A inércia da política e a ação do mercado sem rosto

Gilberto Kassab trouxe agitações para o cenário política. Fundou um partido, PSD, que abalou o DEM e toda chamada oposição ao governo. Dizem que, com isso, consolidou os caminhos do adesismo. O alvoroço é grande. Não faltam reclamações. O PPS promete depurar seus quadros. Lamenta a existência de tantos traidores. Lembra as antigas tradições e esquece suas entradas nos esquemas de poder. Não é novidade. Os combates são importantes, ninguém nega sua validade e os atos de coragem de muitos. O PMDB está junto dos afetos de Brasília. De olho grande, não cessa de buscar espaços e manobra com desenvoltura.

A perplexidade, diante das ações da política brasileira, incomoda até os mais argutos analistas. A coerência não mora nos partidos, o oportunismo não descansa e os projetos são vagos. Há, porém, quem não satanize a ética. Nem tudo está perdido. A coletividade não é abandonada de forma radical. A maioria do políticos, no entanto, navega por mares obscuros, com embarcações abertas para entrada de piratas. Olhemos para as circunstâncias do nosso tempo. Será o Brasil uma exceção no campo dos negócios das administrações públicas? Por que os países colonizadores não merecem críticas ? Eles desconhecem as corrupções e as jogadas internacionais de conquistas de mercados?

Muitos pensam que pragmatismo é uma palavra desconectada com o cotidiano. Não observam como o capitalismo se compõe e estende suas teias profundas. Ele não se descuida das permanências, mas inventa manobras e ornamentos sedutores. Portanto, é pouco se fixar  nas coisas dos quintais vizinhos, pois a complexidade é maior. A grana viaja, sem cerimônias, não se importando com a lotação dos aeroportos. As guerras continuam e estão ligadas a interesses econômicas. Não são, apenas, disputas para salvar crenças e etnias. A regiões do petróleo farto sofrem com as ambições dos seus donos.

Os contrastes causam espantos, para quem cultiva a ingenuidade. Riquezas de contos de fadas juntam-se com misérias inconcebíveis. A violência agrava-se nas cidades e a droga recebe emissários, para suas tarefas de troca, com esquemas sofisticados de ação. Quem mantém toda essa organização funcionando ? Há pactos que não aparecem. A sutileza é, também, uma arma poderosa. Mostra a vitrune e disfarça o produto. A sociedade movimenta-se com praticidade, sem reflexões radicais, comemorando lucros e brilhos. O pragmatismo traz a política para a roda dos valores mais rasos e a celebração de vitórias nas disputas pessoais.

No Brasil, constroem-se abismos que amontoam suas cartografias nas páginas de jornal. Balas perdidas, escolas sucateadas, gestantes sem hospitais, lixos ilustrando praças despovoadas. Sobram inseguranças e dificuldades de denunciá-las. As censuras atuam, com esperteza, sem aquela repressão visível dos tempos dos governos militares. As artimanhas não fogem dos territórios da política. Maquiavel não se enganou. Seu altar recebe orações diárias. Se o cartão de crédito começa a se quebrar, as insatisfações se tornam mais consistentes. Infelizmente, a sociedade de consumo se assanha com o descartável. Os celulares tocam suas músicas, para embalar o fôlego dos compradores mais ansiosos. O que vale é a marca. Quem paga a conta final?

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4 Comments »

 
  • Gleidson Lins disse:

    Falar de política e de políticos é mergulhar num abismo de dissimulação, ambição, corrupção e ambiguidades. A distração da sociedade é uma arte perpetrada por estes para que suas maquinações nada sutis passem despercebidas. Para os políticos (leia-se a classe dominante, qualquer que seja ela em qualquer parte do mundo), os seus interesses estão acima de qualquer coisa. Manter-se no poder é o objetivo e, para isso, as alianças entre grupos superam as diferenças ideológicas quando a meta é estar no topo. Enquanto isso, como dito no texto, “a sociedade de consumo se assanha com odescartável”, enquanto a boiada passa…

  • Gleidson

    Gosto de ver seu fôlego. Assim se faz o diálogo e a crítica.
    Isso é bom e exercita a cabeça.
    abs
    antonio paulo

  • Kbção disse:

    Caríssimo Antônio, a fundação do anódino e adesista partido kassabista é apenas um dos sintomas do mal que assola o país: a ausência da Política, com pê maiúsculo. Vejo o Brasil caminhando a passos largos para uma grande peemedebização. Partidos sem lacre ideológico e facilmente seduzíveis com sinecuras na máquina pública. Sociedade civil (terceiro setor ou minoria militante, barulhenta e organizada, como queiram) cooptadas pelo farto faz-me-rir estatal, lutando para participar do butim e tentando impor suas agendas goela abaixo da maioria silenciosa, anestesiada pela possibilidade de comprar quinquilharias made in China. Lumpen também feliz com as migalhas que lhe sobram do banquete e o chamado Grande Capital com o riso de boca a boca por receber o Bolsa-BNDeS. Como um passarinho me contou que Vossa Senhoria aprecia a obra poética de Otávio Paz, diria que caminhamos lenta e obstinadamente para o sufocamento da política – e do indivíduo, por supuesto – pelo Ogro Filantrópico, aquele ser tentacular. Quem paga a conta? Não existe almoço grátis companheiro. Nós todos hoje e nossa descend~encia por êni gerações. E o tal mercado? Pelo menos aquela parte que não tem tenebrosas transações com o estado, que ainda não foi cooptada, sem que seja santo (claro!), na sua amoralidade, ao menos serve de contraponto à onipresença do Leviatã, fustigando-o, servindo-lhe de contraponto e criando indivíduos livres da verdadeira praga nacional chamada estado-dependência.

    Abraço

  • Guilherme

    Infelizmente, os caminhos são sinuosos. Com o pragmatismo solto, a política virou concurso de cargos. Também, sinto que as coisas se desfazem com um cinismo exemplar. Grato pelo bom diálogo. Aguarde que um sofista aparecerá amanhã na sua tela. Uma ficção para aliviar as espertezas,
    abs
    antonio paulo

 

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