A escrita, o ritmo, a preguiça, o mundo, a solidão

Caetano canta como poucos. Tenho seus discos de várias épocas. Acompanhei sua trajetória, desde os tempos dos festivais de música e da censura feroz dos governos militares. Caetano foi para Inglaterra, liderou o movimento tropicalista, fez e faz composições maravilhosas. É irmão de Maria Betânia. Agora, enquanto escrevo, escuto um disco de 1971, onde há uma interpretação sedutora de Asa Branca. Viajar nesses barcos é conversar, longamente, com a vida. Nem haveria espaço para contar tantas histórias dos meus quase vinte anos. A música tem feitiço, embala sonhos e dores, envolve instantes e desenha memória. No momento, é Caetano que me traz recordações, com nostalgias fortes e afetivas.

O desejo é soltar-se do mundo Como imagino a possibilidade de transformar a lei da gravidade, num território suspenso por tapetes mágicos! Ter o corpo e as coisas presas a um centro não me parece simpático. Quem coordena meus deslocamentos ou me tira da preguiça física? É mistério que não merece decifração ou encanto adormecido embaixo de árvores escassas, atormentadas pela especulação imobiliária? Não sei. Não gosto muito de pensar em respostas. Prefiro o suspense ou o fluir da imaginação. O único sintetiza, porém restringe o poder da escrita, esconde a multiplicidade. Copérnico tinha essa compreensão quando duvidou do geocentrismo.

Graciliano Ramos não é prolixo. Quem leu, pelo menos, Vidas Secas sabe disso. No entanto, a sua linguagem de poucas palavras nunca desfaz a escrita. Não é a quantidade de palavras que define o poder da narrativa. Já leu os contos de Italo Calvino ou um romance de Pamuk? São caminhos diferentes. Calvino arquiteta mundos, construiu pontes com as cartografias das escritas, nem precisar de esticar seus argumentos ou suas fantasias. Toca no coração e convida as esfinges para adivinhar outro destino para Édipo. Pamuk estende-se. Não recusa olhares demorados, moradias de detalhes inacabados, abraços que misturam ansiedades frequentes.

É a diversidade que nos atrai para as aventuras que descrevemos nos diálogos e nas meditações prolongadas. A solidão nos puxa e nos mergulha em subterrâneos que fazem perder o tique-taque do relógio antigo que está pregado na parede da sala. Quem tem medo da solidão é um escravo da concepções de Newton. Ela não é vivida sem configuração de espelhos. Não aqueles que se fixam no guarda-roupa ou no armário do banheiro. Há espelhos pacientes espalhados dentro das intimidades do corpo. Neles, os lugares da verdade e da mentira se confundem.

 Não há razão para se inibir com as sutilezas. Cada ritmo, cada invenção, cada respiração nos traz o encontro com os fragmentos que nos compõem. Nas interpretações  que nos seguem, criamos espantalhos e observamos o quanto é difícil definir um ponto final ou um amor entrelaçado com a eternidade. Temos um pouco da matéria do cosmos, da velocidade das fórmulas, das máquinas mudas, mas inquietas. As agonias aparecem, germinam, desaparecem e brincam com os brilhos das estrelas. Caetano continua cantado, não me conhece, nem posso decifrar por onde andam suas travessias. Minha escrita se distrai e se encanta com o espreguiçar-se do  ritmo.

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1 Comment »

 
  • Emanoel Cunha disse:

    O mundo das possibilidades no qual vivemos nos faz seguir as trilhas de um mundo que na sua turbulenta evolução, se é que se possa falar de “evolução”, nos direciona a refletir o mundo que carrega em sua trilogias do ser, não ser e ser-aí, segundo Martin Heidegger, em seu estudo sobre o tempo.

    As ressonâncias da história passa a entrelaçar-se na compreensão do o indivíduo entre as travessias que são intrínsecas ao homem, que na construção das diversas linguagens por ele criadas da forma ao corpo e sentido as coisas, com todas suas fascinações e decifrações sobre o que é mítico e essencial ao humano .

    Abs

 

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