A luz afirma o mundo das cores encantadas

Desvio o olhar da tela do computador. Muita luz entra no quarto e procuro descobrir a sua trilha. Por uma pequena janela transparente, contemplo o verde de uma mangueira antiga. No fundo, o azul do horizonte, o vermelho de uma rosa na jardineira da varanda. Respiro com força, para captar tanta coisa que traz o mundo de fora. Ele ajuda a iluminar o mundo de dentro. Ficaria melancólico, de vez, se habitasse em um lugar onde o inverno perdurasse e o sol fosse um intruso. O calor incomoda, mas aquece e inquieta. Gosto do diálogo do de dentro com o de fora. Ele é imprescindível.

Não é uma reflexão inesperada. Há muito que cultivo essas ideias. Acho que o brilho das invenções forma-se com os contrapontos. Sou um observador das dissonâncias. Por mais que se insista na mesmice do consumo, resisto as suas fascinações e mergulho na diversidade. Não fabrico máscaras, porém admiro a força de romper com a permanência das vitrines. Elas idiotizam. É preciso não ficar preso ao imediato. As variações das cores está no cosmo e não restrita aos anúncios de televisão e aos modelos dos carros.

Quando a repetição ganha soberania, a criatividade se esvai. Por isso, o cuidado com a forma e suas geometrias é desafio. Nada de eleger os artifícios e se desfazer das primeiras visões do mundo. Há espaços para tudo, desde que não sucumbamos na superficialidade. Afirmo a palavra contemplação, porque ela se antepõe à pressa descuidada. Há as intuições. Que sejam celebradas, pois são construídas no interior dos ruídos e do silêncios. Surpreendem e animam, possuem pacto  com o lúdico.

Assim, seguem as travessuras do encanto. Transformá-lo em mecânico, resultado de laboratórios frenéticos, minimiza as peripécias e fantasias do humano. Basta lembrar-se das obras de Picasso, Miró, Matisse, Duchamp ou das ficções de Borges, Pamuk, Calvino, Guimarães, Mia Couto. E os dribles de Garrincha, a folha seca de Didi, a visão de campo de Pelé, as improvisações de Maradona ? Os exemplos são muitos, peço perdão pelas ausências. A subjetividade surge, nesse vaivém, com as luzes que afinam o desejo de flutuar.

A população cresce e assusta ver tanta gente, num movimento sem sossego. Na história, a uniformidade é um disfarce e as hierarquias, jogos dos donos do poder. Será que os gregos da época de Platão não se incomodavam também com certas pressas? Cada cultura arquiteta suas aventuras no tempo. O avião é contemporâneo, encurta distâncias. No mundo antigo,  disputavam-se corridas e se praticava esporte com entusiasmo.

A sociedade responde e articula-se nas necessidades e termina por buscar atalhos,  sem evitar as cavernas escuras. Cada instante mexe com o passado, refaz suas leituras e interroga suas ações. O viver é encontro e também desmantelo. Apolo e Dionísio conversam, para negociar as luzes e as sombras. Sempre. Nietzsche os provoca, com as profecias de Zaratustra. Nós, incompletos, somos uma ponte para chegar a lugares que desconhecemos. As cores nos garantem que temos nomes e significados. A escrita estimula  e nos leva para o turbilhão das ruas e dos afazares.

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

4 Comments »

 
  • Flávia disse:

    A luz, a trilha, as cores… uma rosa para dizer que não é perigoso ser feliz!
    Observar dissonâncias, não perder as primeiras visões de mundo, deixar que o calor do sol aqueça o encantamento…
    É preciso ser poeta para resistir ao imediato, à mesmice, à superficialidade, com a ousadia dos que não abandonam o lúdico e permite que o desassossego cotidiano conviva com o desejo de flutuar.
    O mundo carece de mais homens e mulheres que respirem sem pressa, que surpreendam e nos ajudem a enxergar as cores em meio às sombras.
    Um abraço.
    Flávia

  • Flávia

    Seu texto tem uma sintonia com o mundo e com a poética.Grato.
    abs
    antonio paulo

  • Priscila disse:

    A sociedade precisa de pessoas incostantes e não acomodadas com as descobertas já feitas. E que ao mesmo tempo que são inconstantes, conseguem ter um momento de passividade para reparar as cores de uma nova ideia.
    Precisamos de seres inconstantes e de seres passivos para apreciar o já descoberto. Mas mais que isso,precisamos de pessoas que possuam as duas características ao mesmo tempo para que a sociedade não entre em um movimento mecânico,repetitivo.

  • Priscila

    Realmente, se tudo fosse igual, o mundo ficaria sem graça. Mas a inquietude é importante para manter a crítica. Sempre haverá a diversidade e temos que aprender a conviver com as diferenças. Grato pela visita.
    um abraço
    antonio paulo

 

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>