A vida ensina, a contemplação aprofunda

A derrota traz o sufoco. Um gosto amargo que inquieta. Agita mais que a vitória, pois tem um movimento de retorno a lembranças desagradáveis. Não está desligada do futuro. Quando a  gente perde, o desejo de se deslocar é imediato. Talvez, em outro lugar a respiração chegue, com mais intensidade, e o tempo ganhe o fluir lúcido da serenidade. Por isso, a vida possui balanços e engana-se que a restringe a uma linha reta.

A sinuosidade é complexa, porém audaz. As esferas dão a impressão que não tem começo e, repentinamente, se constituíram para rolar pelo mundo. É uma invenção fabulosa. Armando Nogueira disse que até a  bola pedia autógrafo a Pelé antes do jogo se iniciar. Quem costuma exercer seu trabalho com arte, compreende que a pedagogia da vida se insinua por trilhas inesperadas. Isso é desafio para sensibilidade, para além do que parece evidente. A arte não é apenas a sedução, o impacto da estética no olhar de cada um.

A arte se articula com a contemplação, ato sublime, pouco aceito na sociedade contemporânea. Ela desfaz a pressa e alerta que a diferença não é penitência, para quem comeu a maçã do paraíso. No entanto, cultivamos a pressa, exaltamos a velocidade e maldizemos o tempo que não ecoa com o tilintar das moedas. É a medida que escolhemos e elegemos, assim, os princípios da nossa época. A reflexão incomoda, arranha. Esquece-se que toda ferida tem cura, desde que a dualidade não seja soberana.

Mascaramos a ansiedade, prolongamos a depressão. Quando o tempo se apresenta lento, tememos a tristeza e insistimos na insatisfação. Não cogitamos que a depressão é forma de negar a velocidade que nos é pedida. Quase não se fala no poder de decisão. Tudo vem embalado, com rótulo e fórmula, com letras pequenas. Resta engulir a pílula, pois dá preguiçar decifrar o tamanho da sua necessidade. A cultura sobrevive com dificuldades. Pouco sabe sobre o valor do artificial. Os espertos fazem do preço a moradia das suas certezas.

O jogo traz a pedagogia para sua representação maior. Não é brincadeira tola. Não se trata do domingão do Faustão. Por que condená-lo? Há milhões de pessoas que o aplaudem. Quem garante que estão coladas nos seus prazeres?  Talvez, esteja, ali, o jogo que a sociedade, na sua maioria, mais aprecie. A tarde de domingo se vai e sem nem sinais das dissonâncias do passado. A pegadinha nos faz rir do outro, sem sentimento de culpa. A atmosfera da  inocência, no altar da privilegiada Globo.

Cada época surge com seus ensinamentos. Não há descanso, nem verdade adormecida. O Milan não se tocou com as propostas para liberar o singular Ronaldinho. Estipulou a quantidade de euros e desmontou os boatos. O Grêmio tremeu e o Palmeiras cavou mais um palmo da sua  sepultura. O objetividade mete medo, desarruma, retira a graça de quem vive de conversa fiada. Inventar notícias é uma roleta. Só convence que naufraga na pressa, como se a diversão sintetizasse a magia da vida.

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4 Comments »

 
  • Flávia Campos disse:

    A Arte, Antônio, além de sensibilizar, de seduzir, de desfazer a pressa, de ensinar a contemplar, faz um trabalho genial, revela a alma do artista. Revela sua respiração, a intensidade de suas palavras, “o fluir lúcido da serenidade” buscada e achada.
    A Arte também expressa o que se consegue compreender e perseguir da vida. Ela nos mostra que sabemos muito pouco. Deixa-nos mais humildes, e, ainda por cima nos renova, e nos convida a “perceber os balanços” que não reduz a vida “a uma linha reta”.
    Como viver sem ela?
    Sempre é melhor viver com ela… viver por ela!
    Bjs
    Flávia

  • Flávia

    A arte deixa a vida solta e mágica. Mas o mundo de hoje possui outros anseios.
    bjs
    antonio paulo

  • Rosário disse:

    Olá Antonio Paulo,

    Eis, que volto a ler seus textos! Depois da correria das festividades mercadológicas do fim de ano fica mais fácil perceber como somos pouco contemplativos. Pressa. Correria. Angústia…
    Mas a contemplação é o cultivo de pequenos prazeres que de tão pequenos as vezes parecem extintos. Contemplemos!

  • Rosário

    Temos que curtir e aprender. Não dá para se fechar. A vida é muita coisa.
    um bom 2011
    abs
    antonio paulo

 

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