A folia desnuda os desejos e as censuras

O Carnaval tem sua marca garantida. Transforma a cidade. São semanas de muita agitação, trânsito tumultuado e vendedores em cada sinal. Tudo é possível ser comprado, pois o que importa é a alegria. A criatividade dispara. Os tímidos não se encolhem. Esquecem as censuras e aproveitam para libertar as reprimidas fantasias. A festa possui uma soberania indiscutível. O poder público a incentiva. Muitos impostos são arrecadados e o turismo decreta a caça à grana solta. Não é o paraíso, mas muitos pensam que estão desfrutando dos melhores dias do ano.

Os nomes dos blocos chamam atenção: A Corda, Seguro o Talo, Sobe e Desce, Arrasta Corno, Pisando na Jaca… O exercício do humor tem suas portas abertas. Os moralismos sofrem ameaças e muitos criticam os exageros dos brincantes. A homogeneidade é impossível. Querer todos na folia não  firma regras. Os insatisfeitos, com os ruídos, fazem seus planos de fuga. Juntam suas recordações dos tempos passados e vão para os seus esconderijos. A sociedade não escapa da multiplicidade. Como se diz, por aí, os incomodados que se mudem.

O Carnaval funda tradições, renova-se, retoma frevos, enche ruas e esquenta  corpos. Os amores surgem, com ares de paixão eterna. Sua dimensão labiríntica é inegotável. Não precisa da força da embriguez, para testemunhar suas aventuras. É claro que as fábricas de cervejas exultam com os lucros, porém há quem se deleite, só com o som das orquestras. Existem os observadores, com notas e fofocas. Há comentários, de teores variados. Tudo se investe no efêmero, com as batidas do coração aceleradas e os minutos sendo comidos pelos relógios. Uma concentração de energia inusitada.

A cultura é o cenário precioso da vida social. A sua complexidade sintetiza comportamentos, valores, transgressões. Muita coisa muda, outras ganham disfarces. Medo, coragem, apatia, psicoses, ousadias. O divertimento não é espaço, apenas, dos tempos modernos. A forma,de exploração das suas peripécias ou de  ritualizá-lo, é que se redesenha. Não custa lembrar que vivemos na badalada sociedade do espetáculo. O Carnaval se enquadra nas suas demandas, contudo, não é dominado por todos os seus mandamentos.

Freud insistiu nas dificuldades de se enfrentar as melancolias e expandir os desejos. Há razões e mistérios que compõem as subjetidades. O coletivo não cessa de inventar saídas para seus impasses. Gosto de imaginar certas situações impossíveis. Uma delas é Freud, no meio de multidão, envolvido pelo Galo da Madrugada. E Nietzsche subindo as ladeiras de Olinda, em busca dos acordes dos maracatus ? Não seria demais visualizar Marx fazendo um estudo sobre a luta de classes, no desfile do Eu acho é pouco ?

A brincadeira é geral. Seus contrapontos fazem parte do mundo e dos seus afazeres. Se tudo se vai, velozmente, cabem repetições ou longas conversas para manter a memória. Decifrar cada momento e esclarecê-lo, com lógicas profundas, é pretensão vazia. Quando se projeta sair de braços dados com os desejos, muita  surpresa pode acontecer. Cada um costurando suas fantasias, rasgando seu códigos de censura, sacudindo fora suas tristezas. Assim, o Carnaval se alarga, sem sossego.

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6 Comments »

 
  • Flávia Campos disse:

    Antônio,
    Me encontrei nessa parte do seu texto: “Os insatisfeitos, com os ruídos, fazem seus planos de fuga. Juntam suas recordações dos tempos passados e vão para os seus esconderijos”. Mas arriscaria experimentar “certas situações impossíveis”, como entrar com Freud, no meio de multidão do Galo da Madrugada; subir as ladeiras de Olinda com Nietzsche e estar ao lado de Marx no desfile do Eu acho é pouco…
    Mas inusitado que tudo isso, só viajando, em uma bela embarcação, por mares nunca antes navegados, como os da paisagem que apresenta “A Astúcia de Ulisses”. (Dava até para abrir de todos os carnavais da vida).
    Mas, como alerta Rezende, “muita surpresa pode acontecer.(…)
    Assim, o Carnaval se alarga, sem sossego.”
    Será que ainda dá tempo de “de costurar a fantasia”?
    Bjs
    Flávia
    Ps. Antonio, só hoje tive acesso as mudanças do seu blog.Salvei a página inicial no meu computador em favoritos e ela se mantem até hoje com a imagem anterior. Hoje, no trabalho, quando entrei para ler “as palavras do dia” é que me dei conta das mudanças. Mui belas!!! Muito mais a ver com o misto de “razões e mistérios que compõe as subjetidades” dos seus textos. Parabéns!

  • allyson renan disse:

    o nosso carnaval é realmente paradoxal.essa festa de ritmos,danças folclores,fantasias é também o ópio do povo.muitos dizem que esquecem as amarguras da vida no carnaval.que pena também que é nesse simbolo da alegria do povo brasileiro que tantos outros deixam de existir.será que o alcoolismo constitui o único veículo de promoção da felicidade.é bem verdade,que bom seria que freud,marx e tantos outros pudessem participar dessa maravilhosa festa;certamente responderiam muitas das nossas perguntas sobre a alma humana e seus instintos.

  • Allyson

    A complexidade do humanao nos lança numa cultura de multplicidades. Difícil julgar o caminho das boas sortes. Mas se divertir traz leveza, desde de que a crítica não perca seu espaço.
    abraço
    antonio paulo

  • Flávia
    Você sempre traz alegrias e energias iluminadas. Mudar o blog deu mais fôlego e trouxe uma dimensão estética diferente.
    Espero que novos caminhos se abram.
    bjs
    antonio paulo

  • Geovanni Cabral disse:

    Olá meu amigo, tomei a liberdade e levei este texto para trabalhar nas aulas de filosofia e sociologia antes do carnaval. Organizei com o nome da escola estadual e o nome do autor. Foi bastante rico os debates, falei desse blog, mas poucos ou nem um chegará a acessar. Os motivos, os mais diversos. Pedi que observasem a escrita do texto e a leveza com que soaam as palavras. E à medida que a leitura entre eles fluiam, eu procurva instiga-los diante do cotidiano e do carnaval de cada um. As colocações surgiam em meio ao circulo criado. Gostei muito da experiência. Outras leituras se farão presentes. Abraço, amigo!!

  • Geovanni

    A divulgação é importante. Grato pela ideia. A palavra foi feita para circular. Assim, ganha espaço social mais atuante
    abs
    antonio paulo

 

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