A internet nos espaços privilegiados da comunicação

Os conflitos e as divergências políticas continuam acesos. Estamos na chamada era de comunicação, mas a situação não está nada pacífica. Kadafi  resiste, agonizando. A Europa continua sendo palco de violências cotidianas. A África se desconserta com sofrimentos e epidemias. Por onde caminham as alternativas de diálogo? A ciberdemocracia não poderia aproximar as culturas e construir arquiteturas de solidariedade? Por que não ultrapassar a comunicação da fofoca e da intriga ? Pierre Lévy, teórico da Universidade de Ottawa, tem ligações fundantes com as reflexões sobre interatividade e o futuro do mundo. Merece atenção.

As comunidades virtuais crescem e dominam a propagação de muitas informações. Elas atuam em rebeldias contra governos, protestam contra a falta de transparência e definem projetos de ruptura. A política renovou-se na sua ação, reformulando estratégias, antes lentas e pouco eficazes. Tudo redefine profissões e recoloca o lugar do poder. Há possibilidades de ampliar-se a descentralização e fortalecer os significados democráticos da aldeia global. Não estamos livres das ambiguidades. Elas constituem as relações sociais, acompanham as aventuras da cultura. Um mundo homogêneo é impossível, mesmo com toda manobra da massificação e da propaganda articulada para enfraquecer a crítica e a dissonância.

Lévy é otimista. Acredita que as informações podem ser mais compartilhadas. A internet se infiltra na vida de cada um de forma avassaladora. Por questões práticas, todos terminam buscando seu socorro. Seduz com seus jogos e suas notícias instantâneas. Redesenha vocabulários, destitui regras gramaticais, refaz formas de divulgar o conhecimento. Fervilha, colocando as pessoas em situações inesperadas, mas também sacudindo sua engenhosidade. Não fica, apenas, na objetividade. Estimula amizades, conquistas, desejos.

A mudança cultural não cessa com tanta tecnologia sendo inventada. Há dificuldades de compreender a velocidade das máquinas. Não se pode negar a perplexidade e a rejeição de muitos. Isso não é uma novidade. Quando o rádio surgiu trouxe espantos. O telefone foi considerado, por alguns, perigoso, pois fermentava os boatos e não respeitava a intimidade. As invasões na vida privada, sempre, estão juntas das conjecturas sobre o poder das invenções na vida moderna. Observe a televisão e o tão querido celular.Os debates importam para manter a fiscalização e o contraponto. Aumentar o canais de participação aprofunda os traços de uma convivência mais aberta e instigam a inteligência coletiva.

 Lévy não nega os excessos, o uso despropositado das redes sociais, a agressividade de comportamentos , escondidos no anonimato. Condena, porém, a censura que impede a discussão política e colabora para silenciar os dissidentes. Socializar a informação, com rapidez, é frequente. Parece que temos o mundo no nosso quintal. Tudo isso não vai acabar com as diferenças culturais ou com as armadilhas dos que concentram os espaços de manipulação. A luta terá outros cenários. Já se foi o mundo da industrialização. Os novos costumes se chocam com as tradições e velhos confrontos entre o bem e o mal serão lembrados. O mundo necesssita de valores, de julgamentos, de motivação. A pressa pode ser inimiga da perfeição, mas temos que duvidar  dos mapas que nos orientam.

PS: Mais detalhes, leia entrevista de Lévy na CULT, ano 14, 160, agosto 2001.

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3 Comments »

 
  • Rosário disse:

    Professor,

    Em um ensaio de Mia Couto, publicado recentemente no livro “E se Obama fosse Africano?,li um frase que merece o exercício do pensar sobre comunicação e solidão e estradas e…

    Cito:

    “Nunca o nosso mundo teve ao seu dispor tanta comunicação. E nunca foi tão dramática a nossa solidão. Nunca houve tanta estrada. E nunca nos visitamos tão pouco.”

    Abraço

    Rosário

  • Rosário

    A vida está mesmo comprimida.Mia tem razão.Muita técnica,pouca contemplação.
    abs
    antonio

  • Natália Barros disse:

    Q lindo, Rosário! Muito legal!

 

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