A nudez obscura da história

Desde os primórdios se fala de nudez. Hoje, muitos buscam ou prometem transparência. Na época do Iluminismo, se cantava o poder da razão e a possibilidade de mudar a sociedade e consolidar um saber indiscutível. Aconteceram grandes revoluções, as relações se modificaram, a economia acenou com o progresso, contudo surgiram novas dúvidas e desconfianças sobre o que significa a entrada do capitalismo e a exploração do trabalho,. A miséria ocupava porções importantes do mundo e a competição procurava estimular as invenções de mercadorias. Uma globalização se desenhava com traços tortos que ainda permanecem. As críticas assanharam utopias, Marx compreendeu as dissonâncias avassaladoras e Nietzsche se convenceu que os valores se esfumaçavam na cultura ocidental.

As transparências eram ilusões e as formas de enganar se sofisticavam. O mito da nudez se entrelaçava com as lembranças do pecado original. As lendas continuavam e o sentimento de culpa trazia reflexões que Freud aproveitou para analisar o lado obscuro de nós mesmos. Não é à toa que a sociedade se abalava e sentia dificuldade de estabelecer a igualdade e a fraternidade. Os sonhos se sujavam com os pesadelos, as rebeldias não voavam e a modernidade consistia em mais uma complexidade. A ciência seculariza os saberes, porém as religiões não se distraíam e navegavam entre incoerências e orações.

O século XX atiçou confrontos, não deixou de lado o narcisismo e articulou opressões.Quem pode esquecer o nazismo, as torturas dos campos de concentração, as intolerâncias políticas, as vacilações da Revolução de 1917? As guerras consolidaram violências preparadas com sagacidades inesperadas. Quebra de solidariedades, fechamentos de portas para democracia e a nudez vestida para continuar cultivando o mito do progresso. Como compreender tantas desavenças, escravidões cotidianas, depois de acenos para se livrar do mal estar que atormentava os seres humanos? Muitas teorias, especializações, escritas codificadas.

As práticas se mantêm e assustam. O desemparo visita corações e as depressões se instalam. As ruas se enchem de farmácias, as doenças apresentam metamorfoses estranhas. O lado obscuro existe e tem uma cartografia que confunde. Não há como vencer tantos paradoxos, nem revelar o caminho para decifrar as possibilidade de realimentar alternativas para expulsar os ressentimentos. A história assombra, não se compõe sem delírios, se expande com dores e se afasta das arquiteturas do paraíso, Vivemos no meio de ruídos. A nudez é castigada ou os limites não se irão dos encontros que passeiam pela história. Freud morreu desacreditando os chamamentos da esperança. Alguém se reinventa numa sociedade de valores que celebram e justificam autoritarismo? Talvez, nem Freud explique. E você?

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1 Comment »

 
  • Rivelynno Lins disse:

    …o breve século XX das guerras e das avançadas tecnologias. Na Primeira guerra, o mundo conhecia uma Alemanha que despontava como potência, foi destruída, se reergueu novamente na Segunda Guerra e novamente foi destruída, tendo o protagonismo da Itália ao seu lado, que também foi destruída. Tanto a Alemanha quanto a Itália fortaleceram governos totalitários de grande apoio popular, fizeram seus países crescerem, mas diante da grande ambição econômica de dominarem o mundo para si, acabaram destruídas. Na história, a razão, a emoção, a ambição caminham não necessariamente separadas, e assim, produzem seus inesperados efeitos. Nós torcemos pelos valores democráticos no mundo Ocidental, mas talvez esquecemos que estes valores nunca permearam de fato, grande parte do mundo pobre, seja ele Ocidental ou Oriental e nunca nos importamos de fato com isso. Hoje vivemos num Brasil chamado de pré-fascista, por muitos estudiosos, a quem devemos pedir clemência, piedade, ajuda? Porque a pergunta se inverte: de quem tivemos pena, qual o país ajudamos de fato? É preciso desnudar a falta de um pensar coletivo num mundo de hoje, talvez, este seja um grande desafio, como também, ter em mente o princípio da paz como um valor universal a ser de fato implantado e sentido no mundo globalizado e partilhado por todos…

 

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