A Grécia: as dores e os encantos das histórias

Quem admite que atravessa a história numa linha reta esquece muita coisa. O progresso é uma ficção, Algumas relações mudaram, conquistas científicas entusiasmam, mas faltam ações para transformar situações precárias e desumanas. É preciso observar o passado, não menosprezar a memória. Houve euforias, porém muitos desacertos aconteceram que mutilaram. Quem não se recorda das sequelas do nazismo, do colonialismo, das bombas atômicas? E a desigualdade social que se consolida em muitas regiões, apesar dos discursos desenvolvimentistas? Isso não significa desconfiar de tudo e jogar a luta no lixo. A história possui contrapontos, não podemos fechar as portas do labirinto.

O sofista grego, Protágoras, afirmou que o homem é a medida de todas as coisas. Firmou o relativismo que tanto incomodou os donos das verdades absolutas. Cada cultura cria suas singularidades. A polêmica, ainda, não se dissipou. Os sofistas tiveram oposições sistemáticas no seu tempo. Contribuíram para pensar as dissonâncias e analisar a diversidade. A busca da democracia é difícil, porque há princípios que produzem resistências. Nem todos aceitam mergulhar na autonomia, construir responsabilidades, socializar poderes. Cada um busca justificar o tamanho da sua medida. A política sofre abalos com as tiranias, contudo há quem argumente favoravelmente.

Os sofistas agitaram sua época. Confrontaram-se com outros filósofos, contrariaram interesses. Trouxeram debates que não cessaram de ter ecos na história. Hoje, vivemos tentando dar conta de muitas incertezas. O desenvolvimentismo ilude com multiplicação das máquinas, das construções urbanas, da ocupação capitalista do solo. A crise não sai das organizações sociais. Dançam ritmos diferentes, no entanto persistem. Não estamos premeditando paraísos, imaginando sociedade sem conflitos. Seria um exagero ou um descuido diante da incompletude que nos cerca. O importante é não negar os contrapontos, mas também não consagrar apatias. A mesmice não é a única a saída.

A situação atual da Grécia nos coloca boas indagações. Facilita um diálogo instigante entre passado e presente. As travessias se  apresentam numa multiplicidade espantosa. A estrada é curva, possui barreiras frágeis e placas enganosas. Sócrates, Platão, Aristóteles, Heródoto, Ésquilo não são estranhos vida intelectual do Ocidente. Poderíamos citar outros gregos que continuam assanhando as idas e vindas da cultura. Contribuições permanentes que, ainda, transformam dúvidas, balançam instituições, mostram que a história não é um samba de uma nota só. Freud não esqueceu Narciso, Prometeu, Édipo. Nietzsche escreveu sobre as tragédias e definiu seu apego pelos mitos.

Não custa visitar o cotidiano. Quantas relações existentes não lembram a cultura grega dos primórdios? Não necessitamos citar, apenas, os que possuem registros nas vitrines  visíveis. A Grécia é exemplo. Vive momentos de incalculáveis desafios. As decisões dos seus dirigentes mobilizam grupos de protesto e sacodem a economia europeia. A população não está ausente das lutas. Buscam alternativas, criticam os partidos, inventam meios para evitar o caos total. A experiência grega nos toca. Ela pode se espalhar pelo mundo, se a opção for a permanência de um modelo social monopolista. Os espelhos existem. As imagens ajudam a não sepultar o desejo de mudança.

PS: Dias de mudança do texto publicado: terça, quinta, sábado, domingo.

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4 Comments »

 
  • Dayse Luna disse:

    Boa cutucada! Gostei da visibilidade conferida aos sofistas. Atravessemos!
    Abraços.

  • Dayse

    Há muita coisa que se esconde. Os sosfistas merecem atenção. Por isso, a travessia não deve omitir a multiplicidade.
    abs
    antonio

  • Anderson C. M. Rodrigues disse:

    “É preciso observar o passado, não menosprezar a memória”, pois é amigo Antonio Paulo vivemos em uma sociedade com um desapego tremendo de depreciação a tradição. O Tradicional virou descartável. Mas casos como esta crise política econômica que atualmente ocorre na Grécia percebemos de como este progresso é falho e possui erros tão primários se compararmos com sociedades anteriores. O grande problema é que mesmo com todos os acontecimentos da nossa contemporaneidade ainda temos verdadeiras alucinações progressistas, visualizando em repetições algo novo, esperançosos com um progresso salvador de todos nossos males.

  • Anderson

    O historiador não deve perder de vista as conversas entre os tempos. Elas ensinam, perguntam e avaliam por onde andam as tradições. Como buscar as referências num mundo veloz e cheio de contrapontos? Nem sempre as conquistas técnicas ajudam na qualidade ética de convivência. Na ilusão do consumo, a quantidade alucina muita gente.
    abs
    antonio paulo

 

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