A festa é desafio e reinvenção do tempo

As andanças da vida não ficam, só, nos lamentos e perdas. O vaivém anima e diversifica. A mesmice tem seu lugares, mas não aguenta muito respiração. O movimento domina. Muita gente se definindo. A busca não é de uma minoria. Todos se assanham, se desacomodam. Pode ser um mergulho em águas rasas, onde o supérfluo ganhe máscaras de grandiosidade. O importante é não perde tempo. Resta o mérito de suas próprias ações.

Nesse jogo, seguem os instantes de cada dia. Há esconderijos, cenários brilhantes, memórias inquietas. A vida não recebeu um traço completo. Talvez, seja impossível. As heterogeneidades  acompanham os vacilos individuais e atingem as manifestações coletivas. A velha sinuosidade gosta de atrapalhar as geometrias e redesenhar os mapas  dos destinos. Tudo se veste de uma soltura, embora as ordens sociais procurem ressaltar os controles. Na mistura, de tantas complexidades, passamos por trilhas e abismos.

Se os hábitos não testemunham  a eternidade, os desejos se multiplicam, os rituais da vida firmam momentos da cultura. Quem não se animou com uma festa ? Quem se envolveu com tristezas perenes? Não dá para ser conclusivo. A sociedade estimula normalidades e dita seus princípios. O discurso vencedor termina forçando comportamentos. Muitas vezes, a alegria é incompatível, traz problemas, confunde-se com o rídiculo. A euforia faz, também, parte dos pertencimentos da atualidade e o desamparo assusta os mais sensíveis.

Fala-se em destino, porém é uma palavra frágil nos seus significados. Permite leituras e interpretações, mas não dá garantias de identidades fixas ou de cartografias imutáveis. Até as divindades possuem suas incertezas e hesitam com relação aos humores das suas criaturas. Celebrar , apenas, a monotonia e o cotidiano burocrático desfaz a energia do mundo. O calendário atrai novidades, anuncia divertimentos, quebra ritmos lentos. O carnaval está aí para exibir a multidão de fantasias e romper com compasso das inércias.

A preparação é imensa. Formam-se comissões, organizam-se blocos, liberam-se verbas públicas, vendem-se bebidas em quantidade, polemizam-se patrocínios. Há os dias especiais, mas a festa não tem uma pragramação obediente. Ela transgride. Evita retas muito delineadas. Mesmo com os milhões que passam pelas suas brincadeiras, o carnaval se espalha pelas ruas e mexe com todos. É claro que existem as descriminações, os encontros mais fechados, as elites tomando conta de clubes refinados. É, na rua, que as coisas se atiçam, com a participação de pessoas das mais diferentes idades e níveis de riqueza.

O carnaval não se libertou dos exageros do consumo. O mais sofisticados não esquecem dos detalhes: de retocar o poder dos cremes, de garantir um whisky qualificado, de comprar vestimentas que chamem atenção. A força de brincadeira escreve rituais, mantém tradições, mas pede a renovação e se reinventa. São aventuras do mundo que não se emperram e solicitam imaginação. O tempo vivido , com tanta agitação, corre rápido. Não faltam coberturas nas televisões, entrevistas com personagens,  fotos provocativas nos jornais. É uma época do ano marcante. Nem todos entram na folia. Os descontentes recolhem, criticam e exercitam sua serenidade. Dá para viver sem  aguçar o contraponto?

PS: O blog se veste, hoje, com outras fantasias. Agradeço a ajuda de Hugo , Igor e Marcelo. Observem as mudanças gerais, em nome da estética e da coerência. Ulisses assume sua dimensão maior. As astúcias continuam existindo, pois o mundo se faz e (re)faz, na dança da vida. Vamos seguir mergulhando nos mistérios da contemporaneidade.

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3 Comments »

 
  • Flávia Campos disse:

    Antonio, sobre carnaval não tenho muito que comentar, pois desde criança fugíamos com toda a família, dos “mais de mil palhaços no salão” e das “máscaras negras que escondem o rosto para matar a saudade…
    No refúgio dos carnavais, geralmente nas praias, só tinha acesso as músicas e sempre teve uma, que apesar de nostálgica, me emociona até hoje. É “O último regresso” (Bloco da Saudade – composição de Getúlio Cavalcanti).
    Deixo-a para os foliões e os que também se recolhem dessa grande festa que é “desafio e reinvenção do tempo”:

    “Falam tanto que meu bloco está,
    dando adeus pra nunca mais sair.
    E depois que ele desfilar,
    do seu povo vai se despedir.
    Do regresso de não mais voltar,
    suas pastoras vão pedir:
    Não deixem não, que o bloco campeão,
    guarde no peito a dor de não cantar.
    Um bloco a mais é um sonho que se faz
    o pastoril da vida singular.
    É lindo ver ver o dia amanhecer,
    ouvir ao longe pastorinhas mil,
    dizendo bem, que o Recife tem,
    o carnaval melhor do meu Brasil.”

    Bjs
    Flávia

  • Rosário disse:

    Professor,

    Vejo que o blog vem se vestindo de novas cores e tecidos. Aventura-se por novos mecanismos que nos serve de souvenir e nos remete as trajetórias de ulisses. Gosto dos tempos de agitação do carnaval e do mistério das máscaras, mas assusto-me com o desamparo. Por isso teimo em imprimir ritmos lentos,em trocar os cartões de crédito por poemas rabiscados em guardanapos. Teimo em partilhar perfumes, sorrisos,sonhos e o direito a “uma alegria fugaz”

    Abraços

    Rosário

  • Rosário
    É bom mudar as cores e agitar Ulisses. A celebração do carnaval atiça muita coisa. É realmente uma festa de porte, daquelas que mexem com expectativas.Grato pela visita.
    abs
    antonio paulo
    antonio paulo

 

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