A paixão correndo na velocidade do cotidiano

  

Fico imaginando como o Carnaval mudou. Fui um folião de grande pique. Hoje, não consigo cumprir a maratona. Nem me arrisco. A multidão não deixa espaço, para quem, antes, se entregava ao frevo, com todo corpo. O Carnaval virou um espetáculo desmesurado. Quem adora essas mudanças são as televisões. Muita propaganda milionária e transmissões exaustivas garantem um fabuloso retorno financeiro. Os blocos ganham espaço, com incontáveis adeptos. Não é mais aquela coisa da vizinhança. Tudo tem a companhia de cantores e cantoras, com melodias diversas, nem sempre adaptadas ao tempo da festa. O que importa é o show e as especulações sobre as contratações feitas pelos órgãos públicos.

Elogia-se  a descentralização. A folia espalhou-se. Está em vários bairros. Uma descentralização democrática, um plano de excelência multicultural, dizem os políticos que não cessam de sair em fotografias. Como se mostram fanáticos pelo Carnaval, de olho na popularidade e nas próximas eleições! Devem fazer uma longa preparação física, pois estão em toda parte. Correm atrás de tudo que passa e se esbaldam nos cumprimentos. É uma festa de atrações inesquecíveis, com a invenção de bonecos gigantescos, homenageando figuras ditas históricas.

As paixões de Pierrot e os charmes de Colombina pertencem ao passado. Agora, é o fôlego de Ivete Sangalo, a vitalidadade de Elba Ramalho, as enrevistas dos artistas da Globo. A fama não perde lugar. Vestiu-se da onipresença. Aparecer no Carnaval é assinatura de contratos  e grana no bolso. A dúvida existe: Salvador, Recife, Rio de Janeiro. Onde se encontra a maior badalação? A disputa não é pacífica. As escolas de samba conseguem, ainda, ser o centro de interesses. Seus camarotes são suntuosos e as marcas de cerveja investem em novidades anuais.

Em Salvador, os trios elétricos desfilam. Muita música, mas também cálculos empresariais bem evidentes. Uma maravilha, para quem se diverte, cercado de cordões de isolamentos e ruídos de toda espécie. Há os fanáticos, as torcidas, os que não perdem as performances de Cláudia Leite. Surgem ídolos. Desaparecem ídolos. O efêmero acompanha todo o movimento. Carnaval é paixão, inquietude, fogo. Quem quiser reflexões sobre as essências do mundo, acalme-se no seu quarto ou procure uma ilha deserta. Não se apavore, que a vida tem suas pressas, não comemora só datas, porém busque estender suas trocas, independente das brigas por poder ou das artimanhas do Congresso Nacional.

A terça-feira já chegou. As lembranças do Galo da Madrugada ficam mais distantes. Alguns já começam a fazer seus balanços. Avaliam se valeu, andar pelas ladeiras de Olinda, com coração pulando e um sorriso pré-fabricado no rosto. Há os arrependidos. Outros visualizam o futuro. Desistem de certas brincadeiras e se prometem menos ansiedade. O jogo é colorido e não despreza máscaras. Quando a cotidiano reassumir seu ritmo de trabalho e estudos, talvez nem sobre tempo para maiores divagações. A velocidade agora é outra, exige mais desprazeres, abraços pouco agradáveis e paciência. Ninguém passa sem fantasias. As praças de alimentação esperam seus frequentadores e as academias a vaidade de seus atletas. O relógio dança seu frevo, animado.

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