As águas do Rio de Janeiro e o desgoverno contínuo

      

Conviver demanda solidariedade. Ficar preso ao individualismo significa um perigo para afirmação da sociabilidade. Cada um cuida de sua vida. Não há como negar a necessidade de autonomia. A autonomia não é a trituração do outro, a vitória nas corridas das competições. Ela se alarga, quando entendemos as diferenças, construímos os diálogos, firmamos pactos para diminuir os desconsertos do cotidiano. A soberania absoluta do eu é uma fantasia. A cultura se arquiteta na conjugação e não no isolamento. Visualizar a estrada do sucesso e jogar fora as urgências coletivas é minar as possibilidades de entrelaçar os tempos da história. A vida social não deveria ser concentração de poderes.

No entanto, as repetições não esperam. Possuem a rapidez de raciocínios ambiciosos que se omitiram diante de tragédia ou querem usufruir do bom-viver, espalhando cinismo, desprezando a ética. O desperdício, com a corrupção, daria para recuperar tanta coisa, desfazer misérias, ativar a gestão pública, longe das manobras burocráticas. O Rio de Janeiro sofre ameaças sérias de ser vítima dos desacertos passados. Parece que nada aconteceu, as promessas se esvaziaram e a grana se diluiu. Muita chuva destrói casas, lembra medos, acaba sinais ingênuos de esperança. A luz continua acesa e não é no fim do túnel.

A questão dos limites é um debate antigo. Não se pode organizar uma sociedade onde prevaleça sempre o interesse mesquinho do governante ou sua indiferença por aquele que não sai da desigualdade. Há tragédias inevitáveis, mas há também  formas de planejamento eficazes ou cuidados frequentes com os compromissos da cidadania. Observe o que sucedeu no Japão e as reações existentes das administrações, no sentido de evitar mais estragos. Nas regiões das enchentes no Rio de Janeiro, os prefeitos reconhecem a falta de obras, a quase inércia marcante e contínua.

A notícias estão na imprensa, com detalhes, números, desvios, denúncias. O depoimento da população é insistente e lúcido. Não existe resistência que segure tantos desmantelos, nem paciência que disfarce as dores e os desesperos. O pior da corrupção é que a punição não tem presença nos tribunais e dinheiro se vai para cofres ignorados. Ela se alastra, buscando justifica-se na legalidade de certas normas que acentuam privilégios de quem já vive no centro das mordomias. Inventam incentivos, verbas extraordinárias, criam artifícios para aprovar aumentos salariais. Não há como medir o tamanho das máscaras e das irresponsabilidades.

A sociedade nunca passou por equilíbrio indiscutível. Há crises em todas as épocas. Há lutas para firmar utopias e agitações que refutam ordens que consagram a vontade das minorias. Contudo, há também os excessos que amedrontam, pois anunciam que os limites não se estabelecem e que, mafiosamente, a convivência social se desmancha na rapidez das manipulações, na incerteza dos discursos obscuros. Movimentos de protesto não cessam de aparecer, mas seus ecos não conseguem atiçar a maioria. A dominação é sofisticada, conta com tecnologia, refaz o pão e o circo eletrônico. O universo das diversões é uma arma para inibir rebeldias. O mundo das mercadorias é o das ilusões.

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4 Comments »

 
  • Flávio disse:

    Maravilha de texto. O 1º § está perfeito. Abs.

  • Amanda Suellen Oliveira disse:

    “Visualizar a estrada do sucesso e jogar fora as urgências coletivas é minar as possibilidades de entrelaçar os tempos da história. A vida social não deveria ser concentração de poderes.”
    É sempre isso…SEMPRE SEMPRE ISSO! Às vezes dá até desânimo de ao menos fazer algum comentário.Fora o caos observado,acho que o pior mesmo é a indiferença pública/social diante dos fatos.Deve-se exigir cobrança e resultados desta.
    O carnaval,o qual já está muito próximo,chega e camufla a realidade.Pão e circo para a massa é o essencial para concentrar ainda mais o poder.
    Deixo aqui o link de um vídeo sobre o carnaval, o qual,na minha opinião,tem argumentos bem relevantes:http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=T1MKkGYRQzM

    A indiferença torna essa realidade mais um “crime sem rosto”…

  • Amanda

    A indiferença é terrível. Fixar-se no centro de tudo, esquecer o coletivo é um desmantelo. Vou dar uma olhada no vídeo.
    abs
    antonio

  • Flávio

    Bom reencontrá-lo.Grato.
    abs gerais
    antonio paulo

 

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