A natureza não se acomoda aos projetos humanos?

Ninguém desconhece a força de dominação da ciência. Ela interfere nos detalhes da vida social. Não só os privilegiados se articulam com as invenções e as descobertas que se multiplicam sem intervalos. Mesmo nos recantos, considerados mais distantes, aparecem objetos ou sonhos que mostram desejos de partilhar dos feitos científicos. Estamos ressaltando as alianças com a técnica e não, apenas, as fórmulas de laboratórios ou os devaneios teóricos. O que prevalece é o que se conquista no fazer diário, as transformações que trazem olhares renovados nas formas e nas cores: mudam hábitos de dormir, redefinem lazeres e práticas amorosas. São marcas da tecnociência.

Quem pensou que o projeto iluminista ia  fixar-se somente em afirmações acadêmicas se enganou. Quem acreditou nas utopias de liberdade plenas de generosidades também sofreu decepções. Há  momentos de viagem pelos territórios da imaginação, mas há outros que exigem visualizações concretas. A ampliação do capitalismo não poderia ocorrer, apenas, reproduzindo, para sociedade, as críticas e as reflexões de Locke, Smith, Montaigne e tantos outros. Existiam o empenho de derrubar o feudalismo, de zombar com os absurdos do clero e de duvidar das eficácias do mercantilismo. Tudo isso se fez presente. Não faltaram debates, inquietações e ansiedades para sepultar o chamado antigo regime. Permanecer nas palavras,porém, mesmo que sedutoras, não traria relações de poderes atuantes.

A industrialização deu uma sacudida no mercado e nas demandas de trabalho.  As cidades aumentaram suas populações, reconstituindo disciplinas e internacionalizado hábitos. A própria maneira de lidar com o tempo se modificou. A pressa era outra.Consolidam-se  conquistas que pedem respostas rápidas. Portanto, a natureza não se ausentou dos malabarismos da modernidade. O que é mais interessante: tornamo-nos criaturas estranhas que desconhecem os tempos passados. Os nossos corpos compõem os anexos  das novas máquinas. Há o desprezo pelos seus funcionamentos biológicos? Metamorfoses, em andamentos velozes, trazem, também, desequilíbrios. Eles acontecem e tumultuam as ordens, aparentemente, supremas.

Não vamos descrever séculos de  refazeres constantes. Os descuidos foram legitimados, pois se assumiram inversões. As ciências e o pragmatismo tinham suas fantasias. Uma delas consolidava a idéia de que o mundo estava sendo submetido a um projeto de dominação intransponível. Mais uma vez, jogavam-se fora as lacunas da incompletude. Como se perseguem, na história, os discursos onipresentes! A ciência conservou parâmetros das crenças religiosas e eliminou os poderes da magia. Inaugurava-se um cosmo, com regras divinas construídas nas meditações dos laboratórios e na sofistificação das fórmulas especializadas. Templos e altares ganharam arquiteturas profanas, mascaradas com acrobacias  incontroláveis.

Os sucessivos desastres ecológicos acordaram muita gente. A desconfiança é saudável. As sociedades continuam buscando caminhos. Toda exaltação dos saberes não se firmou passivamente. O dogmatismo não é o espelho de todos. As invenções estão comprometidas e não são neutras. Portanto, a propalada transparência é rica de ilusões. Não é à toa que tanto se discute, hoje, sobre o conceito de felicidade. Os livros de auto-ajuda difundem comportamentos e  paciências. Comte-Sponville, Jurandir Freire, Pascal Bruckner desafiam os acomodados, nos divãs confortáveis. As ruínas simbolizam travessias. A arrogância é sinal de abismo ornamentado. A dúvida tem o sabor do efêmero.

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5 Comments »

 
  • Gleidson Lins disse:

    A força da natureza é incomensurável. Mesmo quando parece dominada, ela se reinventa, modificando-se. Não há estática na natureza, e a ciência aliada à técnica, estará em constante embate pelo seu domínio, ora ganhando terreno ora perdendo, e em alguns momentos caminhando juntas.

  • Gleidson

    O equilíbrio total não existe, mas falta cuidado e uma busca pelo progresso de forma apenas lucrativa.
    abs
    antonio paulo

  • Rosário disse:

    Professor,

    Lendo seu texto, voltei-me para os ecos deixados pela leitura recente do texto de Peter Gay: O coração desvelado. Os dois textos nos deixam com o que pensar. Será que nesse mundo dominado pela ciência ainda cabem românticos, profetas e poetas que assumam a tarefa de reencantar o mundo?
    Pela desacomodação dos homens e da natureza parece que somos herdeiros de românticos imaginativos e de filósofos iluministas. Os românticos nos empurraram à demolir a razão de nossos projetos de vida e os filosófos exigem que depositássemos uma Fé ilimitada na razão. E assim parece que caminhamos com cera nos ouvidos. Às vezes nos deixamos seduzir por velhas verdades, que sob novas vestimentas, criam doutrinas autoritárias. E às vezes nos envolvemos com os construtores do encantamento. Penso em Hannah Arendt, Walter Benjamin, Terry Eagleton, Pascal Brucker, Orhan Pamuk, Mia Couto e Eduardo Agualusa. Eles encantam-nos com palavras. Estou certa de “que os grilos encantam varandas” e de que as “canções não criam ferrugem”.

    Abraços

    Rosário

  • Rosário
    Talvez, a maioria despreze as aventuras e as sensibilidades. Mas não podemos esquecer as coisas do coração e a magia. O perigo da mesmice é terrível.
    abs
    antonio paulo

  • Paulo Marcelo disse:

    Prezado Mestre,

    Com relação aos avanços tecnológicos x meio ambiente , ao meu ver
    existe uma polaridade que na verdade dentro do escopo a que se pretende englobar tem a função de colocar uma nuvem de fumaça no bom senso.
    As construções das grandes hidrelétricas no Brasil é um bom exemplo , temos de um lado um governo que planeja de forma equivocada os empreendimentos do ponto de vista ambiental, pois; não faz o estudo de viabilidade ambiental de forma correta, não lista os impactos as comunidades e meio biótico e usa o argumento do crescimento econômico para justificar tudo de forma ditatorial. Termina aprovando seus projetos mesmo sem a aprovação dos seus técnicos.
    Sabemos que todo esse empenho está ancorado nos interesses privados que anteriormente regaram as suas fabulosas campanhas políticas.
    No outro extremo estão os radicais que se posicionam sempre contra qualquer projeto , contudo querem ter em suas casas o conforto da energia elétrica.
    Acho que falta um equilíbrio de entender a importância das duas coisas , presevação ambiental e desenvolvimento social e econômico. Sei que este equilíbrio não é fácil, mas sem honestidade e humildade fica mais difícil.
    Temos que esquecer as questões individuais e pensar no todo,pois a natureza depende de nós as nossas ações de agora terão reflexo no futuro dos nossos filhos.

 

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