A história confusa dos projetos coletivos

              

A sociedade não vive sem projetos. Difícil afirmar seus prazos de duração ou avaliar o êxito de seus objetivos. Com o crescimento da industrialização e das cidades, a complexidade do coletivo tornou-se mais profunda. Há uma heterogeneidade cultural marcante, embora se ressalte, também, a grande massificação, manipulada pelos meios de comunicação. Não precisa ir muito longe para observar as diferenças e os choques de opiniões. Compare Paris com Belém, ou Salvador com Porto Velho. Os costumes variam, as tradições se consolidam, a pressa ganha espaço. Portanto, criar fórmulas fixas é a moradia de  inverdades políticas. Nunca é tarde para lembrar que a democracia tem uma história de desigualdades e de perdas.

A ideia de projeto se liga ao coletivo. É impossível pensar-se em algo que agrade a todos. As lutas sociais continuam, mostrando inconformismos. Regiões inteiras convivem com a fome. Muitas se encontram isoladas de privilégios mínimos. Existe a Dinamarca, mas também a Somália. Os sonhos não se afastam dos pesadelos repentinos e destrutivos. Nem por isso, as utopias se despedaçam para sempre. Elas acenam para o coletivo, buscam acreditar em melhorias, combatem a concentração de poderes. Os confrontos do indivíduo com o mundo é cotidiano. Desconfiar da plenitude faz parte das astúcias que nos acompanham. Morte e vida dialogam sem pausa, agitando o desejo.

Não faltam indagações. O projeto necessitaria de um envolvimento da maioria, de um questionamento constante da acumulação de riqueza, de repensar as saídas dos labirintos. Mas prevalece a disputa. Há divulgação de estatísticas que consagram os ricos e declarações dos que trabalham para ser o milionário número um, o tio Patinhas, fora da revista de quadrinhos. O esforço em naturalizar os contrastes é ponto crucial dos planos de quem constrói as estradas da dominação. Esquece a história, não reflete sobre as revoluções, difunde discursos de felicidade e salvações eternas. Maquiavel soube ensinar bem suas lições.

As transgressões estão no mundo. Não são novidades pós-modernas. Recorde-se das revoltas dos escravos romanos, das ações do cristianismo, das passeatas contra o imperialismo, das palavras de ordem dos estudantes em 1968, das greves recentes no famoso complexo de Suape. Houve, também, as atrocidades de fascismo, o militarismo cruel das cruzadas, o totalitarismo sangrento de Stalin, as guerras religiosas prometendo redenções nunca alcançadas. A confusão é grande, porque a história não é, apenas, sucessão linear de culturas, mas lida com ambiguidades e contradições. Há quem troque a rebeldia pelo conformismo, as garantias se desmancham com a soberania de interesses.

O capitalismo estimula a concorrência. Acredita que ela mobiliza e concretiza o progresso. A sua dominação é secular e o progresso não fez o que seus teóricos tanto exaltavam. A liberdade econômica não significa que a política corra solta para que os projetos coletivos se efetivem. A liberdade é associada à propriedade de bens materiais, pois o lucro é medida das ambições mais festejadas. Numa sociedade onde o individualismo se espalha, justificado até mesmo academicamente, os lugares das insatisfações são vigiados de forma tirânica ou sutil. A confusão é o espelho de Narciso.

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2 Comments »

 
  • DIÓGENES disse:

    Será que o INDIVIDUALISMO irá sequer um dia enfraquecer, e o ideal COLETIVO predominará e nossa sociedade irá em busca do famoso equilíbrio ? Difícil responder, pois muitos lutam, mas existem muitas vozes calada e que ocultam as transgressões que ocorrem hoje em dia, o capitalismo sempre difundirá a competição, os projetos sociais sempre será um marketing para a mídia e dificilmente se encontra com o verdadeiro teor de mudança social, mas enquanto sonhamos, sabemos nossos limites e correr atrás das mudanças e do ideal coletivo sempre será a alternativa para quebrar os cadeados que mantém a sociedade agarrada a tirania e a barbárie.

  • Diógenes

    A mudança é possível. Temos exemplos variados.Mas quem vence procura segurar sueus planos. A luta política é frequente.
    abs
    antonio

 

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