“A Imaginação no Poder”

Paris, em maio de 1968, viveu momentos de rebeldia. Foram manifestações que acusavam o capitalismo por suas explorações e mesmices opressivas. O inesperado tomou conta da cidade com participação decisiva da juventude universitária. Muitas utopias ganharam espaço, críticas relembraram as dimensões estéticas da cultura e os danos da massificação. Porém, as repressões minaram o movimento, apesar de suas verdades encantarem e mostrarem as insatisfações que atravessam o cotidiano. Fugiu do cerco da mediocridade, denunciou o fetiche da mercadoria, removeu as repetições e reinventou a convivência. Muitas ações se encontravam com dizeres intelectuais revolucionários e o movimento se estendeu atraindo e lançando questões que pareciam adormecidas.

Há quem subestime 1968. A política é cheia de dissonâncias, Não concordo. Tenho outra leitura.Tudo teve a marca do efêmero. No entanto, as utopias não podem ser anuladas pela ansiedade ou frustração de quem as analisa. O armadilhas das tramas capitalistas formam cercos. É preciso que as memórias se inquietem, que as ousadias tragam a imaginação tão marginalizada no ir e vir dos negócios. A sociedade se encontra, hoje, dominada pelas seduções do consumo. Muita competição ameaça a sociabilidades e cria comportamentos que abusam da violência e desprezam qualquer projeto de solidariedade. Portanto, se a linearidade segue consolidada., o silêncio atrai a solidão e a inexistência do ânimo. Globaliza-se o exílio e se mantém a servidão com disfarces perversos.

A tecnologia aumentou suas magias. Empolga. Não destruiu as burocracias, continuou reforçando os poderes das minorias e concentrou mais ainda privilégios. Os individualismos se apresentam no uso dos objetos e no deslocamentos dos afetos e dos poderes. A imaginação limita-se aos encantos materiais das vitrines. Como desmanchar a negatividade? Os rebeldes, de 1968, buscaram vozes do passado, reavivaram as possibilidades de ampliar os desejos, ocuparam as ruas e levaram os operários para celebração das novas barricadas. Não se tratava de uma revolução iluminista, mas de um alerta fundamental para que as relações sociais se desfizessem dos cantos da acumulação. Atiçou teorias, escreveu nas paredes, soltou os versos, visitou outros lugares, apontou brechas.

Os anos 1960 não devem ser esquecidos. Muitas invenções e protestos contra os desmantelos,Os tempos são outros, mas o vivido não se congela. Quando o presente se resume às novidades das manchetes, não cuida de sonhar com mitos plenos da fantasia, a sociedade se arrasta na contabilidade das suas bolsas de valores. 1968 desenhou sinais estéticos e não apenas militarizou a luta político.As revoluções contemporâneas se vestiram de totalitarismos. Anunciaram mudanças e firmaram censuras. Não custa observar os ruídos diferentes, mesmo que velozes, e os desfazeres trazidos pela persistência de uma realidade fabricada para calar. Talvez, com a imaginação no poder a autonomia retire as pedras que insistem em se fixarem no meio do caminho.

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1 Comment »

 
  • Rivelynno Lins disse:

    …a história registrou os encantos da ousadia de 1968 na França. Estes não foram esquecidos, silenciados ou invisibilizados, é importante notar, como pontua o texto, que muitos que participaram daquele momento histórico se inspiraram em outras histórias, em outras rebeldias, em outros sonhos que não apagados se tornaram efeitos. E nesse momento, é a história de 1968, seus registros, seus feitos que voltam a inspirar o silêncio e a falta de resposta contra um governo que tenta se fortalecer pela censura, pela perseguição e pela violência. Contudo, quando todos os desânimos parecerem tomar conta da sociedade, será preciso que uma pequena frase, com pequenos dizeres seja recuperada da memória da história e, novamente, talvez, possa incendiar corpos aparentemente conformados neste momento do agora, pois havia, num daqueles cartazes de 1968, os dizeres “é proibido, proibir” e os efeitos do que isso significava para muitos se transformaram em história e podem ou não se repercutir de novo, já que nada está determinado…

 

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