A história é o lugar do inesperado e das lutas

No século passado, as duas guerras mundiais foram abalos que ficaram na memória de forma insistente. A violência assustou a quem confiava no progresso e nas conquistas da ciência. Muitos esqueceram que o capitalismo continuava marcando pontos, apesar de suas instabilidades. As guerras conviveram com totalitarismos. As frustrações se reforçaram. A prática do genocídio estendeu o horror, desmanchou utopias, fermentou expectativas pessimistas. Não basta tecnologia, se a ética não faz ruído e exige que a sociedade olhe a qualidade das relações. A bomba atômica consagrou um comportamento que não se foi da história. Surpreendeu, desmontou tradições, trouxe sombras para o futuro.

A luta política não morreu, mas as relações sociais se modificam. Na sociedade de consumo, os cinismos e os disfarces ganham territórios, pois vale a prática de negociações, profundamente, obscuras, envolvidas pelos mandamentos da mercadoria. Há disputas acadêmicas que redefinem paradigmas e maldizem a pós-modernidade. No entanto, é bom ressaltar que a concentração de riquezas continua, os partidos políticos pouco confortam. Há lutas localizadas que não incomodam os senhores do poder central. Fragmentam e distraem. As tensões  internacionais, com globalização, viram notícias cotidianas.

As conversas sobre as ações da Coreia do Norte circulam rapidamente. Existem especulações sobre a capacidade de enfrentamento bélico. Muitos perguntam se o Brasil será atingido. Já escutei esses comentários em muitos lugares. Nem todos gostam de dialogar com o passado. Portanto, jogam fora lembranças e buscam o que resta de euforia. E as mortes permanentes na Síria, as tentativas dos Estados Unidos de inibir o crescimento da China? A Europa se perde em programas econômicos que nada resolvem, mas curte a chegada de grana para auxiliar a supremacia de seus clubes de futebol. Vivemos o avesso do avesso ou a história mantém travessias niilistas?

Muitos pensam na hierarquia dos tempos. Estão longe da reflexão e apostam no futuro com luzes, sofisticações e prazeres desmedidos. Mas em que o presente apresenta convivências saudáveis, afetos flutuantes, solidariedades firmadas? A falácia do progresso não deve ser apagada. Nem tudo, porém, merece o lixo, a incompletude não é um sufoco absoluto, a criatividade não está escondida na caverna de Platão. Se o inacabado nos entretece não há como colocá-lo como algo incomum.Seguimos, com algumas ideias de perfeição balançado crenças e as Igrejas focadas no aumento dos dízimos. As religiões compõem as relações sociais, prometem a salvação, mas conservam labirintos.

Quando se apontam para destinos estabelecidos, com julgamentos finais, alguma coisa está fora da ordem, como diz Caetano. Não temos como configurar o mapa do futuro. Consultar a memória é observar que repetições garantem que a violência não surgiu com a modernidade. As guerras não representam turbulências acidentais. Não precisa ir muito longe. Uma simples ida à avenida central já mostra que as tensões registram a existência de armas fatais que sustentam relações de poder. Se o valor da acumulação encanta a maioria, se a socialização assanha discussões e não práticas, torna-se impossível modificar os significados vencedores. As lutas e o inesperado, contudo, não partiram da história.

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