A força da droga, a ilusão da fantasia viciada

 A droga não sai do foco. Ela globalizou-se, não domina, apenas, certos grupos sociais, mas segue contaminando todas as hierarquias, metendo-se  num comércio intenso e destruidor. As tecnologias inventam máquinas, modificam hábitos culturais. Tudo não é sossego ou mercado de vitrines brilhantes. O tráfico de drogas está cheio de astúcias e com uma capacidade de corromper avassaladora. Nos espaços dos jornais das TVs, fala-se  de crime organizado, com contabilidades definidas . Denúncias, sensacionalismos, reportagens urgentes não inibem o deslocamento dos negócios, nem diminui a quantidade de adeptos. O crack não se rende, ganha formas de distribuição internacionais, conta com o consumo dos que se sentem derrotados.

A droga tornou-se uma opção de vida. A cocaína está presente nas festas mais chiques, desde os tempos do cinema dos 1970 nos Estados Unidos. A maconha tem uma existência mais antiga, lembra Woodstock, a década de 60 do século passado. São registros de memória. A continuidade é um fato, como também a multiplicidade de acessos às ilusões fabricadas. As polêmicas esclarecem perigos ou amenizam expectativas pessimistas. Há muito debate sobre os males da maconha: há quem ressalte suas vantagens diante das drogas mais pesadas e outros que não toleram sentir o seu cheiro. No mundo pós-moderno, as misturas se fortalecem até mesmo no território do vício.

As estratégias para combater as dificuldades dos problemas sociais mudam de acordo com os países ou as manobras dos que controlam o mercado. Além disso, a busca da chamada felicidade química tem muitas variáveis. O que se observa é o poder de avanço na construção de prazeres vazios e efêmeros. O abismo da morte e da loucura aprofunda-se, o delírio  apaga o fogo das reflexões e elimina  sinais de serenidade. Os governos estão perplexos. A inutilidade da repressão avisa que a saúde pública está em jogo, com cores de um medonho apocalipse. Portanto, a vida foge dos aconchegos da lucidez.

A polícia de São Paulo resolveu fazer um controle cotidiano da região da Cracolândia.  Quer dispersar os usuários, impedir a ação dos vendedores de droga e buscar, depois, uma ação de tratamento para libertar os viciados. A cidade está apavorada. Tudo isso acontece numa região, onde antes as pessoas divertiam-se ou conversavam nos bancos das praças. Imaginar o que se vivia, no mesmo lugar, no início dos 1950 é quase uma ficção científica. O drama de São Paulo não é muito diferente do Rio de Janeiro, do México, dos centros urbanos mais populosos. Não se engane: a droga se tornou artigo de primeira necessidade desnorteando sentimentos.

O tema levanta dúvidas, corrói convivências, desfia laços familiares, tumultua pedagogias , fragiliza sociabilidades. É preciso tratá-lo com transparência máxima e não com esconderijos ou simulações. Todos buscam prazeres, se soltam. Não vamos eleger o reino das melancolias como o mais atraente. O mundo possui muitas oscilações, não poderia ser diferente. Assim, o tempo vai se formando, as culturas desenhando suas rotas. Não há como negar os contrapontos, nem anular as tragédias. O que atiça é como entrelaçar a ordem e a transgressão, como voar  no trapézio do equilíbrio.

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6 Comments »

 
  • Zélia Gominho disse:

    Questão difícil : equilibrar ordem e transgressão. A droga que anestesia e desvia a atenção da realidade, progressivo suícidio; o pouco de razão e lucidez é escravizado, acorrentado a uma necessidade imediata. Força de vontade é poder de poucos. A carne é fraca e o espírito esquece de si mesmo, de sua força, se iludi com a efêmera e falsa liberdade. Não há deslocamento sem dor. Algo deve ser feito. Muito mais do que redefinir ou reafirmar a função/ vocação de um lugar. Questão difícil.

  • Amanda Suellen Oliveira disse:

    É uma realidade que tem apavorado muitos,independentemente de classe social…Talvez esse fator contribua para lançar um olhar mais atento para o assunto.Há uma desestrutura geral,principalmente familiar.Um tema polêmico que merece bastante atenção.As causas são muitas,porém o caminho para uma possivel reestruturação/solução serve para todos.É uma questão muito difícil,todavia possível de construção de caminhos para promover resgates.

  • Zélia

    É uma questão que traz vastas reflexões. Deixa a sociedade sem fôlego.
    abs
    antonio

  • Amanda

    A sociedade estimula muita coisa quando admite o valor exgerado da competição. Quem perde fica frustrado e não se conforma. Além do mais, a carência afetiva é grande.
    abs
    antonio

  • Emanoel Cunha disse:

    A questão no que toca sobre a violência nos dias atuais tem se tornado um fato extremado nas páginas dos noticiarios, isso é uma lastima.

    No entanto, é possível contornamos esses males que frequentemente ocorreu e ocorre com maior frequência no nosso dia-a-dia, pois nos deparamos sempre sobre as mudanças das formas mais banais da violência, que ao decorrer dos tempos tem se sofisticado.

    A diferença reside na sua crueldade e capacidade de impor e adentrar em todo sistema da vida humana, destrói em massa e coloca o ser humano a várias capacidades de frustar-se mediante as afetividades hoje existentes. Deixam-nos inseguros com nossa própria vida, pois não a encaramos com todos os seus medos.

    É preciso aprender a atravessamos suas circunstâncias por meio das diversas reflexões de divergirmos os problemas que nos assolam cotidianamente e com suas histórias trilharmos a nossa sociedade além dos suas múltiplas alternativas de construirmos uma sociedade justa e habitável com todas suas problemáticas.

    Abs

  • Emanoel

    Mudar os costumes é uma quase uma revolução. A sociedade se envolveu com um cotidiano de violência, daí a dificuldade de superação e a agonia das pessoas.
    abs
    antonio

 

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