A fragmentação dos partidos, a política sem espelhos

     

As notícias são tantas que causam mal-estar geral. A desconfiança parece  figura de contos de fadas. Ninguém consegue olhar para o outro e assegurar a solidariedade. O reino das acusações e das disputas agiganta suas fronteiras. Falo da política, profissionalizada, entusiasmada com os disfarces. Observo que o pragmatismo ganha força, sem recuos ou alternativas. Os partidos tornam-se agrupamentos esfacelados. Discute-se tudo, menos soluções para  as desigualdades sociais. A questão é colocar bem o parceiro, infiltrá-lo nos  núcleos de decisão e esperar os resultados. Poucos se ligam que há o coletivo  e as reflexões. As discussões vestem-se das vaidades pessoais. Pensar a cidadania ficou num armário, cheio de livros antigos, onde Rousseau, Marx, Hannah Arendt, Foucault, Castoriadis conversam para evitar o tédio. Ajudam-se, com se estivessem em plena juventude, querendo redefinir os projetos humanos.

As corrupções alertam para o despreparo. A ética é uma palavra que habita dicionários, mas sem efeito prático. A ação política faz parte do jogo do valor de troca. Os cargos públicos não se regem por princípios que dignifiquem seus agentes. Por isso, o despreparo no sentido mais amplo é possível. Não é, apenas, questão administrativa ou falta de conhecimento técnico. É muita esperteza, muitos bailes de máscara. O que salva é que alguns não abandonam concepções de mundo solidárias, não ficam tontos com o balcão de negócios, sabem relacionar-se com história e fundar pedagogias inquietas.

Os escândalos no Ministério dos Transportes entram na dança das repetições. Tinham seguidores constantes e envolviam gastos exorbitantes com propinas. A situação das obras públicas demonstra o descuido e favorecimento com os interesses individuais. Dilma demitiu muita gente. Sobraram ameaças aos seus atos. Desmancharam-se pactos sigilosos. Há descontentamentos de quem usufrui de privilégios. A gritaria persiste, mesmo que as denúncias apontem os erros e os cinismos. Não é necessário muito esforço para perceber que os partidos loteiam benefícios, num feudalismo pós-moderno ativo e sedutor.

Não se deve congelar a cultura. O passado é espelho, no entanto as renovações acendem os desejos de fortalecer a qualidade de vida e a confiança na política. Não há modelos definitivos. As transgressões garantem que o conservadorismo, também, se quebra. No entanto, não custa ressaltar a sociabilidade, as articulações em nome da maioria. Não é a defesa da permanência, mas a fuga do individualismo crescente, coisificante, consumista. Se a política expande pactos, despidos de valores republicanos, a sociedade se fragiliza. Há violências que demonstram o desconforto diante dos descompassos dos governos.

 Nada mais perigoso do que a apatia ou a ausência de organização. Quando os políticos passam a ocupar os salões das piadas de forma avassaladora, existem desmantelos profundos. Ninguém vislumbra utopias perfeitas, contratos sociais impecáveis. As diferenças evitam totalitarismo e atiçam a criatividade. O importante é que a sociedade não sobreviva sem limites e eles se conjuguem com as vontades democráticas. Partidos desfiados em grupelhos, intrigas pessoais obscurecendo interesses econômicos, políticos soltos em tramas egocêntricas perturbam o ânimo e tumultuam as magras esperanças. O pior é fabricar mitos e simular ingenuidades. O escândalo não é o espetáculo. É o desmanche se espalhando.

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2 Comments »

 
  • Julio Cesar Silva disse:

    Este é um espetáculo antigo. Não conheço, dentro da história da política brasileira, nenhum período em que os conchavos, o toma-lá-dá-cá, os interesses particulares tenham desaparecido na construção da nossa identidade republicana. O poder se relaciona com as trocas. Nesta democracia, que alguns saudosistas ainda batem no peito orgulhosos por terem a instituído depois de tantas agruras totalitárias em épocas passadas, o único ente que não participa de sua estrutura é o povo. Há uma enorme diferença entre a letra da Lei e a práxis política. A intelectualidade brasileira está morta, não influencia nem os cachorros emaciados das praças, quanto mais os cidadãos famélicos das favelas, dos conjuntos habitacionais encrustrados em bolsões de violência e privações, nos morros e nos asfaltos. Um país acéfalo, sem uma organização competente de discussão e de influência. Isto é o Brasil. Onde estão as distintas universidades brasileiras? O que estão gerando em seus ventres? Não seria a mesma coisa, ou seja, pessoas que se utilizam do dinheiro do contribuinte para obter dado conhecimento e depois saírem pelo mundo, contando histórias, a cuidar de encher os bolsos próprios? No que diferimos de Suas Excelências no planalto central, ou na casa de Joaquim Nabuco (bem próxima a nós), nos palácios e câmaras espalhadas aos milhares pelo Brasil? Para que serve esta minha reflexão? Amanhã, tudo outra vez.

  • Júlio

    Realmente, as negociatas se repetem em todos os campos. É fundamental não deixar que elas nos contaminem. Nem todos merecem ser chamados de corruptos, embora a omissão exista e dificulte a vida social mais justa. Grato em tê-lo, de novo, por aqui.
    abs
    antonio paulo

 

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