A ética visita, provoca e inquieta o mundo

O acirramento das disputas e as necessidades de vitória criam discussões sobre os valores. O mundo tem peso, não é algo abstrato e sem medida. Há formas variadas de avaliá-lo, mas uma simples dor de cabeça já provoca a elaboração de um juízo. A sociedade festeja os vitoriosos. Parece que todos possuem a obrigação de vencer. A derrota é um estigma, um sinal para completar o desengano. Não cabe a existência de um mundo, onde todos celebrem a vitória. As lacunas são muitas e distribuídas desigualmente.

No final das disputas, as suposições se estendem. Correm boatos, ressuscitam-se passados, esticam-se lamentações. No futebol, a figura do árbitro não escapa. Xingado pelas torcidas, analisado pelos comentaristas, perseguidos pelas câmaras de televisão. Acabou-se a época do lance visto uma única vez. As televisões são incansáveis. Saturam. Tecem teorias. Condenam. Salvam. Buscam afirmar-se como donas de juízos finais. Querem acabar com as dúvidas, mostrar eficiência. Bigbrother em três dimensões?

O Brasileirão caminha para chamada reta final. Não há vencedor antecipado, com pontos que lhe tracem um destino de campeão. Então, as explicações não sossegam. Ninguém se arrisca em apontar o ganhador. Muitas conversações, debates cotidianos, crônicas raivosas, julgamento precipitados, opções disfarçadas. Quando sucedem os lances polêmicos, as manchetes se configuram com fotografia de detalhes não percebidos no momento do apito do árbitro. Foi dentro da área e se marcou o pênalti. Houve intenção na falha ou apenas descuido humano?

O bombardeio é grande. Os méritos de pessoas, antes inquestionáveis, desfiguram-se. Todos observam os enganos, vendo, muitas vezes, a mesma imagem. As conclusões podem levar o principal figurante a um ostracismo fatal. Ele era do quadro da Fifa, honesto, articulado com as regras, tranforma-se num suspeito. Esquecem que sua decisão não passou por uma longa reflexão. O instante é tudo, não é possível adiar nada.

As acusações se espalham e dividem-se. O jogo perde a importância, esconde-se da sua dimensão lúdica. O Cruzeiro proclama as injustiças da CBF. O Corinthians coloca-se como vítima. O Fluminense sente-se acuado, com tantos devaneios. Os blogueiros esquentam as incertezas. As regras promovem anseios interpretativos que perturbam a clareza. Bola na mão, mão na bola. Cada um faz suas deduções, com a onipotência das aventuras televisivas.

Com certeza, a série A do Brasileirão trará suspenses. Todos os três concorrentes bem próximos, abrem espaços para pensar o que se passa fora das quadro linhas. Há preparação de resultados ou vale a categoria dos atletas? Tanto esforço e grana não garantem o sucesso? As decisões ficarão por conta das relações de poder? Tudo se complica, porque não há uma equipe favorita, a carência de craques não permite espetáculos.

Num mundo de concorrência cotidianas, os limites servem para impedir  que a soltura tome conta das leis. A transgressão absoluta evitaria qualquer cultura ou a ordem absoluta formaria uma paralisia histórica. Os grupos comportam-se, segundo regras que se coadunem com suas vontades coletivas. Mas a sociedade atual consagra o êxito como objetivo, independente de um peso ou uma medida. A vantagem dissolve, cria territórios de solidão vazia.

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>