A justiça e a notícia na corda bamba dos valores

Há fatos que aparecem na imprensa cercados de manchetes avassaladoras. Fixam-se no noticiário. Apontam questões graves. Misturam versões. Deixam os leitores querendo esclarecimentos, mas existem limites que fogem ao controle dos jornalistas. Na velocidade do viver, o mundo exige novidades. As suspeitas tomam conta das fofocas e  a perplexidade termina desaparecendo. É difícil descobrir o desfecho, se houve soluções, se tudo não passou de uma jogada. As desconfianças ganham corpo e as incertezas se consolidam. Mas tudo é possivel. Há focos de atenção redefinidos, mortes anunciadas com estardalhaço.

É, ainda, recente, o caso que envolveu Dominique Strauss-Kahn, o ex-poderoso do FMI. As acusações eram de ordem moral, mexiam com preconceitos, com agressividades.Colocavam Dominique numa situação complicada. Não faltaram especulações, intrigas diplomáticas, reações dos amigos. O assunto polêmico, cheio de idas e vindas, mas com repercussão internacional. Estava, em jogo, um órgão de prestigio e um senhor que circulava, com desenvoltura, na política, possível candidato ao governo francês. Os ingredientes tornavam a notícia de valor comercial indiscutível, garantia curiosidades e julgamentos controvertidos.

Dominique conseguiu sair da prisão. Possui sólidos recursos e bancou, com a esposa solidária,  uma fiança milionária. Contou com ajuda afetiva da família. O sufoco maior foi diminuindo, embora a sua fama de conquistador tenha provocado outras notícias. Portanto, a agitação seguia, em ritmos desiguais. Imagine os bastidores de um processo de tal vulto. Quantos interesses não cercaram as ações dos advogados e dos membros da justiça norte-americana ! Havia, também, mais fogo na lenha. Quem o denunciava era Nafissatou, camareira de uma hotel. Não se tratava de uma cidadã da chamada elite. Outras questões explodem: as condições de vida dos imigrantes, as diferenças culturais, as possibilidades de suborno. Com certeza, daria uma novela das 21 horas, de audiência estupenda. A sociedade se choca, porém curte certas aventuras e escolhe suas vítimas. Não há unanimidade, forma-se uma expectativa, as manchetes mascaram. O   tempo passa.

Um caso de agressão sexual causa abalo em tradições, sobretudo quando envolve senhores, aparentemente, acima de qualquer suspeita. Entre verdades e mentiras, os meios de comunicação tentam visualizar os resultados dos impasses, quais as alternativas para solucionar os incômodos dos seus participantes. Haverá o dia do esclarecimento formal, onde as perdas tumultuarão os sentimentos de alguém e os insatisfeitos consolidarão suas queixas. Nesta semana, na segunda-feira, o promotor de Nova Iorque pediu o arquivamento do processo.

A corda bamba se balança com força. Alguém vai cair em descrédito. O acusado livrou-se do peso maior do processo. Michael Obus, juiz do Tribunal Penal de Manhattan, em seguida,constrói, com sua sentença, o ato final. Com isso, Dominique poderá voltar para seu país e respirar o bom ar da inocência. O advogado de Nafissatou sente desmoronar toda uma sequência de tramas judiciais que ele pensou para incriminar o ex-diretor do FMI. A sentença trará discussões e inconformismos. As ambiguidades do caso são muitas. Muitos defenderão Dominique e centrarão argumentos em outros aspectos do processo. Estamos distantes das provas, dos depoimentos, mas não podemos abandonar os pontos de interrogação.

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