A fabricação da drogas e o desencanto com o mundo

Não se vive sem estímulos. A apatia nos tira da movimentação da vida. Somos animais sociais que curtem debater, se alegrar, dividir dores e espantos. Há muito o que fazer.A complexidade aumenta. Problemas para os governos, descasos na gestão coletiva, medos no pulsar do cotidiano. Não é fácil. As acusações correm o mundo, com julgamento definidos, mas também as perplexidades transformam verdades consagradas. É a multiplicidade, a quantidade de diferenças, tudo se agitando em buscas de soluções e cercado por inúmeros contrapontos. Não há fórmulas salvadoras, porém não custa inventar, analisar o tamanho dos descaminhos, o desejo de não esquecer o encontro.

Ficamos, por vezes, soltos. As crises não cessam, a violência não se apaga, os sonhos se diluem. A vida, contudo, continua, apesar das ambiguidades, dos labirintos. A sociedade desloca-se com centros urbanos imensos e pessoas desenhando trilhas. Nas ruas, as amarguras e risos possuem seus espaços. Os pontos de fuga não se extinguem, estendem-se com o surgir das novas tecnologias. Não são apenas objetos cheios de travessuras. As drogas não se ausentam das mudanças, renovam delírios, provocam experiências inusitadas, anunciam mortes precoces. São velozes nas ações, desafiam sistemas de vigilância, não deixam de estimular fantasias e ilusões.

Cloude Nine não é o nome de um grife, nem de um filme que arrecadou milhões. Está na berlinda, sendo discutida. Sua química feroz produz alucinações e, até mesmo, canibalismo. Há sustos de que ela acompanhe a propagação de outras drogas sintéticas. O tempo não está para lentidões ou paciências. A pressa contamina todos os mercados, descontrola, requer estudos para não desmontar as sociabilidades e eliminar os afetos. A violência é descomunal. Ataca como se as criações culturais não pudessem aliviar as frustrações, dialogar com as incompletudes. O desamparo é maior, quando o individualismo esvazia o toque ou a vontade de estar com outros.

Há um suicídio que se espalha, porque a sociedade se estranha. A quantidade fascina, mostra capacidades de malabarismo da inteligência, mas também confunde. As drogas recentes respondem às ansiedades contemporâneas. Estamos no mundo dos laboratórios, das artificialidades, portanto não se trata dos tempos dos hippies ou dos anos 1960. As urgências demandam acelerações, pois a grana enfeitiça e enlouquece. Compra-se o prazer. Tudo parece ter o perfume das mercadorias. Observam-se os casos assustadores, contudo não há interesse em conectá-los com os modelos sociais existentes. O isolamento impede soluções que tenham repercussões no comportamento.

O discurso da repressão sempre ganha ressonância. Não se aprofunda o olhar sobre os desmantelos familiares, sobre a coisificação crescente, sobre as articulações dos poderes. Perde-se a dimensão da carência. Os corpos viraram objetos de desejo, as amizades se realizam nas telas dos facebooks. O falta de contato com os outros remove intimidades. Tudo na superficialidade, na competição, no disfarce do celulares espertos. As drogas não dão respostas para angústias que caem do céu. Estão no cotidiano. As drogas compõem o forte quadro de fragmentação da convivência social. O sufoco dos afetos mal resolvidos desfazem a pulsão de vida. Atiçam as incertezas.

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