A multiplicidade solta e a solidão das travessias

Estamos vivendo o último dia da história. Parece uma brincadeira. Quem garante o futuro do mundo com tantas alternativas e estratégias soltas ? Poucas referências conseguem afirmação. A cultura acumula conhecimentos, objetos, intrigas, instituições, mas a multiplicidade abre portas e esconde labirintos. A existência de muitas coisas transforma as opções, desengana. Há tramas misteriosos. Querer o esclarecimento final de séculos de aventuras é ousadia desmedida. Amanhã pode ser outro dia, porém as permanências não anunciam metamorfoses radicais. As sociedades organizam-se revendo tradições, estimulando conquistas. Não há traços definidos, sem desconfianças, com o otimismo como palavra de ordem.

A história é uma invenção humana. As certezas sobre as origens são vacilantes, não convencem. Há quem se segure nas crenças religiosas e sossegam o coração. É uma escolha, não adianta colocar, contudo, ponto final nas buscas da vida. A inquietude está nos coletivos e nos esconderijos do individual. Cada pessoa que aparece no mundo traz uma abertura, pode desnudar magias ou acomodar-se nas banalidades mais inúteis. Portanto, escrevemos, sempre, cercados pela especulação, como adivinhos que exercitam intuições e se divertem com os medos dos outros. Cada ação não deixa de desenhar marcas, porém a memória não deleta seus esquecimentos.

O mundo capitalista investiu na competição, acreditou na capacidade de trocar valores e mudar conceitos. Apostou na velocidade, rasgou esperanças, concentrou na grana e na quantidade. Ninguém fechar para as variações e dissonâncias. Quem antes se admirava com o telefone, hoje fica perplexo com as redes sociais. Todos na comunicação, com simbolismos que se alteram e alfabetos mínimos. Os significados são outros. No entanto, o afeto acompanha sentimentos e mostra que a técnica não possui respostas para muitas indagações. O computador é poderoso, as distâncias físicas fragilizam-se, mas o aconchego faz falta. Não bastam maravilhas instantâneas. Elas representam, muitas vezes, o vazio.

Os preconceitos dos desfeitos, o passado redimensionado. Nem tudo corresponde ao impulso da comunhão. Cultura promove, também, substituições. Os preconceitos não morreram; eles ressurgem ou ganham outros discursos. Há quem não aceite um mundo democrático e enalteça as hierarquias mais conservadores. As guerras continuam, o racismo não se apaga, as desigualdades intrometem-se nas relações sociais. O ir e vir faz a história perder narrativas exemplares e conjugar verbos desconhecidos e atravessados pelas novidades. Há um recolhimento e uma euforia. As celebrações lembram entrelaçamentos e quebram encantos dos que elogiam a sequência do progresso. A solidão mistura-se com as travessias.

Ficamos com as ambiguidades. Existimos. Os dualismos não dão conta das reviravoltas da cultura. Falar do bem e do mal como valores únicos e contraditórios, não ajudam a desmontar desejos e construir arquiteturas renovadoras. Por isso, a multiplicidade é solta. Ela invade a política, o saber, a sexualidades, os planejamentos. Difícil é articulá-la com a socialização da vida. Diante de tantas diferenças, hesitamos. A história é um espelho. As imagens chegam, recriam-se, surpreendem. Há comportamentos que recordam séculos e práticas demolidoras. No canto da solidão, observamos que as passagens do tempo são emblemas. Interpretá-los é o ritmo da vida, sem apocalipses.

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