A pedagogia das derrotas e as curvas das dualidades

Quem pensa que há um fim para tudo, pode enganar-se. Nada nega que as aparências escondem muita coisa. Quando o mundo será transparente, como prometem religiões, políticos e intelectuais? Profecia difícil e preocupante. A sombra e a luz se complementam. Não se estranham. Mudam de lugar e de forma. No entanto, tocam nos olhares dos humanos de diferentes maneiras.

O amanhecer do dia não significa que tudo se resolveu. O sono é, também, movimento misterioso, sede de acontecimentos pouco iluminados. Acordamos com pressentimentos. Ficamos refletindo, antes de tomar impulso para a vida cotidiana. Criamos roteiros, balançamos a memória. Ontem, meu time perdeu, minha namorada nem telefonou, meu filho criticou a organização da família. O amanhã possui tintas do desenho do passado.

O tempo não requer linha reta, mas curvas, sinuosidade e disposição para fugir das inércias e dos acordos mal definidos. Por isso, não esqueçamos que a vida está  plena de pedagogias. Não imagine ser senhor de todos os saberes, nem que as máquinas aliviaram todas os escorregões, apagando os dissabores. Aprender é ato fundamental. Aprofunda e conecta as multiplicidades. Ganhar, apenas, é momento, não garante permanência de alegrias ou descanso sem prazo de finalização.

A cultura é uma invenção que segue adiante, na medida que esticamos e diversificamos nossa autonomia. Temos futebol, paciências, partidos políticos, Charles Chaplin, Kant,  tensão, borracha, física, sortilégios… Não faltam palavras. Para cada invenção, um nome e seus significados.A linguagem tem corpo e sangue, com diria Otavio Paz. A surpresa assusta. Mas imaginou uma sociedade da mesmice, dormindo na eternidade de um caminho sem pedras, nem abismos? Não haveria reclamação, desespero, monotonia?

São perguntas. Trata-se de um jogo, da especulação que não é gratuita, mas alicerça a inteligência e a vontade de transformar.Isso não é dualidade. Os extremos tem brilhos especiais. Não vamos medir, com fita métrica , a distância entre o bem e o mal. Eles são históricos e não resultados de campanhas políticas. A flutuação do cosmo garante navegações inesperadas e os sentimentos vestem os corações. Nada está pronto. O inacabado é um vizinho que bate na sua porta sem cerimônia.

A visão do apocalipse surge, quando o mundo está nublado pelas incertezas. São guerras fundamentalistas que aproximam a religião da política, festejando o maniqueísmo primário e infantilizante. O medo não escapa da pedagogia. Ela não tem um alvo único. Ensina-se tudo, dependendo do tamanho da ética que se adote. No esporte, no amor, na diversão, na ciência. Há escolhas pragmáticas, de mentes ajustadas para as fortunas metálicas.Há escolhas solidárias, de mentes soltas para compor a leveza do mundo.

A mentira e a verdade passeiam pela sociedade. Sabem que recebem olhares. Sabem que são construções humanas. Não existe um dia em que não circulem. Giram. Escandalizam. Enternecem. Desmontam. Quem faz da vida o apagar das experiências, o explodir das novidades, a entrada em cavernas avulsas, expulsa a emoção e se prende ao futuro. Sem pertencimentos, somos menos do que bolas de papel. Destruindo dúvidas, acreditando na onipotência do google, desprezando as astúcias de Duchamp, esgotamos o desejo de ser arte.

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1 Comment »

 
  • Rafael disse:

    Antonio:
    Minha pequena maturidade me fez pedir ajuda ao celebre Euclides da Cunha para tentar comentar à altura seu profundo texto: “É difícil traçar no fenômeno a linha divisória entre as tendências pessoais e as tendências coletivas; a vida resumida do homem é um capítulo instantâneo da vida de sua sociedade.
    Acompanhar a primeira é seguir paralelamente e com mais rapidez a segunda; acompanhá-las juntas é observar a mais completa mutualidade de influxos.”
    Atenciosamente, Rafael
    abraço

 

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