvaziamentos das licenciaturas não diminuem. Faltam docentes em muitas áreas ou a formação apressada desconsidera referências éticas fundamentais. Nas greves, discute-se pouco, na imprensa, o tamanho dos desconfortos. A conversa se arrasta.

As perdas são grandes. Revelam que o otimismo tem limites. Não adianta ornamentar as cidades, sem se preservar condições de vida. Pouco serve a divulgação de modelos vitoriosos, se no cotidiano as questões são outras. O atendimento na saúde é caótico, pois há carência de médicos e remédios. Há um descompasso que merece uma avaliação profunda, mas a luta para impor  poderes é gigantesca, recuperando práticas conservadoras. A modernização não assegura a democracia, nos enche de celulares e TVs, porém não consegue apagar as epidemias de dengue. Contradições visíveis que se estendem e esquentam as violências urbanas, desmontam projetos que poderiam construir convivências mais próximas.

As profecias desenvolvimentistas fazem parte das cantilenas da modernidade. Misturam-se com as utopias, atiçam confusões, optam pela quantidade até na construção dos conhecimentos. Estamos fabricando ilhas de produtivismo, concentrando privilégios, multiplicando tensões. Se os territórios da saúde e da educação se envolvem com uma mesquinhez que força a manutenção de greves e paralisações, como acreditar que a sociedade se encontrou com seu caminho menos turbulento, mais sossegado? Maquiavel continua com seus seguidores. É assustador como se buscam as vaidades e se despreza a memória. Quem se segura na quietude como tantas máscaras expostas nas vitrines das relações socais?

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