A felicidade é um pássaro de vidro

Vivemos sob pressão. As contradições desfilam, sem destinos. Temos pressa em resolver as coisas do cotidiano e precisamos de reflexões para enxergar sua obscuridade. Podemos ser punidos pela pressa, atropelados pelas urgências impertinentes. Ficamos divididos. Não faltam teorias sobre as fragmentações da existência. Surgem alternativas de caminhos, mas sobram desvios e placas de sinalização. A modernidade trouxe movimentos de salvação de conteúdos diferentes. Isso confunde e, ao mesmo tempo, dá ideias para se fugir da mediocridade.

Nosso corpo sofre com as hesitações. Desejamos contemplá-lo no quadro dos narcisismos contemporâneos. Ele se produz. No entanto, temos que lidar, também, com os desgastes. A eternidade é um território que não nos pertence. As academias, os remédios, os cremes, as meditações não evitam o passar do tempo. Ele desenha rugas externas e internas. O espelho denuncia e as conversas nos alertam. A manutenção da jovialidade, para aparecer bem na vitrines sociais, leva a uma infantilização afetiva melancólica. O sorriso tem cores de máscaras encardidas.

Como esconder-se de tantas solicitações? Mesmo que a luta pela autonomia consiga aumentar os espaços das aventuras, não há como se afastar da força da maioria. Negamos banalidades, espertamos críticas, jogamos fora inutilidades. Isso nos faz respirar, apesar dos contrapontos que imperam na política dos negócios. A maioria é silenciosa. Cultiva valores que não atiçam rebeldias. A massificação se alarga com a velocidade dos meios de comunicação. A pressão é contínua. O destino é má sorte e erro, diz Walter Benjamin.

Nem tudo segue a rota da racionalização. Inventam-se ilhas de sossego, como se inventam mercadorias. Coisificar é terrível. Desnutre a sensibilidade. As modas e os luxos exercem um fascínio indiscutível. Tudo tem um preço. As minorias absorvem os privilégios materiais, porém sofrem suas dores. Acumular objetos e charmes não garante encantamentos. A felicidade é um pássaro de vidro perdido, num labirinto de portas estreitas. O seu balançar não possui ritmos homogêneos. Suas asas tergiversam, quando as tempestades se formam.

Há quebras e desconfortos. Eles arranham e arrastam-se  nas narrativas históricas das incertezas. As tramas da vida não dispensam acrobacias. O tempo de Prometeu se estende. Os mitos se espreguiçam com vontade soberana. São sombras que nos acompanham. Por mais que o circo esteja desfalcado dos seus palhaços e sua lona destroçada pelas agonias, nunca deixamos de pensar que o mundo não se abandonou aos seus desacertos. A felicidade nasce de uma perda, só permanece eternamente o que foi perdido (Ibsen).

As travessias guardam surpresas. Os controles, apenas, configuram pequenas ilusões. Os artistas buscam transcendências, porém não estão longe dos grandes naufrágios. Os sofrimentos compõem a vida. As tragédias fazem parte do extraordinário ou se alojam em quartos pequenos e úmidos. Os deuses escrevem suas histórias. Não percebem que são imitações singulares do humano. Quem nos assegura que há uma verdade que sustenta o ir e vir do universo? Relembrem-se dos dramas de Zeus e das expectativas  Moisés no seu encontro com o divino? A cultura é uma construção. Poucas revelações temos sobre ela. Porém, estar-no-mundo é pertencimento mágico e indefinível.

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10 Comments »

 
  • Roberta Adão ,aluna de web, Faculdade Marista disse:

    O texto do fala muito do sentimento que tenho em relação a sociedade em que vivemos, onde “TEMOS QUE” ser jovens e felizes eternamente, como se isso posse possível. “A máquina manipuladora” nos vende uma falsa impressão que podemos viver no mundo sem frustrações ou que se nos frustramos temos todas as compensações possíveis ao nosso redor. É infantil evitar frustrações, pois deixamos de nos conhecer , deixamos de crescer e de exercer até a nossa criatividade, pois quando não temos algo, somos levados a refletir maneiras de buscar o que queremos.
    O parecer se tornou mais importante do que o ser, falta poesia, falta moral, falta cultura, aliás não falta! O que falta é interesse nesses assuntos ,é raciocínio, é pensar mesmo. É mais interessante ver tv. Está tudo lindo, prefeito e pronto lá .Quando meu pai me via assistindo tv ele me chamava de “Pessoa da sala de jantar” alusão a música Panis et Circenses. É bem isso mesmo, só que existe mais circo do que pão, ou diria mais BIG BROTHER a pão.
    As redes sociais são um exemplo de que sempre queremos aparentar lindos e felizes, pois eu nunca vi ninguém “infeliz” ou “feio” no orkut ou facebook (as mais populares por aqui).A maioria das pessoas dá um jeitinho de “parecer” mais bonito, e não estou me excluindo (risos). As pessoas acabam esquecendo que as redes sociais foram feitas para serem usadas por elas e não o contrário! E nem percebemos isto (falo por conhecimento de causa).
    Evoca-se muito o CARPE DIEM, porém em uma forma distorcida, como se apenas o jovem e o hoje tivesse que ser valorizado. Uma geração bastante careta essa! Onde as pessoas “TEM QUE”, “TEM QUE”, “TEM QUE”, ter o melhor celular ,a grife da moda, tem que ter o cabelo assim ou assado, ou coisas que irão te dar segurança perante as pessoas por que afinal de contas “eu” sou tão vazio que preciso mostrar o que tenho para as pessoas me aceitarem, não tenho nada mais a oferecer a não ser o que aparento.
    Enfim, fico triste de também ser suscetível a manipulação, contudo podemos buscar a luz, o conhecimento, o saber e sempre acreditei em Exupery quando ele disse que “o essencial é invisível aos olhos” , outros podem ter dito isto mas eu conheci através dele e da educação que meus pais me ofereceram. Eu sou pessimista, não creio que as pessoas deixem de ser tão idiotas, elas se permitem manipular, elas deixam seus desejos expostos, na verdade é uma geração careta e carente, quem souber captar suas necessidades as manipula e para falar a verdade já estou bem cheia de tanta babaquice tanta caretice! Parafraseando o Cazuza.

  • Roberta

    Gostei de muito do diálogo. Você levantou pontos decisivos. O cerco é grande, pois a sociedade vive de promover e agitar vaidades. Todos somos humanos e sabemos que temos incompletudes. A propaganda explora bem os desejos. Mas não custa ter consciência desse mundo tão múltiplo e saber o que pode ser feito, para fugir de tanta superficialidade. Ninguém escapa dos escorregões e cultivar a culpa não resolve muito.O mundo é vasto, já dizia o poeta. No coração de cada um cabe muita coisa e há espaços para deixar as banalidades. Vamos adiante, olhando sempre para o que não se mostra tão visível. A massificação idiotiza, porém nem todos caem no mesmo ritmo. A sociedade se refaz e traz outras luzes. A harmonia plena é uma grande utopia. É no cotidiano que podemos desmanchar as máscaras e retomar o afeto. Com isso, as carências recebem atenção e são valorizadas. As grande revoluções estão suspensas, mas não o sonho de transformar e transforma-se. Somos nós que abrimos as portas.
    abs
    antonio paulo

  • Gleidson Lins disse:

    Eu costumo sugerir às pessoas quando falamos de felicidade que ela não deve ser concentrada em uma única coisa. A felicidade deve ser dividida em tantos pedaços quanto for possível fazê-lo. Quanto menor o pedaço, melhor. Quem perde um pedacinho, continua com sua felicidade praticamente intacta. Se ela está concentrada em algo e isso se perde, perdeu-se a felicidade. Somos seres humanos e queremos ser felizes. A divisão permite sempre que um pedaço da felicidade seja mantido, porque as perdas são inveitáveis.

  • Gleidson

    Com certeza, a concentração sempre leva ao exagero. Dividir aumenta a sociabilidade.
    abs
    antonio paulo

  • Monique disse:

    “[…] política dos negócios. A maioria é silenciosa. Cultiva valores que não atiçam rebeldias[…]”
    Realmente a massificação provocada por um consumo desenfreado “coisifica” os vulneráveis , padronizam não só desejos ,mas também sonhos de forma alienada e proporcionando uma espécie confortável de calmaria nuns possíveis ânimos rebeldes.

    Eu diria mais, que a felicidade é um pássaro de vidro COLORIDO, pois assim pode estar sujeita aos arbitrários desmandos da moda.
    Esse estilo de vida trás mais frustrações que satisfação.
    As rasteiras da moda surgem na mesma rapidez que as evoluções tecnológicas.
    É insano “ter” felicidade…felicidade se conquista…felicidade é espontaneidade…ela brota das singelezas..das poesias da vida que não possuem códigos de barras!

    É preciso ficar sempre atento para se desviar de armadilhas que possam fazer você negar sua identidade.

    A felicidade existe sim!Só não cabe em potes e nem pode ser leiloada em outdoors.

    Bela discussão,Antonio!
    abs

  • Monique

    Gostei da ideia do pássaro colorido. Sabia que você ia se envolver.Grato.
    abs
    antonio paulo

  • ladjane disse:

    Gostei da metáfora: ” a felicidade é um pássaro de vidro”.Muitas pessoas se iludem de achar que a felicidade pode ser depositada em coisas materiais, passageiras…(claro que, sem exageros, são importantes para a alegria e necessidade meramente física).
    E Quando se perde controle? é como um pássaro mesmo,sensível,não durando muito num lugar só; qualquer ruído, bate as asas e voa.E o vidro? a sua característica é frágil, fragmentando-se ao cair no chão.
    Mas quem pode falar de felicidade como algo duradouro e permanente? Suponho que a felicidade não pode ser gerada de fora para dentro, mas de dentro para fora, em outras palavras saindo do lado interno para o lado exterior da vida.
    Existe algo que nos move para isso. Eis aqui a receita: descubra!. Uma vez descoberta, pode irradiar e contagiar a si mesmo e todos à volta.O coração alegre não pode deixar o rosto abatido, mas feliz e os outros testemunham disso. Tudo que vem do homem tem procedência interna. Aí pode residir a felicidade ou a infelicidade.

  • Ladjane

    Tudo é muito frágil, quando estamos desatentos. A saída é conectar as coisas da vida. Saber que há uma vaivém que nos toca e nos coloca no mundo.
    abs
    antonio paulo

  • Marcela Souza disse:

    Comecei a ler o Astúcia de Ulisses essa noite, e achei o site muito bom. Pude ver notícias e avaliá-las levando em consideração um outro ponto de vista, no caso, o seu. Tem muitas postagens aqui que são muito ricas quando se trata de formar o conhecimento de alguém, eu mesma, com apenas 15 anos de idade, pude achar muitos pontos em comum com características aqui citadas por você. Isso de achar que a felicidade é um pássaro de vidro é muito interessante. Depois de parar para refletir um pouco sobre essa definição, percebi que concordo totalmente com a mesma. Acredito que a felicidade está muito perto de nossas mãos, mas se usar um pouco mais de força, ela pode ceder e tudo ir pelos ares. A busca pelo pássaro é muito difícil, com você bem colocou, é um labirinto onde há muitas portas estreitas. O mais importante, creio eu, é que ninguém desista de procurar por seu pássaro, por mais difícil que seja encontrá-lo, as pessoas precisam saber que eles existem. Não vai ser do dia para a noite que o encontrarão, fato, mas um dia, o encontraremos.

    De novo, adorei muito o site. Ah..comecei a frequentá-lo, porque a minha professora de história disse que era bom, vim ver, sob pressão, mas percebi que visitarei o site sempre!!

  • Marcela

    Seu texto me emocionou. Gostei da sua narrativa, da sua autonomia e da sua forma de seguir os traços das palavras e as metáforas. Teremos bons diálogos, com certeza tenho muito a aprender com você. A vida é isso, encontros que ajudam a vê-la animada e aberta para reflexão.
    abs
    antonio

 

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