A morte anunciada: o poder negociado e cínico

A morte de Kadafi ganhou todas as manchetes possíveis. As notícias correm o mundo, com anúncios de vingança. Os acontecimentos acendem juízos, sentimentos, escolhas. Depois, vem a serenidade e o cansaço do sensacionalismo. Segue-se a busca de novidades, fatos mais novos ou mesmo a consolidação de expectativas já conhecidas. Um ato isolado não diz o que foi toda a história. Kadafi resistiu. Sabia que o poder tem simbolismos fortes. A morte física é importante. Ela aponta transformações, afirma a vitória final. Na Líbia, os sonhos revolucionários impulsionam rebeldes. Para eles, o ditador não podia permanecer vivo. Isso diluía a revolução, impedia o término da soberania autoritária. A violência não tinha limites.

Kadafi não governou sozinho. Não existem governantes solitários. Eles têm poucos amigos e, às vezes, raros simpatizantes. Escondem inseguranças e vendem vaidades desmesuradas. Acham-se seres especiais, dignos de adoração. No entanto, há quem se concilie com suas ideias, quem consagre seus princípios, comungue com suas arrogâncias. Ficam saudades. Getúlio Vargas, Kennedy, Miguel Arraes, Lênin, Roosevelt, Franco, Castelo Branco, e tantos outros, moram nos corações nostálgicos de alguns fanáticos ou nas análises de estudiosos das artimanhas do poder. Portanto, o tema é confuso e a instabilidade não cede. Há quem se lamente da queda do nazismo alemão, quem subestime as amarguras dos holocaustos, quem admire as travessuras de Jânio Quadros e as censuras do general Médici e  companheiros.

Não adianta esconder a diversidade. As sinfonias não foram compostas para acolher plateias acomodadas. A cultura  costura-se com as diferenças. Agrega e fragmenta, fertiliza e desfaz, alegra e desespera.  Espantar-se, com as arbitrariedades, faz parte dos humanos. Kadafi tinha seus fãs. Eles não se foram, garantem um altar para o ex-líder. Seu governo caiu, mas a história se embala com as divergências. A unanimidade não existe. Sobram dissonâncias e inquietudes.Não custa voltar no tempo. Kadafi recebeu muitas homenagens. Achavam seu comportamento excêntrico, antes dele receber acusações das potências internacionais.

Havia interesses imensos em negociar com a Líbia e a imagem carismática de Kadafi espalhava o exótico. Hoje, não faltam manifestações de repúdios. Surgem outras negociações. O cinismo ocupa lugares nas redes de poder de forma contínua. Não tira férias. Azar de quem sucumbe, sorte de quem se levanta. Novas alianças serão articuladas. O mundo globalizado necessita de petróleo. A saga de Kadafi se reveste dos ornamentos da memória. A Europa está atenta, procurando atalhos para sair da crise. Os espelhos mudam, porém as assombrações assustam e surpreendem.

O poder não abraça o absoluto. Tem seus dias contados. Podem ser décadas Mas ele se esgota, deixando retratos de traições, armadilhas, glórias, batalhas, barbáries. No Oriente Médio, o futuro promete. Os conflitos latentes criarão tensões e o nome da democracia será exaltado pelo Ocidente astucioso. As certezas são poucas e as riquezas, muitas. Portanto, não é ora de profecias. Elas costumam falhar e desmoralizar os sábios orgulhosos. O mundo se reorganiza, amplamente, contudo se ressente da ausência de valores solidários e vontades coletivas decididas. Os julgamentos recentes assinalam manobras do momento. A história não se afasta do inesperado.

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6 Comments »

 
  • Emanoel Cunha disse:

    Viver e aprender com os destronados e os exaltados. Somos levados a compreender que a política é dominada e controlada por filosofias, muitas vezes que inusitadamente e inesperadamente muda de concepções. No entanto não são todas suas práticas a serem exercidas que deixará suas marcas na história. Somos o compêndio das construções de práticas de sociedades que valorizam suas culturas e dissemina sua culturas movidas por interesses e cinismos que corroem ,e, ao mesmo tempo, constroem nosso modo de vida.

    Diversidade é um legado que todo indivíduo e ser humano escreve ao exercer sua atuação no cotidiano de suas vaidades e desejo de viver. Portanto somos humanos e fazemos história, seja pelas individualidades, diversidades, sonhos, desejos, guerras, paixões, ambições tudo isso com a força da revolução de construirmos memórias e compreendermos os significados de personagens que transcendem com suas próprias histórias.

    Abs

  • Emanoel

    A política diz das relações de poder e das suas manobras.Cada cultura a manobra com sua singularidade.
    abs
    antonio

  • Natália Barros disse:

    Antonio Paulo, fiquei perplexa com as imagens da morte do ditador da Libia. Violencia gerando mais violencia. O natural impulso agressivo trabalhando contra a cultura.
    Penso com você, este episódio nos mostra muito mais que história política.

  • Zélia Gominho disse:

    Quem com ferro fere com ferro será ferido… A antiga lei de Talião, infelizmente, ainda vigora apesar de toda modernidade, de todo avanço evolutivo da humanidade desumana, de toda bandeira democrática que tremula. Liberdade e democracia incorporam significados diversos nessa luta pelo poder nesse cadinho de culturas judaico-cristãs-muçulmanas expremidas entre oriente e ocidente.

  • Zélia

    A democracia continua vagando. Temos um mundo de muita violência.
    abs
    antonio

  • Natália

    A violência é um sinal de permanências terrível. Na quarta, escreverei sobre isso.
    abs
    antonio

 

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