A Eucopa: travessuras da globalização fantasiada

Não faltam atrações na telinha. Quem perde  espetáculos tão coloridos? Há quase uma obrigação midiática. Quem deseja ficar ausente das conversas? Todos estão atravessados pelas travessuras das comunicações, pelas redes fantásticas de recursos mágicos e sedutoras de bilhões de pessoas. O futebol possui muito fascínio. Movimenta olhares e saberes. O esporte coletivo que forma críticos de todas as classes sociais, traz polêmicas e promessas. Observem o fanatismo dos tricolores pernambucanos e o delírio dos seguidores do chamado Timão. Vibrações contínuas, lamentos forte diante dos escorregões. Quem torce sabe até o coração suspira, transforma sentimentos, ganha velocidades incríveis.

O mundo globalizado vai além. Não basta chorar pelo Sport, maldizer o Santos, zombar do Flamengo, apaixonar-se pelas astúcias de Neymar. As articulações são vastas. A Eurocopa mostra outras realidades. De repente, a crise se transforma numa bola que descreve a agonia de gritos, a vontade de superação de desacertos. Os políticos não perdem o momento. Quem o euro consiga força nos malabarismos de Cristiano Ronaldo. Não é à toa que o investimento é alto. As diversões conseguem mascarar descaminhos, afastam pesadelos, refazem sonhos. A Grécia jogou para livrar-se das frustrações, mas não houve jeito. Nem tampouco a Ucrânia firmou as esperanças.

Não há vitórias sem derrotas. O espaço das lágrimas não se apaga fácil. A Alemanha parecia sem adversários, solta, consolidando táticas, seguindo o perfume de campeão. As TVs exibiram imagens deslumbrantes. Todos são cidadãos do mundo, para alegria dos patrocinadores e a comunhão ensaiada da solidariedade. Quantos artifícios para solidificar o controle e esquecer os desmantelos do cotidiano? Perdi poucos jogos, pois gosto de futebol. Vi Pelé, Didi, Garrincha com entusiasmo. Sinto a ausência de quem  se envolvia com a arte. Por isso, não abandono meu lugar. Sei que há manipulações, porém não nego encantos e não sou de ferro.

Lá estão Itália e Espanha com toda cobertura internacional, com a imprensa brasileira gemendo de felicidade, meio chateada com os fracassos da seleção de Mano. É preciso animar o circo, quebrar as fronteiras, fazer a grana circular, desfrutar das maravilhas tecnológicas. Pintou uma partida final marcante. Não havia favoritos.A Espanha é o fetiche. Toque de bola, paciência, novas estratégias. Duvidar, contudo, dos italianos é uma ousadia. Eles surpreendem. Não se importaram com os alemães, pregaram muitas peças quando estimavam que merecessem silêncios. Não vamos buscar exemplos. Deixa o passado sossegado. O jogo tem regras, sustos, danças.

A Eurocopa celebrou a beleza e o malabarismo. Balotelli firmou suas queixas, o racismo ainda persiste, as tensões também se manifestam nos campos de futebol. A Espanha tornou-se soberana. Fez seu ritmo. Parecia inabalável. Os italianos levaram quatro, uma goleada inesperada. Foi um espetáculo, perseguido nos detalhes pelas câmaras potentes e pelas vozes dos locutores sem fôlego. O trono mudou de dono. O Brasil encontra-se numa fase obscura. Muita confusão, desacertos, famas indevidas, chutões, compromissos esquisitos. Não adianta exaltar o que não existe. Cabe perguntar: somos donos do melhor futebol do mundo? Não é para mergulhar na nostalgia. Acordar também compõe a sinfonia do sonho.

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