As palavras preguiçosas e as infantilizações contínuas

 A força das palavras não morreu, mas sofre abalos. As letras das músicas nos trazem exemplos indiscutíveis. Há versos feitos, com poucas palavras, e repetições exaustivas. Nem vou falar dos ritmos, nem ressaltar os poetas maiores como Chico Buarque, Drummond, Neruda, Pessoa, Vinícius… Não se descuidem do nome de Chico e procurem escutar Beatriz ou Carolina. É, apenas, uma sugestão. Nunca me esqueço que para sempre é sempre por um triz. A roda do sucesso privilegia o que é fácil de memorizar e ajuda a balançar o corpo. Meditar fica para os quietos e tristonhos. O efêmero mantém o seu lugar, porque é preciso sorrir, exibir alegria.

A necessidade do mundo do sucesso investe na superfície. Como tudo é uma mercadoria, não há razão para filosofias. O negócio é fazer a cabeça desmanchar as agonias e celebrar a elegância de uma boa imagem. Portanto, textos longos causam, para muitos, dispersão. Querem delírios, gritos, sons ruidosos. Ler, com vagar, parece uma visão medieval.Tudo se contamina. A alimentação, o afeto, a sexualidade ganham, também, os lugares da pressa. A cultura busca renovar seus significados, porém a palavra produzir é demolidora e soberana. O tempo se resume a um instante que passa anônimo.

A capacidade de inventar palavras, de esticar as argumentações, de pensar em transgredir está em crise. Poucos percebem o quanto as imagens se multiplicam e, praticamente, tomam conta do cotidiano. Alguns dizem que o gesto simboliza, com eficiência, qualquer desejo de comunicação. Melhor do que narrar é navegar, consideram outros, pela sequência de fotografias. Elas são registros fabulosos que perdem espaços para os vídeos. Portanto, a mudança é acelerada. O perigo é negar a memória, jogar-se num futuro, ser envolvido pela cibernética e não imaginar alternativas. Prevalece a imitação, o desenho se reproduz, a pedagogia do mesmo se assanha como estratégia  para acumular conhecimento, sem suor e sangue.

Quantas palavras já foram usadas no texto, quantos significados você traduziu. Nietzsche afirmou que viver é interpretar. Na medida em que se tornam escassos os caminhos da invenção, a vida se encolhe, termina achando a casa do BBB um sonho inalcançável. Por isso, o cuidado não deve ser evitado. A diversão vale, suaviza os embates. O certo é manter-se como espectador, paciente, comendo batatas fritas e bebendo coca-cola, sem se ligar no que surge na tela? Há pessoas que nem se recordam do que viram no cinema, mas não perdem o gosto do que se agarrou na boca. Viva a pipoca!

Tudo toca no lúdico sagaz. Ele demanda inteligência, poder de leitura para as relações sociais. Viver no mundo como uma janela aberta sem olhos é enfiar a cabeça embaixo do travesseiro, embalado por uma boa dose de ansiolítico. Observar que os minutos possuem conteúdos, que o abraço devolve a coragem, que a criança curte a ingenuidade sem culpa, auxilia a cultura a criar suas travessias. Frases curtas, sinais obscuros, preguiças de e-mail podem ser fatais. A infatilização não é exagero. Ela explica muitos desacertos e contrapontos. O excesso de ornamentações anuncia ilusões vadias e desgovernadas.

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