A narrativa: Nietzsche, Batman e o historiador

A verdade é curva e o historiador já foi , muitas vezes, chamado de mentiroso. Basta ler os escritos de Nietzsche que, hoje, iluminam as reflexões pós-modernas, inclusive as foucaultianas. A academia é lugar de hierarquias e de regras, onde as especializações se aprofundam e o debate sobre a verdade ganha vastos territórios. Ele existe dentro do quadro das instituições que conservam e garantem privilégios, mas não estão adormecidas em berço esplêndido. Nelas circulam inquietudes e travessias ameaçadoras, bordados e remendos. Não se engane com as projeções da mídia, nem com a sagacidade da sociedade do espetáculo. Batman perseguiu o Coringa, para esquecer sua problemática amizade com Robin e o Superman pouco liga para as instabilidades de Obama.

A vida corre.  Ela institui gramáticas, ao mesmo tempo em que se perde na massificação da aldeia global. Hannah Arendt  já alertava para os obstáculos que a história poderia criar. Os temas mudaram, porque as preocupações mudaram. Estamos, numa época, onde 120 milhões pessoas sofrem de depressão. Leia o livro de Maria Rita Kehl, O Tempo e o Cão, e reveja seus conceitos de tempo. É a psicanálise buscando articulações com a história. Rita dialoga com Walter Benjamin e viaja pelas subjetividades. As fontes ajudam a desvendar as lutas e a justificar as interpretações. Elas são importantes para firmar as narrativas e compreender a incompletude. O saber não deve ser jogado na lata do lixo, só porque é incompreendido e não recusa a mesmice.

A história está aberta a muitas narrativas, é território de controvérsias, de legitimidades,de  arrogâncias, de levezas. Uns angustiam-se com a falta de provas, outros consomem todas sugestões dos acervos. Uns unem-se com a literatura, outros a abominam, pois detestam as ficções.  Só as cultiva nas costuras das suas neuroses, consagrando as metamorfoses kafkianas ou as ousadias de Ulisses, para o deleite da suas viagens pessoais. Terminamos mantendo Sherazade viva, mesmo que seja preciso mais de mil e uma noites. O vale é o seu poder de sedução indefinível.

Estamos no século XXI. A mistura é grande. Certeau, Deleuze, Beatriz Sarlo, Adorno, Ricoeur, Duby, Marx. Não faltam inspirações e bons convidados. A história não é uma samba de uma nota só.  Talvez, pareça mais com A Sagração da Primavera, de Stravinsky, do que com Roda-viva de Chico Buarque.  Não dá para fechá-la em gavetas. O melhor é que estamos aqui, mesmo que lá fora os Correios e os Bancos estejam em greve. Os anjos tortos de Drummond nos acompanham, sussurrando no ouvido que o coração pode ser maior que o mundo.

A história se constrói com ruídos e silêncios. Um não nega o outro. Às vezes, se casam e são felizes para sempre.Entre vaidades e solidariedades, vamos observando que as máscarasm nem sempre cabem nos rostos que elas protegem. Ainda bem. O ar se respira, a história se sonha, a conversa garante a cultura, a narrativa assegura que coletivo persiste apontando futuros.Os imaginários não se descolam da vida, pois não há com fugir do real que nos cerca e nos alicia. A mapa do mundo cabe na narrativa do poeta que assistiu à criação do cosmo. Ele nunca nasceu e se confunde com os deuses.

PS: Está postada a segunda parte do texto anunciada ontem. Desculpe as armadilhas da máquina, na postagem anterior, mas elas podem acontecer de novo. A astúcia não é só minha, nem de Ulisses.

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

8 Comments »

 
  • Emanoel Cunha disse:

    É na história que o desconhecido torna-se conhecido, ou até mesmo escondido. Nem toda verdade é mentira, assim como, nem tudo é absoluto. Ao assumir o papel do historiador é necessário deslocar-se para os diversas culturas, seja olhada pelo passado ou futuro, a mesma deve ser compreendida através de seu tempo.

    A direção da história convém lembrar que é um caminho torto, onde nem mesmo as personagens mais destacáveis na história deixam de ser reanalisadas. É preciso novos olhares nos imaginários que constroem a sociedade, pois seus conceitos não só nos transmitem conhecimento, mas também perspectivas que ultrapassam além de suas realidades sociais.

    Abs professor.

  • Emanoel

    Na história, seguimos vidas e narrativas. Muitas surpresas e frustrações, mas não há uma linha reta. Muito mistura e expectativas fazem a sociabilidade se aguçar.
    abs
    antonio

  • Stéfanny Callender disse:

    Quando escutei pela primeira vez a frase que dizia que todo historiador é um bom mentiroso, não entendi por completo, e discordei. Hoje concordo e vejo que se refere à relação entre o historiador e SUAS interpretações, ao uso da imaginação, à sua relação com o mundo. Pois a mesma verdade que você julga tão irrefutável, pode ser totalmente absoluta diante de um outro olhar… E a partir disso, penso então se seria correto falar de verdade em História? Ao mesmo tempo reflito que a inexistência de uma verdade absoluta não nos impede que a busquemos diante de suas várias facetas e construções.
    Devo essa mais outras tantas expansões de conhecimento aos professores que iniciaram minha formação no curso de História, até esse segundo período.

  • DIÓGENES disse:

    Me assusta! Saber que 120 milhões de pessoas sofrem de depressão. Isso é população de um país, ou seja uma nação em sofrimento. Depressão, angústia, solidão. Ah! valores pós-modernos; me pregunto onde vamos parar…
    A sociedade segue os vários destinos do abismo. Lembro-me de Jean Baudrillard, sociedade cujos valores se regem pelo CONSUMO e pela abundancia, que resultam num afã de multiplicação de objetos, de serviços, de bens materiais. Esse abundante consumo, esse perverso quero mais e mais leva ao total abismo.
    Os valores estão perdidos e não sei se posso chamar Batman ou Superman e até os rangers não tem como morfa, a verdade é que todos vamos mofá. Mas nosso herói é Freud com sua psicanálise, esta que através das articulações com a história pode tentar entender essas conturbações de nossa sociedade. Enfim queria ser esse poeta que nunca nasceu e sonha a história e um mundo melhor.

  • Diógens

    O desamparo afetivo é enorme. Isso cria frustração e perda. Impossibilita o sonho de transformar a vida.
    abs
    antonio paulo

  • Stéfanny

    Cada historiador faz suas escolhas éticas. Ele tem compromissos com a sociedade, mas esquece a força que pode ter seus textos para renová-la.
    abs
    antonio

  • Rafael Ferreira disse:

    O mundo é complexo, cheio de falhas e problemas, desejar um mundo melhor é preciso, mas as dificuldades são muito grandes. Não são máquinas que se pode ajeitar os fios e conexões, todos somos humanos e para muitos nós somos os incorretos, cada um tem seus desejos, necessidades, medos e angústias e é difícil colocar em sintonia tudo isso, são muitas pessoas, muitas histórias e muitas mentes. Acredito que devamos ir em busca de fazer o que pudermos, reclamar é bom, mas aprender que não somos, nunca fomos e nunca seremos super-herois, e que não podemos salvar o mundo com uma simples batalha, pois nosso vilão não é apenas um ou dois, nosso vilão são todos e tudo ao nosso redor, devido que as poplexidades das pessoas causam esses problemas, e eles são muitos. Não devemos esperar milagres, mas podemos tentar sobreviver.

  • Rafael

    A questão é não valoriza a máquina de forma desmedida. Elas são instrumentos, não podem ser soberanas.
    abs
    antonio

 

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>