A morte de Bin Laden e as dores dos outros

O ataque, de 11 de setembro, às famosas torres assustou o mundo e, sobretudo, os norte-americanos. Morreram pessoas na hora do trabalho. A segurança da Grande Potência se sentiu minada. Muitas versões correram nas fofocas internacionais. Não se pode, porém, esquecer as vulnerabilidades. Criou-se mais uma paranóia. O medo do terrorismo multiplicou-se. Não era uma novidade. O mundo convive com violências e com atrocidades cotidianas. No entanto, houve uma comoção internacional, devido às manobras bem articuladas dos executores. Os Estados Unidos da América ficaram vigilantes e exigiram ampliação dessa vigilância. As guerras ganharam novos nomes e novas justificativas.

A morte de Osama bin Laden trouxe impactos. Quase não se falava nas suas aventuras: o milionário que resolveu mover sua fortuna para financiar rivalidades, legitimadas por intenções religiosas. As imagens de demônios voltam a tomar conta da política. A velha luta do bem contra o mal, ainda é tema de debates e de produções culturais. Bin Laden foi acusado de liderar um movimento para encurralar os norte-americanos e tornou-se o inimigo que deveria ser  eliminado, antes que outros atentados surgissem. Armou-se uma operação poderosa, mas nada de êxito. Ele parecia constituir-se uma lenda. Quem sabe uma invenção para esconder prepotências. 

Com o anúncio do presidente Obama, sobre a morte de Laden, houve uma recepção eufórica de muitos cidadãos. A novela firmou um rosto, Bin Laden teve encontro fatal com os serviços secretos que o procuravam. Nada disso garante sossego propalado. Há quem desconfie das versões oficiais. Os suspenses não se acabam. As astúcias permanecem passeando pelo mundo. Agora, vamos aguardar quem serão os atores da vez. Sobram especulações. Kadafi está revoltado com a morte de seus íntimos. Os conflitos, no Oriente Médio, fortalecem-se e envolvem muitos países. Há sempre razões. Cada um chora suas mágoas. O tema da violência não sai do cenário, apesar do  desconforto que proporciona.

Nem todos estão ligados, como dizem os mais jovens. Muitos possuem uma vida diária acidentada. Preocupam-se com necessidades básicas, não se tocando com a globalização. Seus problemas são imediatos. A chuva ameaça derrubar suas casas, a carne é uma refeição de luxo, a saúde é precária. Vivem uma insegurança contínua. Imaginem as regiões onde as guerras se sucedem! O que significa a paz para cultura dessas pessoas? Como sonhar com a harmonia ? Sustentar esses descontroles é tormento. Eles não chegam pela TVs. Consolidam-se na proximidade, não configuram fantasias. Solicitam coragem para seguir adiante, mesmo cercado de desesperanças.

Não custar assinalar os contrapontos. Os fatos acontecem, têm suas repercussões. É importante, no entanto, compreender suas dissonâncias e suas desigualdades. Os sentimentos diferem, os hábitos se transformam, as emoções não se despem da história. A morte de Bin Laden move representações diversificadas. Há pessoas que não conhecem a força dos Estados Unidos. As perplexidades provocam expectativas variadas. As narrativas históricas mostram sentido, às vezes, considerados estranhos. O que sabe quem habita em São Paulo ou Teresina sobre o terrorismo e sua divulgação ?  Não se deve desprezar a dor do outro e não construí-la como um espetáculo. A vastidão do mundo contraria a mesmice.

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8 Comments »

 
  • Kbção disse:

    Fato: o mundo é complexo demais para interpretações amadoras, maniqueístas, binárias. Entre o preto e o branco existem infinitas tonalidades de cinza, que escapam a olhares desatentos e mentes preguiçosas, confortáveis em sua visão reducionista da história. Ignorance is bliss. Ponto.

    No entanto, a fumaça relativista do parágrafo acima se dissipa ante o terrorismo. Este é injustificável, sob todos os aspectos, parâmetros ou códigos. Há os românticos que ainda tentam conferir uma aura de resistência a esses celerados, como se fossem aliados na luta contra o tal do imperialismo. Tolos, seriam os primeiros a ter o pescoço sobre a adaga do Islã Radical (minoria entre os muçulmanos). Afinal não é a esquerda antiamericana aqui e alhures que defende uma agenda abominada por clérigos em suas fatwas? Feminismo, igualdade, democracia, laicidade são todos valores negados pela interpretação fundamentalista do Corão. Salman Rushdie que o diga. Na verdade, ao pé da letra, estes não podem nem ser chamados de fundamentalistas, pois fundamentalismo é só um interpretação literal dos textos religiosos, sem apelar a violência como arma de proselitismo religioso. Engana-se também que a certamente criticável política externa ianque seja a causa dessa aberração. O terrorismo tem origem remota na interpretação radical do livro sagrado dado pelo Wahabbismo no século XVIII e foi originária e principalmente usado contra os próprios muçulmanos, pertencentes à maioria pacífica e tolerante que segue os ensinamentos de Maomé. É, caro Antônio, o mundo é complexo e possui várias frestas, só que o terrorismo mata qualquer ímpeto relativista que há em nós, despertando o absoluto que cala fundo na alma de cada um.

    Abraço

  • Guilherme

    Belo texto para um bom diálogo. O terrorismo é violência, inquieta e tensiona. Podemos seguir outros caminhos e superar a complexidade que tanto nos persegue. É necessário desconfiar dos espetáculos noticiosos. Eles promovem aparências. O mundo, ainda, bebe o dualismo que tanto renega a multiplicidade. É uma pena que a morte se mantenha como uma resposta política. Como seria se prevalecessem os diálogos e as diferenças ajudassem a conjugar a multiplicidade? É saudável visualizar os sonhos. Eles nos tiram da mesmice. Uma sociedade que não dá conta do básico, merece crítica, mas não adianta firmar desilusões insuperáveis. O contraponto compõe o ritmo, desde o pecado original e suas ficções.
    abs
    antonio paulo
    abs

  • Geovanni Cabral disse:

    Eis o espetáculo, Osama Bin Laden jaz nas águas azuis do oceano, ou será verde? Bom, o fato está consumado. Dez anos se passaram e em uma operação secreta o homem mais procurado do planeta é encontrado. Fuzilado em sua fortaleza aos olhos do governo Paquistanês, próximo de quartéis generais. O mundo para, comentam, uns choram outros, dão pulos de alegria. Para os americanos vitória, para outros desconfianças. Querem o corpo, a prova do crime, querem as imagens que os façam descansar em paz. Entre a dúvida, querem a certeza. Ficamos a pensar que sociedade é essa que a morte é uma festa? Que conceito de justiça é disseminado em seu cotidiano? Não dar para entender. Outros mistérios se escondem nas sombras deste cenário de horror. Algo que o simples espetáculo midiatico não dar conta sozinho. Surgem discursos, renascem o Capitão América, o Super-homem, a Liga da Justiça. Contextos se intercruzam, realidades dicotômicas se faz presente. O poder assume a liderança, a nação vibra. No Brasil ontem e hoje, nada aconteceu. Silenciaram a violência, a corrupção, as enchentes no Nordeste, as cartolas dos políticos. Bin Laden era a manchete. É lamentável os rumos que tomam a nossa história, a forma como a memória é trabalhada para apenas reproduzir. Parramos e observamos ao nosso redor muitas permanências e poucas mudanças.

  • Geovanni

    Tudo é mesmo um grande espetáculo. Foca-se num evento e o resto parece não ter importância.
    abs
    antonio paulo

  • Monique disse:

    Eis a mais badalada das notícias,a morte De Osama Bin Laden.Muitos são os discursos e manifestações em torno da informação.
    Muitas são as manipulações e muitas são as subjetividades nas entrelinhas.Muitas justificativas são ditas e logo depois retificadas.É preciso estar atentos para os excessos e interpretações controvérsias dos fatos.
    Outros diálogos merecem ser estabelecidos além dos julgamentos maniqueístas com relação a Bin Laden, como a justificativa de sua morte, os meios utilizados para se chegar até ele, os sofrimentos disseminados em todo um pais, a questão da tortura..
    Nossa visão crítica do fato deve vencer a visão míope e tendenciosa dos interessados.

    Bons diálogos por aqui,Antonio.
    É sempre um prazer.
    Um bom dia!

  • Monique

    Pois é, a badalação vai ser grande. A política se reduz a violência em todos os sentidos. É uma pena. Não devemos ser indiferentes a tudo isso. Não interessa de onde parta. O terrorismo também é um tiro na sociabilidade.
    abs e bom dia
    antonio paulo

  • Gleidson Lins disse:

    A morte de Osama bin Laden é apenas mais um capítulo de uma batalha entre o Oriente e o Ocidente que vem ocorrendo por mais de 2.500 anos, desde os embates entre gregos e persas nas Guerras Médicas do século V a.C. Os atores mudaram com o passar do tempo, mas as divergências entre os dois mundos mantiveram-se, sendo a zona de interseção, de encontro entre esses mundos o barril de pólvora do Oriente Médio. No Ocidente, sucederam-se gregos, romanos, bizantinos, germânicos, britânicos e franceses, norte-americanos; o Oriente teve medo-persas, sassânidas, árabes, turcos e terroristas fundamentalistas islâmicos. A política, o poder e a religião motivaram estes confrontamentos através da história. Nos últimos anos, a balança aparentemente pendeu para o Ocidente, que até conseguiu plantar um estado ocidental em plena Palestina. Mas o terror talibã e a al-Qaida substituiram os estados como atores do Oriente. Os Estados Unidos tinham seu território continental intocado por qualquer força estrangeira desde a guerra Anglo-americana de 1812, até o ataque às torres gêmeas de Nova York em 2001. O ataque atroz a inocentes foi um golpe impactante no orgulho ocidental e cristão. O gigante foi atacado em casa, e tinha que revidar. Dez longos anos se passaram, com guerras e ataques de americanos e aliados no Oriente, atingindo regimes ditatoriais, até conseguir o seu troféu: matar o líder da organização terrorista quase espectral al-Qaida que, como os “navios-fantasmas” das histórias de piratas, surgia para atacar e sumia nas brumas do tempo. As implicações do ataque às torres gêmeas são muitas. O mundo não foi mais o mesmo desde então. Há quem indique uma mudança de época, como a queda de Constantinopla e a Revolução Francesa determinaram. Osama foi morto. O Ocidente foi vingado. Por enquanto.

  • Gleidson
    As rivalidades são históricas e a violência não cede. Difícil pensar os encontros culturais. Há disputas e interesses que deixam tensões. Visões de mundo diferentes deviam enriquecer a sociedade humana. Você fez uma boa apreciação da questão. Esse clima de vingança é um tormento que não cessa.
    abs
    antonio paulo

 

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