A escravidão tem disfarces e muda seus cenários

O cristianismo trouxe princípios poderosos para abalar a escravidão. Conseguiu alguns êxitos. Era uma época de muita repressão. No entanto, com as alianças, com o poder político, vem a afirmação do catolicismo. Outras caminhadas. A religião se torna oficial, perde aquela rebeldia ameaçadora. As articulações diminuem a força dos ideais de igualdade e a mistura dilui a ética, tão promissora dos primeiros tempos. A história passa, é inquietação. As relações sociais pedem transformações e acusam as tradições. Querem visualizar outras dimensões e refazer o cotidiano.

Não acredito no inexorável avanço do progresso. Desconfio de que as mudanças atinjam , sempre, qualidade e signifiquem vitórias da cultura. As revoluções mostram que há descontroles e negatividades. O escravismo sobrevive. Chegou, nos tempos modernos, mesmo com as críticas de muitos intelectuais. O comércio de escravos foi importante para acumulação de capitais. A Inglaterra obteve, com ele, lucros exorbitantes e construiu seu domínio imperialista. Depois reclamou dos outros países e usou a diplomacia para adquirir mais riquezas, condenando quem defendia a escravidão.

O Brasil viveu a colonização, não sem luta. O sossego político não acontece, em situações de violência e desigualdade. O liberalismo inspirou as independências , nas Américas, mas teve dificuldades para livrá-las do escravismo. Parecia uma imensa contradição. O capitalismo se consolidando e a cidadania distante, esquecida das reflexões de Rousseau e de Voltaire. Não há surpresas nessas manobras históricas. A exploração permanece, contrariando discursos libertários.

Hoje, estamos no século XXI. Imaginamos utopias extraordinárias do passado. Fomos além das transcendências religiosas, pois supomos poder acabar com os desmantelos gerais e fundar um novo mundo. Infelizmente, os insucessos do século XX deixaram a sociedade atônita. Guerras, bombas atômicas, agressões contínuas, tanta coisa desfigurada que o otimismo se foi. A sociedade aprofundou seu materialismo e se sofisticou na forma de manter a exploração. Não alcançamos a ética que o cristianismo apontava, nem tampouco extinguimos, de vez, a escravidão.

A humanidade não se desfez. O que existe são manipulações crescentes e utilitarismos que inutilizam os afetos. O capitalismo não curte generosidades. Mantém a concentração de riquezas, sem culpabilidade. A escravidão e suas trajetórias. Quem pensa na sua morte, comete equívoco. O mercado da bola está aí para desviar qualquer previsão salvadora. Acompanhem as negociações para contratar jogadores de qualquer esporte destacado. Tudo se veste com as roupas das mercadorias.

O controvertido Ronaldinho está, de novo, na berlinda.Não só ele. Nesse período, o movimento é incessante. Na China, a fabricação de objetos desafia a relação custo-benefício. Não podemos saber qual o destino da força de trabalho empenhada na produção de mercadorias baratas, para o mundo inteiro. Em algumas regiões do Brasil, há denúncias que angustiam os defensores dos direitos humanos.

A coisificação é uma forma de assegurar a continuidade do escravismo. Ela desumaniza. Exemplos sobram. Recordem-se  daquela propaganda da calça azul e desbotada. Os programas de televisão focalizam situações que reforçam a agilidade do mercado. Pior é vê-lo, como um paraíso,  festejado por muitos. Esquecem-se de que as palavras reinventam moradias. Nelas cabem cinismos e risos bizarros.

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4 Comments »

 
  • Flávia Campos disse:

    Antônio, você como sempre, colocando o mundo que criamos e recriamos constantemente “sob suspeita”.
    Acho que só consegue essa façanha (ou seria astúcia?) quem sabe:
    […]
    “Sentir tudo de todas as maneiras,
    Viver tudo de todos os lados,
    Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
    Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
    Num só momento difuso, profuso, complexo e longínquo”.
    […] (Fernando Pessoa, Passagem das Horas).
    Bjs
    Flávia

  • Flávia

    A suspeita é a base da critica.
    bjs
    antonio

  • Tenho que admitir que achei seu blog excelente, pois seus posts são sempre muito bem elaborados. Sem voltas, você foi certo ao X da questão e sanou todas minhas suspeitas sobre esse tópicos. Persista com o ótimo trabalho na publicação desse blog!

  • Linwood

    Agradeço a força e espero tê-lo sempre presente, colaborando e conversando com todos.
    abs
    antonio paulo

 

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