A festa brinca com os limites e as histórias

As brincadeiras aliviam o peso e transformam as regras. Trazem criatividade  e possuem poder de reverter tristezas. A sociedade não as dispensa, com a afirmação de calendários especiais para os encontros coletivos. Muitas vezes, ganham as astúcias do consumo e as hipocrisias de rituais inexpressivos. Mas o Carnaval tem seu lugar gigantesco. Mistura tempos, quebra expectativas e solta a timidez. Não deixa de entrar no movimento da grana. Quem pode se ausentar dos fascínios das propagandas e do poder dos meios de comunicação? O Carnaval assanha multidões, produz riquezas, atrai quem celebra a agilidade do valor de troca.

As festas estimulam as brincadeiras, promovem práticas sociais inusitadas. Parecem com rituais profanos, porém dialogam com as intrigas do momento. Não são estáticas. O Carnaval sacode os boatos, faz da fantasia seu cais, navega pelos becos e pelas avenidas. Nem todo lugar o aceita. Há silêncios, gente que se esconde em busca de sossego. São diferenças, não há como jogá-las no abismo. No entanto, ele atiça a maioria, lembra uma tempestade com data marcada e registros que ficam para a vida toda. Quem já não ouviu falar nos amores que compõem os ritmos carnavalescos? Para que existem as máscaras e as bebidas comemorativas?

As rupturas ocorrem, as novidades acontecem, as cidades se vestem. Tudo se mobiliza de forma quase radical. O Carnaval possui força de persuasão, vira a cabeça de quem não o conhece, é o senhor das ilusões. Portanto, ele se estende como pode. Há quem busque organizá-lo, envolver seus gastos com os do poder público. Não há como trilhar um só caminho. Há quem curta o Carnaval amargando solidão, desfazendo paixões, sentindo que o efêmero desgasta. É um mundo dentro de outros mundos, com histórias e narrativas preciosas.

A sociedade do consumo não desperdiça sua soberania. Anos atrás não havia tantas programações, nem se enfatizava as simpatias do multicultural. O Carnaval fazia-se nas ruas, com bandas animadas, olhares travessos. Hoje, é preciso articular o espetáculo, preparar o show, não se descuidar da decoração. É uma pecado não chamar os artistas da Globo. Eles garantem o desfile da fama, são atrações milionárias, requerem investimentos. O Carnaval é também um negócio sofisticado e estratégico. Perguntem aos governadores, aos prefeitos, aos vereadores o que eles pensam da brincadeira que rende muitos votos? A vida segue. A animação atinge o cotidiano e desfaz as rotinas.

A sociedade constrói pausas tão necessárias para se desviar da intensidade do trabalho assalariado. Tudo passa. As brincadeiras não se vão, de vez, porém se tornam, para alguns, escassas. As máquinas não cessam de abolir e retomar desejos. Os dias firmam identidades das mais diversas. Surgem as reflexões, os arrependimentos, as desistências, as descrenças. O mundo e suas voltas, com portos ora escuros, ora iluminados, ora sombrios. Assim, as histórias se costuram, as memórias se acumulam, sentimos que nem sempre há malabarismos. Os recolhimentos lembram que somos muitos. Os afetos se perdem, são substituídos. Amanhã pode ser outro dia. As arquiteturas dos devaneios marcam insistências permanentes. Como reinaugurar as travessuras?

 

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1 Comment »

 
  • Elânia disse:

    O carnaval e suas percas. Perdeu a simplicidade e a beleza de outrora. Ganhou multidões e consumismo. O carnaval de hoje reflete a sociedade moderna.

 

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