A euforia cega, a quantidade perdida

As manchetes dos jornais se fizeram presentes, anunciando uma grande celebração: Pernambuco chegou a uma marca histórica, possui 2 milhões de automóveis. Parece que o desenvolvimentismo galopa com velocidade. São os resultados do consumir é viver. Muitos exultam, declaram seu orgulho. A mercadoria consolida seu lugar especial. O que vale é a cidade cheia de modelos brilhantes e  identificando-se com as máquinas. O desejo de subir na hierarquia social contamina, dar privilégios, promove lucros. A euforia se espalha, a crítica se recolhe? Como está mesmo a qualidade de vida? Para onde vão tantas compras e exibições do poder econômico?

Nem todos entram na atmosfera da vitrine. Há perplexidades, dúvidas, desconfianças. O trânsito continua lento, com percursos confusos e paciência restrita. O tempo é uma preciosidade. Será que a demora a chegar aos destinos não causa prejuízos ? Lembro, objetivamente, a velha relação custo/benefício. Tudo se resume à quantidade visível,  ao facilmente contabilizado? E o transporte público que anda sem investimentos significativos? Quem depende dele o que lucrará com tantos engarrafamentos? É bom que haja empregos, mas tudo não se resolve no imediato, nas soluções mágicas, sem garantias de permanência.

Não se esqueçam da globalização. Todos estamos próximos. O capitalismo não vive momento auspicioso.Há uma crise que ronda os poderosos. Escaparemos? Os prognósticos são otimistas, porém a economia não tem sido um território de certezas. Nem sempre as alternativas de sucesso, num contexto, ajudam a salvação em outro. A Europa está mergulhada em oceanos turbulentos e os Estado Unidos mostram fragilidades e desacertos. É claro que a energia e o trabalho devem caminhar para superação das dificuldades. Assim seja.  Nada de louvar sofrimentos e desenganos.

Muita tecnologia traz deslumbramentos. Hoje, se discute, também, a qualidade do que é inventado e a situação afetiva dos países que partiram, na frente, do processo de acumulação. Alguma coisa se desconectou no meio de tantas conquistas e genialidades. O comércio de drogas não se aquietou, o número de suicídios provoca perturbações em sociedade ditas do primeiro mundo e a depressão não cede. Será que o excesso de quantidade de coisas não é o anúncio de uma saturação?  Como consumir sem medidas, sempre incluindo o descartável? Sem questões, a mesmice ganha fôlego e o reino das aparências amplia  sua força.É importante um olhar que acompanhe os desenhos que a aventura humana  firma nas paisagens históricas. Já se disse que muita luz cega.

Freud alertou para a infatilização. Não é algo raro. Tanta gente não muda suas concepções de mundo e adormecem na repetição, preferem não enfrentar as responsabilidades, nem tampouco se localizam nos afazares da cidadania. Não faltam sinais de descontrole. No entanto, há, também, sofistiçações, na forma de dominar, que desgovernam os  indivíduos. Muitos estranham  a convivência com o desconforto. Acostumaram-se com a cadeira do poder que simboliza privilégios especiais. Contudo, as relações socais não se acomodam e aprontam surpresas repentinas. Há um certo descuido motivado pelo fascínio ou pela negligência. Por isso que as formas das ilusões se multiplicam e embriagam, porém os espetáculos não são gratuitos, nem eternos.

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

6 Comments »

 
  • Flávio Alves disse:

    Vivemos em um mundo de aparências,
    as pessoas exibem o tem (as vezes o que não tem), e trabalham e morrem para ter. Ninguém se preocupa em ser.
    Neste mundo de embalagens, nós humanos se tornamos a principal. O triste de tudo isso é perceber que estas embalagens escondem confusão, depressão e muito vazio existencial. São tantos querem ser bem aceitos pelo que tem! É importante refletirmos nas palavras de Paulo neste contexto: 2 Coríntios 4:18 não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas.

    O tempo também é outra questão importante. Pois, no tempo em que se andava a pé ou de cavalos e camelos, talvez as pessoas aproveitassem mais de sua família e amigos. Talvez houvesse menos suicídios. O homem se complementa com o próximo. E, hoje eles não tem mais tempo para isso.

    Brilhante reflexão professor.

  • Flávio

    A coisificação é grande. É preciso reflexão, pois o mundo da pressa causa vazios.
    abs
    antonio paulo

  • Emanoel Cunha disse:

    Vivemos em um mundo onde a ignorância é um tema chave para as relações que o ser humano estabelece com a sua própria espécie. Acredita-se que o a mesma sobrepujou-se desse interesse pessoal através dos tempos, e é com a dita “Globalização” que ela encarrega de conceitualizar sua pratica no cotidiano evolucionário da humanidade.
    O consumismo de ideias e produtos na modernidade nos tornou em meros objetos, dividiu as relações, fragmentou-as. A sociedade quer ter, ora deseja ascender numa escala social mais digna de seu conhecimento, ora quer se desprender das amarras que a confinam aos mais recônditos do seu intelecto. Não é à toa e também comum que um engenheiro se encarregue de trabalhar e receber igualmente a um professor do ensino de rede pública. Fica por conta de o tempo configurar as discrepâncias que são postas no dia-a-dia da nossa conturbada sociedade onde o caos se instaura.
    É verdade que o rápido acesso e facilidades que a atualidade dissemina são fatores de grande contribuição para o progresso da humanidade, mas a mesma, impregnada com esse conceito, deteriorou a arte de pensar e refletir. Não é que seja tão negativo esse progresso, mas é que com ele veio consequências que hoje são consideradas irreparáveis para o homem.
    É necessário criarmos instrumentos de conhecimento para atuar contra as imposições da modernidade, sendo a mesma combatida por novas concepções desenvolvidas para tornar mais atuante a participação de um cidadão crítico que reage diante da infantilização dita por Freud. Enquanto o homem não abrir sua mente de modo crítico e questionador será dominado por aqueles que possuem mais poder.
    Gostei bastante do seu texto professor, parabéns pela instrução ao qual o texto nos remete a refletir sobre os problemas que permeiam a nosso Brasil.

  • Emanoel

    Valeu seu comentário. Traz um bom diálogo e reflexão.
    abs
    antonio paulo

  • Stéfanny Callender disse:

    “Pernambuco chegou a uma marca histórica, possui 2 milhões de automóveis.” Essa afirmação é um “viva” para mutos comerciantes, mas um alerta à sociedade. O avanço tecnológico envolve as pessoas com seu incrível poder persuasivo diante de tanta comodidade e conforto. Todavia o mesmo traz o consumismo desenfreado e o prazer do exibicionismo, deixando como suplementar e não mais prioritária a verdadeira qualidade de vida e do próprio produto, que cada vez mais diminui seu tempo de vida útil. Tornou-se fundamental para muitos, a imagem construída de si mesmo perante os outros, enquanto isso os transportes públicos se encontram em ascendente descaso e como por ironia, o número de carros continua aumentando. É como se o governo sussurrasse em nossos ouvidos: “Não está satisfeito? Compre um carro!” Mas o fato é que nem todos tem condições de comprar e manter um carro, na verdade, grande parte da população não pode sequer pagar a uma passagem de ônibus.

  • Stéfanny

    Cercados de mercadorias, pensamos que a felicidade está próxima. É preciso ver toda a propaganda enganosa e saber por onde andam nossas escolhas.
    abs
    antonio

 

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>