A navegação dos sentimentos: os ritmos (des)encontrados

Quem afirma que os sentimentos morreram e proclamam a objetividade total não conseguem ver a vida. Ficam encantados com a acumulação de mercadorias e fazem de tudo um grande negócio. Não querem saber de perdão, nem de nostalgias. Cultivam uma contabilidade mesquinha, habitam nos territórios dos lucros, na expansão dos narcisismos. Não pense que é exagero. Na sociedade humana, há espaços para a diversidade. Ele não é, apenas, a síntese dos bons encontros e da solidariedade. Existem divergências e choques cotidianos. Os disfarces ajudam a mostrar filantropias que não modificam o ritmo dos desprezos e da concentração de riqueza.

Sentimento dialoga com sensibilidade. Atravessa a história, motiva amores e medos, traz a contemplação e o cuidado. Há, sempre, um desejo de utopia que impede o pessimismo radical. Não adianta o capitalismo articular seus mercados, prometer a salvação pela grana. A homogeneidade não se concretiza, pois a desconfiança e a crítica costuram o estar no mundo. Tramar o fim das diferenças, a celebração de dominações perenes, é uma prática que não sai do ir e vir da história. No entanto, as rebeldias não sossegam. A coragem não é uma ficção. As navegações possuem turbulências e ruídos, não registram, somente, calmarias e desistências.

O sentimento dói, conversa com as ambiguidades, se distrai com a alegria, se recolhe com as tristezas. O ritmo do tempo borda mantos de saudades. Estamos no meio de tantas coisas que é impossível classificá-las com exatidão. As saudades nos atingem, sobretudo, quando as perdas nos surpreendem. Elas não desaparecem e se escondem nos labirintos. Há retornos, há desequilíbrios, pois o mundo não é mesmo, apesar das permanências. Não visitamos a velhice com o impulso que nos constrói jovem. Os afetos possuem uma complexidade que tumultua quem acredita que existem respostas para tudo.

A vitória das teorias racionalistas não significa a quebra da necessidade do outro. O sentimento é a busca da companhia, o desmanchar do vazio. Se inventamos matemáticas, também inventamos músicas, escritas, desenhos. A cultura é inquieta e o futuro imprevisível. Já se apostou em muitas profecias que se fragilizaram. Os valores não tem vida longa numa sociedade que exalta a velocidade. Não podemos, porém, apagar os limites. Flutuamos entre as ordens e as transgressões. A memória nos protege de algumas repetições, atiça esquecimentos, retoma circunstâncias, aparentemente, desfeitas. As vacilações não cessam, como também o arquitetar do efêmero.

As leituras dos mitos nos mostra as espertezas das convivências sociais. Quem lê as tragédias de Ésquilo e Sófocles observa como os tempos se tocam, com as reclamações se mantêm. As sociedades, contudo, não se compõem com as mesmas vestimentas. Os sentimentos não deixam de existir, ganham outros exílios. Descuidar-se do outro é uma ameaça para quem navega nos mares da solidariedade. A construção dos contrapontos dá fôlego aos que se negam à monotonia do lugar comum. Se a saudade não multiplicasse as lembranças, a sensibilidade se reduziria.  Mudam as formas, os sabores dos sofrimentos, a fantasia do divino. Um quadro geometricamente determinado, porém, pouco diz do sonho.

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