A intimidade se veste no espetáculo do mundo

 

              

Percebe-se que a sociedade se agita, quando o Big Brother começa sua jornada na Globo. Nem todos se comovem, mas o público é participante e numeroso. Não, apenas, as pessoas, no Brasil, gostam de visitar as intimidades dos outros. O mundo se escancarou com uma nudez que espanta os mais tímidos. Os  meios de comunicação intrometem-se nas privacidades, com sofisticações. Os amores de Hebe, os descontroles de Suzana Vieira, os contratos publicitários de Ronaldo, as aventuras de Maradona, as fortunas dos astros do tênis. Cada página de jornal revela assuntos comuns e assanham com novidades escandalosas.

Em toda cultura houve diversidade de hábitos. Ela distingue comportamentos, estimula ousadias, esconde seduções. Por mais que se busque escrever um história uniforme, se cairá em análises supérfluas e pouco liagadas à capacidade de inventar dos seres humanos. É melhor assumir os choques e os descaminhos. Nada de simular harmonias e silêncios permanentes. A cultura é movimento, mesmo que retome significados e os transforme. Por isso, o sucesso das invasões nos desfazeres dos casamentos ou na falta de compostura dos artistas e políticos.

Não é uma questão exclusiva da ética. Não tem o crivo inabalável da ordem dominante. Sempre a conversa rolou, com interesses múltiplos. A sociedade não dispensou o outro e suas andanças pela vida. São registros que servem para flexibilizar a sociabilidade e redefinir processos conhecidos como civilizatórios. Gostamos de ler Platão, Montaigne, Baudelaire, André Gide, porém há também um olhar sobre o que move a escrita de cada um. Qual era a opção política de Hannah Arend e como se deu sua amizade com Benjamim? Picasso era mesmo um conquistador inquieto?

Acrescente-se que tudo não termina com as celebridades. As fofocas dos bairros, das ruas, dos edifícios ganham espaços e incomodam muita gente. Os porteiros de prédios narram acontecimentos, como poucos contadores de histórias. Não perdem um lance sobre o morador do 202 ou a moradora do 190. Como está o casal do 330 ? Houve uma briga ou a separação se anuncia? A televisão é lugar de especulações, mas imagine o que se diz  nas praças de alimentação dos shoppings, nas concentrações dos jogadores de futebol, na caso do vizinho?

Nas academias de intelectuais,  discutem-se os conteúdos das culturas e suas complexidades. O consenso é  impossível. Faz parte do contraponto. Ninguém, no entanto, duvida da imensa curiosidade que atiçam muitas pessoas, não importando seu grupo social. Falar sobre outros fabrica imagens  e avaliações, promove julgamentos que atrapalham ou dignificam os indivíduos.

Lembremos Nietzsche e suas reflexões sobre os valores. A impermanência é um dado. Não há paralisias fixas na gestão da cultura. Há desconfortos e decontinuidades, porém os entrelaçamentos são visivíseis, apesar do sólido que se desmancha no ar. Os sustos existem e vestir a intimidade é uma tentativa de manter a discrição. Para alguns, encontrar resistências e firmar solidões aumentam a possibilidade de sair das cavernas.  Há câmeras em todos os cantos que sondam qualquer descuido. O espetáculo abre o mundo, para as investigações cotidianas da internet. Quem se desconsola e se desnuda?

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