A memória costura as lembranças e os afetos

Tenho quatro filhos. Melhor dizendo: duas meninas e dois meninos. Já estão grandes, mas gosto de vê-los nas lembranças da infância e curtir saudades. É bom olhar o tempo nas suas sinfonias de alegria e de ingenuidades. Os filhos são pedras preciosas que se juntam aos três netos: dois meninos e uma menina. Uma base afetiva forte e presente que anima a vida e flutua nos tapetes mágicos. Não se trata, aqui, de nostalgias sem fim, para consolar os feitos do passado. É que muitos exaltam os trabalhos, os prêmios conquistados, a grana acumulada. Esquecem os aconchegos dos afetos e se inserem no consumo geral. Desprezam as pessoas e se amarram nas coisas.

Essas viagens da memória são fundamentais. Não deixam que as contemplações fujam, enganam a pressa e abrem o coração. É difícil sair do vaivém veloz do mundo contemporâneo. Ele é avassalador. Faz os relógios tremeram e a ansiedade disparar. Por isso, não custa dialogar com a paciência, observar que as pessoas crescem ou não conseguem encarar o mundo com seus contrapontos. São muitas escolhas. Nem todos colhem sentimentos, preferem investir na objetividade, aceleram as bolsas de valores particulares. O equilíbrio desmancha-se diante de uma contabilidade atrelada ao sucesso das vitrines.

As palavras ajudam a firmar as lembranças. Elas desenham escritura prazerosa, porém podem definir labirintos e trazer desprazeres. Não há com anular os desacertos, a vida  não se esgota no homogêneo, seus oceanos são vastos, suas embarcações múltiplas. Lembrar não é  se dissociar do esquecer. Aparecem imagens de paixões e amarguras. Elas se vão rapidamente. A memória é seletiva, não se forma consagrando silêncios e expulsando ruídos. Tudo se mistura numa complexidade indefinível. O mapa de cada um é o mapa de cada um. Há toques, proximidades, porém as estradas muitas vezes não se cruzam. Cultivamos indiferenças, seguramos certezas, desejamos ampliar o território do sossego. É impossível evitar certos desmantelos.

O tempo passa, a memória não cessa de se movimentar. Cada dia arrasta seus pedaços do passado, sacode outros foras. Amores são escondidos, desconfianças fortalecidas e os apocalipses ganham seus espaços. Ninguém se distrai radicalmente. A vida se dilui, os mistérios gostam das perguntas e não constroem respostas. Há dúvidas dos encontros com as luzes de que os filósofos tanta falaram. Sobrevivemos arranhando imaginações. Excesso de realismo corta fantasias, inquieta, pois seca as fontes de criatividade, banaliza. Nada mais desconfortável do que o perfume vulgar do vazio, o tilintar de copos anônimos.

O texto me colocou no rio do tempo. Não renunciei aos chamados da memória, nem sou formulador de ortodoxias. Sempre trago os versos de Drummond que avisam que o coração é mais vasto que o mundo. Não nego. Apesar da sociedade do espetáculo engrandecer o efêmero, não precisamo acompanhá-la nas astúcias. O poder circula nos detalhes das arquiteturas mais simples de cada projeto. Não razão para destroçar as utopias, distanciar-se dos afetos. A vida segue e as perplexidades se remontam. As relações nos completam, nos desafiam, prolongam sossegos e  desadormecem desejos.

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