A Estrela Solitária: as travessias do tempo e da bola

Ruy Castro escreveu biografias memoráveis. Ganhou projeção por tecer, com  maestria, tramas e dramas cotidianos. Uma delas fez um sucesso imenso e, ao mesmo tempo, agitou  polêmicas e censuras.Estrela Solitária: um brasileiro chamado Garrincha trouxe divergências e conflitos. A família do jogador foi contra a publicação. Sentiu-se abalada na sua auto-estima.

Ruy sofreu ataques. Tornou-se, para muitos, um vilão. Quiseram culpá-lo por revelar momentos da vida de Garrincha. Duvidaram da sua boa vontade. Transformaram o  livro, numa peça de acusação. Perderam o senso de equilíbrio, esqueceram-se das obras do autor e da sua presença marcante na divulgação da contemporaneidade. Criou-se  atmosfera de inquisição.

Não se pode negar que Garrincha foi um gênio. Seus dribles deixavam seus marcadores sem eixo. Era um espanto geral. Parecia inapto, fisicamente, para o futebol, mas fazia coisas singulares. Não dava para imitar suas artes. Brilhou no Botafogo e na seleção brasileia. Em 1962, com a contusão de Pelé, desfez esquemas defensivos e trouxe a Copa para o Brasil.

Sua vida não foi fácil. Escrever sobre ela, requer sensibilidade e competência. Ruy construiu um texto com ritmo contagiante. Lembro-me que acordava, nas madrugadas, para continuar a leitura, envolvido e curioso, torcendo como se estivesse dentro das histórias. O livro saiu, em 1995, publicado pela Companhia da Letras, depois do sucesso de uma outra biografia sobre Nelson Rodrigues.

Traçar as aventuras de um idolo não é tarefa comum. A instabilidade visitou várias fases da vida de Mané. Não houve linearidade nas suas travessias. Conviveu com muitos craques (Didi, Pelé, Zito, Nílton Santos…), tinha, no seu auge, admiradores apaixonados e recebia elogios cotidianos da imprensa. Merecia crônicas especiais pelos espetáculos que aprontava no Maracanã, seu templo predileto.

Sua fama era grande. Quem presenciou suas atuações não esquece a capacidade de improvisão e a amizade com a bola. Não teve, porém, prosseguimento no seu êxito. Garrincha não seguia os mandamentos de um atleta que cultivava  forma física. Tinha seus excessos, revelados por Ruy. Bebia, divertia-se na noite, não se colocava certos limites. Isso provocava o declínio do seu futebol.

Terminou se desencantando, apesar dos esforços de muitos dos seus amigos. A magia partiu.Suas finanças abaladas também traziam dissabores. O futebol não premiava os jogadores como devia. Não havia uma organização profissional como nos nossos dias. Alguns mantinham a situação sobre controle, outros se desligavam das obrigações ou eram vítimas dos desacertos do clubes.

Os tempos mudam, pois a sociedade se renova. A busca faz parte dos inquietos. Se hoje os milhões embriagam os ambiciosos, no passado os caminhos traçados tinham outras geometrias. Existiam os que valorizavam os bons negócios ou mesmo não desperdiçavam suas reservas, sabendo dos perigos de carreira curta.

Garrincha fez outras trilhas, nem por isso se apagou na memória. É inesquecível. Não é justo desprezar o livro de Ruy Castro, no embalo de invejas mal resolvidas. Ele nos ensina a entender que as contradições não desmacham feitos que engrandecem o futebol. Não maldigo as noites de leitura e minha perplexidade. Fui um aprendiz.

 

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